Museu da antiga Tipografia União de Faro será realidade

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Museu da antiga Tipografia União de Faro está mais próximo de ser uma realidade. Primeiro passo foi dado com a assinatura do protocolo entre a Diocese algarvia, o município e a Universidade do Algarve (UAlg).

Localizada na Vila Adentro, adjacente ao Paço Episcopal, no número 14 da Rua do Município, funcionou entre 1909 e 2013 a Tipografia União, constituída pela Diocese do Algarve.

A vontade de transformar aquele espaço num Núcleo Museológico remete a julho de 2017, durante o lançamento de uma reprodução fac-similada do Pentateuco, o primeiro livro impresso em Faro e em Portugal, em 1487.

Três anos depois, o projeto está agora mais próximo de se tornar uma realidade com a assinatura do protocolo de colaboração interinstitucional entre a Diocese do Algarve, o município e a UAlg, na manhã de sexta-feira, dia 11 de dezembro, em plena sala de Pintura do Museu Municipal de Faro.

A assinatura do protocolo entre as três entidades vem assim confirmar a existência do conjunto significativo de bens culturais, de interesse histórico, no âmbito da imprensa, guardados no espaço da antiga Tipografia, durante mais de um século.

O município reconhece a relevância daqueles bens, e para a Diocese, proprietária do espólio, o interesse é o de valorizar e divulgar aquele património ao serviço da comunidade. A UAlg junta-se com o objetivo de realizar a investigação científica. Um trabalho que irá começar em 2021, terá a duração de um ano e um valor estimado de 33.589,81 euros, acrescidos de IVA.

«O que vamos fazer é o estudo que conduzirá à criação do Núcleo Museológico da antiga Tipografia União. Além da inventariação, vamos também fazer o levantamento e o estudo documental do que lá existe em torno da imprensa escrita e da história não só da Tipografia, mas também da cultura impressa no Algarve e em Faro».

«A história daquele espaço conta a história de uma região e de vários períodos que demonstram que culturalmente o Algarve teve uma relevância que é muito desconhecida da maior parte da população. Depois da inventariação, é pensar em como é que as narrativas de maior significado vão ser contadas ao público. Vamos tentar tornar a proposta o mais inclusiva e multisensorial, indo também ao encontro das novas tendências de museologia de interatividade», explicou aos jornalistas Alexandra Gonçalves, coordenadora do estudo, levado a cabo pela UAlg, para a constituição daquele Museu.

Questionada sobre que tipo de bens materiais se encontram no espaço, Gonçalves revelou que, apesar do levantamento ainda não se ter iniciado, sabe-se que existem «máquinas tipográficas e prensas muito relevantes, com grande valor histórico e únicas. Mas também um acervo documental, tipos e toda uma base de maquinaria muito interessante». Facto que levou ainda a coordenadora a afirmar que a região e a academia vão ganhar um «novo centro de debate de conhecimento, porque há muita coisa da história do Algarve que está por conhecer e por divulgar. Esse é o objetivo maior da concretização deste futuro Núcleo. Há alguns mitos e histórias, que vamos aprofundar neste processo de investigação, e que vão reafirmar Faro na centralidade que teve».

À docente Alexandra Gonçalves, que ficará responsável pela gestão museológica, cultural e de turismo, junta-se Patrícia de Jesus Palma, investigadora na área da imprensa escrita algarvia; Maria Caeiro, docente na área do Design; Mauro Figueiredo, professor na área da Computação dos Sistemas de Informação e Bruno Silva, especialista em Cinema, Audiovisuais e Literatura.

De acordo com a opinião da coordenadora, «creio que temos condições para em conjunto conseguirmos estabelecer um rumo, uma proposta de uma nova atração cultural e sobretudo um novo pilar cultura, de criação e de conhecimento», na região.

A perspetiva é que no final do próximo ano, ou no início de 2022, a equipa de investigação da academia tenha uma proposta para apresentar. Até lá, há alguns planos que ainda estão a ser a delineados.

«Estão previstas visitas a outros espaços, que já têm um Museu criado na área da imprensa, para estudar o que de melhor os outros estão a fazer. Vamos ver o que a pandemia nos permite e qual a sua evolução, mas temos visitas previstas a outras realidades fora de Portugal. Também não estão esquecidos do programa os financiamentos que possam acontecer para a continuidade do projeto. A própria equipa, nos seus desafios, propõem-se a identificar linhas de financiamento que possam contribuir para esta centralidade da cultura escrita em Faro», concluiu a coordenadora aos jornalistas.

Vila Adentro reúne uma cidadela do conhecimento»

O Reitor da UAlg, Paulo Águas, que assinou o protocolo ao lado de Rogério Bacalhau, presidente da Câmara Municipal de Faro e César Chantre, vigário geral da Diocese Algarvia, no uso da palavra começou por dizer que o estudo que a academia vai iniciar «trata-se não só de uma proposta de musealização, mas também de um acerto tipográfico pois Faro e o Algarve possuem histórias para contar».

Segundo Águas, «hoje estamos muito longe do dia em que nasceu a escrita e por isso perdemos de vista a sua importância e o seu valor para a humanidade. A Universidade tem uma das suas missões a construção de conhecimento a partir da comunidade onde se insere. A história deste estudo e deste protocolo inicia-se nas comemorações dos 530 anos do Pentateuco. Desde então temos vindo a trabalhar e chegamos a este momento em que se reconhece que a Vila Adentro reúne uma verdadeira cidadela do conhecimento, juntando dentro de muralhas o Seminário de São José; a antiga Academia de Matemática do Regimento de Artilharia; a Escola Normal d´ensino mútuo; o Liceu Nacional; a Escola de Desenho Industrial de Pedro Nunes, hoje Escola Tomás Cabreira; o Museu Marítimo Industrial que deu lugar ao Museu Marítimo Ramalho Ortigão; o Colégio Sagrado Coração de Jesus e a Escola do Magistério Primário. De facto há aqui um núcleo de cultura e conhecimento que deve ser o nosso ex-libris».

Paulo Águas.

Por parte da UAlg, o Reitor assegura que «através da equipa multidisciplinar, que integra investigadores de vários centros, vai desenvolver um trabalho de estudo, de inventário, de levantamento documental e de investigação que culminará na proposta da criação do Museu. A equipa pretende ir mais longe e fazer um modelo inclusivo, intergeracional, multisensorial, que seja um ponto de encontro entre cultura, escrita e religiões e que perspetive o futuro da impressão, respondendo aos desafios globais».

Por fim, Águas acrescentou ainda que os investigadores pretendem criar naquele espaço, um local de «mediação de opiniões e histórias, que não se estabelece apenas como um preservador de memórias, mas também como um promotor de novas ideias».

«Não sei o que seria do Algarve sem a UAlg»

O presidente da autarquia farense, referiu que a antiga Tipografia União «tem um espólio físico, mas também humano, das histórias todas que por ali passavam e de tudo aquilo que ali se desenvolveu, como a impressão do primeiro livro. Nesse sentido, é preciso pegar nessa história e devolvê-la aos tempos atuais. É isso que a UAlg vai fazer no próximo ano, conceber um modelo de Núcleo Museológico para contar essa história e pô-la à disposição de todos».

Ainda em relação à academia, Rogério Bacalhau disse que não conseguiria imaginar o Algarve sem a UAlg. «É certamente a instituição que mais contribuiu para o desenvolvimento desta região».

Rogério Bacalhau.

Já sobre a Diocese do Algarve, o presidente afirmou que tem «um papel importantíssimo tanto no aspeto espiritual, como no social e no património. É preciso ver que não só na Cidade Velha, mas em todo o concelho, a Igreja tem um património valiosíssimo e que está impecavelmente bem preservado, com muito esforço da Diocese. Isso é um bem para todos nós e incentivo a que continuem com esse trabalho».

No fim do seu discurso, Bacalhau caracterizou o futuro Núcleo Museológico como «história farense, que merece ser preservado e que a sua história seja contada para que todos nos possamos também orgulhar daquilo que fizemos e daquilo que somos».

Edifício rico em materiais, pobre financeiramente

A assinatura do protocolo de colaboração interinstitucional entre a Diocese do Algarve, o município de Faro e a Universidade do Algarve (UAlg) ficou também marcada pelas palavras do cónego César Chantre, o vigário geral da Diocese algarvia.

«Este encontro, que parece tão simples, tem um significado muito forte: o sublinhar da cultura da nossa terra. E a cultura da nossa terra passa necessariamente pelo Cristianismo. Sabemos, que em todos os cantos da Europa, todas as vezes que o Cristianismo foi silenciado e todas as vezes que se fingiu que não fazia parte da cultura dos países europeus, outras culturas tomaram o seu lugar, e a Europa perdeu o Norte», começou por proferir.

Ao microfone, o cónego afirmou mesmo que: «ou regressamos às raízes culturais do nosso povo ou dificilmente os países serão nações. O Estado existe para servir a nação. O Estado é laico, mas a nação é crente na diversidade das suas crenças. Com esta expressão cultural, seja na arquitetura, seja no desenho, seja na música, encontramos a beleza dos séculos nos diversos autores. O Cristianismo, de facto, moldou, molda e continuará a moldar as nossas culturas».

César Chantre.

Na opinião de César Chantre, Faro tem na Vila Adentro uma oportunidade única na região. «O Largo da Sé, a Sé, o Paço Episcopal, o Seminário de São José e o município têm que dar as mãos para que esta zona geográfica da cidade seja o ex-libris do Algarve», disse. No entanto, em relação ao edifício da antiga Tipografia, o vigário geral revelou que se encontra «em estado avançado de degradação». A mensagem foi clara: «Ou se toma conta imediatamente, ou então pode-se perder irreversivelmente aquele património muito rico em bens materiais, mas muitíssimo pobre em termos financeiros», alertou Chantre.