Monte da Casteleja lança primeiro vinho algarvio sem sulfitos adicionados

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Monte da Casteleja, em Lagos, produz o primeiro vinho sem adição de sulfuroso na região algarvia, que simboliza o apogeu da «caminhada de uma vida» de Guillaume Leroux, produtor que se converteu, em 2007, aos métodos biológicos, em respeito pela natureza.

Um vinho «expressivo e com muita fruta, para beber fresco, que acompanha bem peixe, grelhados e faz par ideal com o tempo quente». É desta forma que Guillaume Leroux, produtor, enólogo e responsável pelo Monte da Casteleja, às portas de Lagos, descreve o seu novo Palhete 2020, o primeiro vinho algarvio sem adição de sulfitos, feito a partir da casta Bastardo e lançado para o mercado num lote limitado a apenas 1000 garrafas.

O produtor de 56 anos, nascido em Paris mas a viver em Portugal desde os três anos, filho de pai francês e mãe lacobrigense, aponta ao estágio de quatro meses em barricas grandes como essencial: «não dá demasiada evolução a este Palhete e, assim, ajuda a guardar a fruta. Confere-lhe um aveludado muito agradável e ajuda a dar identidade ao vinho».

É que, sendo totalmente isento de sulfitos adicionados, o vinho não pode ultrapassar os 10 miligramas por litro, valor que baliza os compostos naturalmente formados pelo seu desenvolvimento natural, necessitando por isso de encontrar «outros suportes dados, por exemplo, pelo corpo. É aí que entram em ação as barricas, na produção deste vinho de cor tinta clara. Não é um Rosé, é um Palhete. São coisas diferentes, com métodos de produção diferentes. Os Rosés necessitam de muita intervenção humana», diferencia o produtor.

Os sulfitos são, como explica o enólogo à reportagem do barlavento, «os conservantes utilizados na produção de vinho, que promovem uma enologia segura, sem grande risco, mas que alteram a expressão aromática do vinho».

Curiosamente, Guillaume diz-se «alérgico» aos mesmos. «É uma reação imediata, mas como enólogo era difícil fugir deles». Então como resolvia a situação? «Esperava até à última para os adicionar, e as pessoas que trabalhavam comigo apoiavam-me nessa fase». Isto quando ainda não produzia por conta própria. É que a história deste produtor começou cedo, aos 18 anos, quando herdou o Monte da Casteleja após o falecimento do seu pai. «Sempre quis ser agricultor, desde que me recordo. No verão já trabalhava na área, depois fui estudar agricultura geral, primeiro, e viticultura, depois. Foi aí que me apaixonei pelo mundo dos vinhos», detalha.

Monte da Casteleja - Palhete
Guillaume Leroux

A aventura de trabalhar na área vínica começou em Lisboa, e depois no Douro. «Trabalhei em quintas que produziam vinho de alta qualidade, e ainda nas caves do vinho do Porto. Continuei os meus estudos, no início dos anos 90 fiz uma pós-graduação numa faculdade australiana, e comecei a pensar em vir para o Algarve. Apesar do Douro ser uma região muito estimulante em termos vínicos, não o era em termos pessoais», confessa Guillaume, que começou a fermentar a ideia de produzir o seu próprio vinho na região algarvia, destacando a importância da ida à Austrália no processo: «com climas semelhantes ao nosso, fazem bons vinhos. É uma questão de castas, de saber fazer, de tecnologia».

O enólogo teve de lutar contra um «estigma daquela época», que apontava um défice de qualidade aos vinhos algarvios. «Éramos uma região que tinha pouco contacto com o resto do país, e os vinhos acabavam por seguir o mesmo caminho. Falava-se nas adegas, mas o consumo dos vinhos algarvios estava em níveis baixos, prejudicado ainda pelas falências das cooperativas e vendas de quintas para o turismo. Havia vários problemas», aponta.

Começar numa quinta abandonada

Quando Guillaume Leroux tomou as rédeas do Monte da Casteleja para produzir vinho, em 1998, encontrou uma «quinta abandonada. Tinha muitas amendoeiras, figueiras, sequeiro, mas não havia vinha!». Foi necessário, portanto, criar do zero, e o enólogo fez uso dos conhecimentos adquiridos nas suas passagens pelo Douro, por Lisboa, pela Austrália e, ainda, por Jerez, região vínica espanhola na Andaluzia. «Percebi muito sobre o clima e os solos, como implementar a vinha para um néctar de alta qualidade. Não queria estar muito dependente da água, da irrigação. Fiz uma vinha mais concentrada por hectare, para ganhar mais concentração nas uvas e mais competição entre as cepas. Também é uma vinha com menos vigor, o que diminui o consumo de água».

Depois, chegou a altura de escolher as castas. «Queria fazer um vinho local, da região. É uma tradição francesa, respeitar o terroir e o clima. Comecei pelo Bastardo, que conheci no Douro, e o Perrum (Pedro Jimenez em Espanha)», explica o produtor, detalhando que estas eram «variedades que garantiam corpo, capacidade de envelhecimento, complexidade, mas também uma boa acidez e frescura».

Vinho - Monte da Casteleja

Para aprumar detalhes, Guillaume escolheu plantar também «Alfrocheiro, para os tintos, uma casta muito equilibrada do Dão, com boa acidez e frescura, e o Arinto, nos brancos, com excelente acidez e uma mineralidade muito interessante, que combina bem com o Perrum». Foram selecionadas «as partes mais altas e secas da propriedade, que tem solo calcário», e a vinha, com quatro hectares, foi implementada segundo um compromisso entre a mecanização e os benefícios da orientação solar e dos ventos.

E o calcário desempenha um papel fundamental na produção vínica do Monte da Casteleja: «estamos quase no limite de calcário ativo para a cultura da vinha. Isso empresta acidez e riqueza em taninos aos vinhos», realça o responsável. Para guardar os néctares produzidos, foi reaproveitada uma antiga cisterna da propriedade, transformada em cave com temperatura e luz controladas.

A conversão para o biológico

Guillaume Leroux começou a produzir vinhos utilizando métodos convencionais. «Na escola ensinavam a utilizar herbicidas e pesticidas químicos. Foi o que aprendi, e era o que utilizava». Mas, alguns anos depois de plantar, o enólogo apercebeu-se da toxicidade de alguns produtos para a vinha…e não só: «prejudicavam o crescimento da planta a longo prazo. A influência era muito negativa, e não é passado um conhecimento ao produtor sobre esses efeitos. E nós, os agricultores, somos os primeiros a ser afetados, os anos a trabalhar com pesticidas começam a pesar na saúde».

O francês foi conhecendo produtores «que já estavam em biológico. Foram mostrando produtos naturais e eu fui experimentando na vinha, percebi que podia resolver vários problemas que surgiam sem recorrer aos químicos. Depois, o Algarve tinha um clima bastante facilitado para a cultura biológica».

Guillaume percebeu, assim, que «era o que fazia sentido para mim. Foi um desafio, e eu gosto bastante de desafios». Por isso, em 2007 começou a conversão da produção do Monte da Casteleja para processos biológicos. «Quando entramos nesse modo de fazer, entramos num mundo aparte. Fazemos diferente de quase todos e, com o tempo, começa a fazer cada vez mais sentido», admite o viticultor.

Monte da Casteleja - Lagos

Mas há várias situações a ter em conta neste modo de produção: «temos de aceitar que pode haver mais perdas. O homem quer ter as coisas sempre perfeitas, gosta de controlar. Mas a natureza não é assim, é selvagem. Temos de aprender a trabalhar com ela e não querer dominar. Tem sido uma ótima aprendizagem e uma abordagem que privilegia o bem-estar das plantas». Os solos, que na agricultura convencional são considerados «um suporte», segundo Guillaume, assumem grande preponderância nos processos biológicos, pois «temos de tirar partido da sua capacidade de retenção da água, da humidade, para a planta aguentar o stress e ir buscar minerais. Ultimamente tem chovido menos, temos menos água da chuva. Mas, ainda assim, temos de aumentar a capacidade do solo em reter a água. Conseguimos isso melhorando a estrutura e a matéria orgânica. Temos de ter uma vida no solo cada vez maior. É toda uma abordagem diferente, entendendo que o solo tem um funcionamento muito complexo», explica.

Há ainda um detalhe importante nos vinhos de produção biológica certificada: «têm um limite de metade da adição de sulfitos de um vinho convencional, que pode levar 200 miligramas por litro. Neste modo, o teor máximo são 100 miligramas por litro. Temos, por isso de reduzir o erro ao máximo, evitar contaminações e estar mais próximos do produto», diz Guillaume. Tudo isto é «uma caminhada de uma vida», admite o responsável.

Em 2011, o Monte da Casteleja teve o primeiro vinho biológico certificado do Algarve. «Inicialmente, o que me importava mais era a qualidade do vinho e o seu reconhecimento. Agora, é o biológico, estar a fazer bem e não estragar a natureza, mas sim valorizá-la. E a qualidade do vinho decorre disso. Parece um cliché, mas é uma realidade», segundo o produtor.

Os objetivos futuros de Guillaume Leroux passam por alargar a gama de néctares sem adição de sulfuroso, havendo ideias para um tinto jovem e, quem sabe, um branco, apesar deste representar «um desafio maior».

Inicialmente, o francês produzia sem adição destes compostos apenas para os amigos, que lhe pediam, e «o vinho saía com alguns defeitos olfativos, apesar de se beber bem. Mas era para consumo próprio. No mercado nunca colocaria nada com esses defeitos, o meu brio profissional não o permite. Atualmente, fala-se muito dos vinhos de intervenção mínima, mas muitas vezes são vinhos com defeitos. É preciso experiência para fazer um bom vinho sem sulfitos. É preciso agir no momento certo. Estes compostos permitem controlar as várias fases e dominar aspetos mais selvagens da bebida. Sem eles, ficamos mais reféns, há mais risco. Temos de nos entregar mais à causa e evitar erros», explica o produtor responsável, que aponta ainda outro detalhe a superar antes de alargar a produção de néctares sem sulfitos: «tenho de conseguir garantir o engarrafamento sem qualquer contaminação, é uma das fases mais delicadas nestes vinhos, porque qualquer coisa que corra mal arruína uma garrafa. Não vale a pena começar a querer fazer tudo de uma vez, sem ainda ter as condições para isso».

Por isso, por enquanto, o Palhete é a estrela sem sulfitos do Monte da Casteleja, juntando-se à gama homónima que já contempla um branco e um tinto. Há também o Abeluiz, um vinho tinto jovem produzido à base de Alfrocheiro , que homenageia o avô do responsável, primeiro proprietário da quinta na família. Tudo isto, diz-nos Guillaume Leroux, é resultado de «mais de 20 anos de aprendizagem, reforçada todos os anos». Os vinhos do Monte da Casteleja podem ser encontrados em várias lojas biológicas pelo Algarve ou na propriedade, havendo ainda a possibilidade de encomendar via e-mail.

Vindima em andamento

A época de vindima já decorre no Monte da Casteleja, estando prevista a sua duração até final de setembro. Para ajudar, há vários trabalhadores permanentes, mas também voluntários da WWOOF – WorldWide Opportunities on Organic Farms Portugal.

Neste projeto, «as pessoas vão passando por várias quintas biológicas e ajudam. Há dias mais intensos de vindima, com 15 a 20 pessoas. Em permanência, temos sete funcionários», detalha Guillaume Leroux.

Vinhos do Monte da Casteleja

Para todos, é servido um almoço de confraternização. E há ainda um importante catalisador de relações humanas, segundo o enólogo: «fazemos a pisa a pé, e isto é muito importante. O espírito de pisar a uva despoleta uma sintonia entre os participantes e todo o sentimento de criação de algo. É muito positivo. O vinho não deve ser só máquinas».

Quanto aos néctares que agora serão engarrafados, chegarão ao mercado «em abril, maio do próximo ano. O Palhete eventualmente poderá ser engarrafado mais cedo», revela Guillaume.

Alterações climáticas podem trazer novidades

Com uma produção atual de 10 mil garrafas por ano, Guillaume Leroux, responsável pelo Monte da Casteleja, aponta caminho a um aumento nesse número, até porque a procura é cada vez maior, principalmente no mercado de Lisboa, «que está a crescer bastante. Parece que o reconhecimento tem de vir do exterior para que a região olhe para nós».

O viticultor espera que «as novas plantações ajudem a aumentar a produção», sendo certo que trarão novidades: «estou a aguardar o desenvolvimento das cepas que plantei da casta Sousão, também conhecida como Vinhão na região dos Vinhos Verdes».

Esta é uma aposta que tem em conta «o aquecimento do clima no Algarve», explica o produtor, que detalha: «permitirá criar vinhos tintos mais frescos e leves, com menor teor alcoólico, que se enquadram bem no calor da região».

Agroturismo mais íntimo com a vinha

No Monte da Casteleja, além da produção de vinho, existe uma pequena unidade de agroturismo, com oito camas. Segundo Guillaume Leroux, responsável pelo espaço, a ideia «é ter atividades sustentáveis e ligadas ao vinho. Quem vier para o agroturismo pode participar em atividades de vindima e visitas guiadas».

Para os audazes que se aventurem pela vindima, que por agora não tem custo, há a oferta de um almoço de confraternização, «em troca de alguma ajuda na colheita e na pisa». É «um dia diferente com uma experiência mais real. No futuro, vamos ver como evolui a atividade», aponta o produtor, que considera esta uma forma «de valorizar o Monte».

E afirma ainda que «há cada vez mais clientes portugueses». Os interessados podem obter mais informações através do telefone 282 798 408.

Branco não foi unânime

Guillaume Leroux, enólogo e produtor do Monte da Casteleja, deu conta de uma situação insólita quando estava a decidir o rumo para a vinha. «Inicialmente, quis plantar castas para vinhos brancos. Estávamos numa zona costeira e fazia-me sentido ter algum vinho branco, até pela gastronomia local. Os técnicos da época reprovavam a ideia, diziam que o Algarve não conseguia fazer bons brancos», diz à reportagem do barlavento.

Mesmo assim, o francês não desistiu da ideia. «Plantei e realmente fui-me apercebendo que ter brancos por cá é um grande desafio, devido ao clima quente que leva a alguma falta de acidez. Podíamos introduzir ácidos artificiais, mas não era esse o objetivo», afirma.

Por isso, o produtor tentou «desenvolver um estilo de branco do sul, que ligasse bem com a gastronomia e tivesse qualidade intrínseca. Fui apurando a técnica e a escolha de castas foi muito importante. O Perrum dá uma personalidade muito vincada ao nosso vinho branco».