Nem Eduardo Souto Moura nem Siza Vieira querem a nova ponte de Tavira

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Álvaro Siza Vieira e Eduardo Souto Moura assinam o manifesto coletivo «Por um Projeto de Cidade para Tavira» que o «Tavira Sempre» apresentou ontem na sessão da Assembleia Municipal. Movimento cívico lamenta que o executivo tenha «ignorado» o documento subscrito por alguns dos melhores arquitetos de Portugal.

Decorreu ontem à noite mais uma sessão da Assembleia Municipal de Tavira, onde foi debatido o Orçamento Municipal e outros temas que marcam a atualidade daquele concelho.

A meio da sessão foi dada a palavra ao público presente, que enchia totalmente o espaço que lhe é reservado. Das seis intervenções do público, três foram centradas na questão da nova ponte rodoviária sobre o Gilão.

O movimento cívico «Tavira Sempre», que a presidente da Câmara Municipal de Tavira Ana Paula Martins considerou «desrespeitar reiteradamente» o executivo municipal, apresentou, leu e distribuiu um manifesto, subscrito grandes nomes da arquitetura portuguesa como Siza Vieira e Eduardo Souto Moura.

Dois outros cidadãos manifestaram-se também contra a construção de uma ponte rodoviária.

Nas bancadas dos vários partidos com assento na Assembleia Municipal ficou claro que PSD, BE e PCP estão contra a nova ponte rodoviária, deixando totalmente isolada a bancada do PS.

A autarca voltou a afirmar que o projeto seria executado e que estava «totalmente fora de hipótese qualquer mudança».

Mas a afirmação da noite terá sido a do presidente da Assembleia Municipal, José Otílio Pires Baía (PS), que considerou existir «grande confusão» relativamente à utilização da ponte pelo trânsito automóvel.

De acordo com José Baía, esse trânsito só acontecerá em «situações excepcionais». E caso não seja isso que virá a acontecer, será ele o «primeiro a opor-se» e estará na linha da frente dos que se vão opor ao trânsito automóvel quotidiano na nova ponte.

Segundo um dos presentes na sessão disse ao «barlavento», «o presidente da Assembleia Municipal não deixou que qualquer outro deputado se manifestasse sobre o assunto da ponte depois das intervenções do público».

Mesmo depois de terem sido lidas as recomendações de dois arquitetos vencedores do prémio Pritzker, «a presidente Ana Paula Martins disse que era tarde, que custava muito dinheiro suspender a obra. Mas quanto custará ficarmos com um mamarracho para sempre?»

«O presidente da Assembleia Municipal foi muito agressivo e acusou alguns signatários de terem três dias de profissão, desprezando completamente o manifesto. Metade dos presentes abandonou a sala em protesto pela falta de visão e diálogo ali demonstrado», disse ainda a mesma fonte.


Ouvida pelo «barlavento», Catarina Corvo, membro do Movimento «Tavira Sempre» explicou que «o manifesto partiu de arquitetos com ligação a Tavira e que sensibilizaram outros colegas que decidiram contribuir, pois que não se identificam nem com o processo, nem com as metodologias utilizadas pela Câmara Municipal de Tavira».

«Eduardo Souto Moura tem obra feita em Tavira. Carrilho da Graça tem obra e casa em Tavira. Este tipo de problemática é uma preocupação comum de todos os que valorizam a preservação do património. Fala-se no meio da arquitetura. Este manifesto é rico a todos os níveis, tanto pela importância da mensagem, como pelos seus signatários. Seria um erro por parte da autarquia não prestar atenção a este sinal e continuar a insistir no erro. É preciso coragem para dar um passo atrás, mas é essa coragem que distingue um bom líder. Nunca é tarde para decidir fazer melhor», concluiu.