Mina de Sal-gema de Loulé recupera projeto turístico

  • Print Icon

Pandemia travou o projeto turístico da empresa proprietária da Mina da Campina de Cima, em Loulé. Aspirante Geoparque Algarviensis tem suscitado de novo o interesse na visita.

A TechSalt iniciou a atividade turística na mina a 07 de outubro de 2019, abrindo uma porta regular aos interessados em visitar o Mar de Tethys, com 230 milhões de anos, transformado em sal-gema.

Uma viagem a 230 metros de profundidade, abaixo do nível do mar, que culmina num ambiente único, com uma temperatura constante de 23ºC ao longo de todo o ano.

A operação estava a correr bem, embora tivesse começado na época turística baixa, pelo menos até ao advento da pandemia de COVID-19.

«Temos um projeto delineado e estávamos prontos para a primeira fase, que era substituir o atual elevador de acesso às galerias, que é em madeira, transporta apenas sete pessoas de cada vez e demora três minutos a descer, por uma cabine moderna para 30 pessoas e demorando três vezes menos tempo», explica ao barlavento o responsável Alexandre Andrade.

Agora, «o preço do aço está cerca de 60 por cento mais caro do que no início da pandemia, o que torna a obra muito onerosa. Teremos de aguardar pela normalização dos preços. Também existem muitos fundos disponíveis, mas há que fazer a escolha adequada. A verdade é que o nosso projeto não morreu, mas está adormecido, à espera de melhores dias, porque há um interesse genuíno por parte das pessoas em visitar a mina, tanto estrangeiros, como nacionais. E também estamos a considerar a implementação de atividade ligada à saúde respiratória, como a asma. Além disso, queremos alavancar eventos paralelos, como reuniões de empresas ou até casamentos.

Neste momento, está a decorrer uma exposição de arte integrada no projeto de programação cultural do Aspirante Geoparque Algarvensis, que engloba os concelhos de Loulé, Albufeira e Silves, porque a mina é um dos seus componentes», explica.

Alexandre Andrade.

A TechSalt tem uma política de «descriminação positiva» para com os habitantes do concelho de Loulé, que pagam um bilhete de valor reduzido. As visitas à mina são realizadas quatro vezes por dia e duram cerca de duas horas, percorrendo cerca de 1,2 quilómetros de galerias. É necessário, contudo, fazer uma reserva antecipada.

Mina faz parte da história da economia portuguesa

«Era uma vez uma propriedade agrícola, na Campina de Cima, extremo nascente da então vila de Loulé, onde os proprietários decidiram fazer produção de gado, nos anos 1950. Para produzir gado, necessitavam de comida e, para produzir comida, necessitavam de água», recorda o engenheiro geólogo Alexandre Andrade, chefe de operações da única mina subterrânea aberta ao público em Portugal.

Reza a a história que, não havendo água em quantidade suficiente para regadio, fizeram- se furos mais profundos.

A água usada no arrefecimento das brocas regressa à superfície salgada. Na altura, os Serviços Geológicos de Portugal (instituição que funcionou de 1918 a 1993) analisaram o caso, foi feita prospeção gravimétrica e descobriram a forma do jazigo.

Os donos do terreno associaram-se a um membro da família Pereira Júnior, do Barranco do Velho, e iniciaram a comercialização da mina, que começou a operar em 1964.

A mina de São Domingos, em Mértola, considerada uma grande escola de mineiros em Portugal, anunciou em 1962 que iria encerrar em 1966.

Logo, quando a mina de Loulé iniciou a atividade, havia no mercado de trabalho um número muito grande de mineiros altamente especializados, o que facilitou a abertura dos dois poços, o do pessoal e o da extração, que são as duas primeiras fases numa mina.

Ao fim de dois anos, já existiam a galeria de união entre os poços e um circuito de ventilação, o que permitia a extração e a venda de sal-gema.

Ao longo dos anos foram abertos 42 quilómetros de galerias.

Um episódio que ficou para história aconteceu após o terramoto de 1969, que provocou muitos estragos à superfície, sobretudo entre Loulé e Faro.

O encarregado telefonou aflito para o fundo da mina a perguntar se os mineiros estavam bem. «E porque não haveríamos de estar?», foi a resposta.

Não sentiram nada graças às propriedades elásticas do sal-gema, que torna esta mineração muito segura. O sal-gema é usado na indústria química para extração de cloro e de sódio.

Tal aconteceu com o produto da mina de Loulé, até 2005, que forneceu as fábricas do Grupo Melo, em Estarreja e no Barreiro, até que a mina foi integrada no grupo CUF.

Ou seja, quem utilizava o produto da mina louletana adquiriu- -a embora, de seguida, tivesse arranjado outras fontes de fornecimento. «Pediram-me que diversificasse e arranjasse outro tipo de sal», recorda Alexandre Andrade.

«Começámos a vender para a alimentação animal, reforçando a extração no inverno, porque também era necessário para a segurança rodoviária, nas zonas de neve e gelo».

Em 2016, a empresa passa a chamar-se Bombalti e, em 2018, um grupo de investidores, dos quais fazia parte o engenheiro Alexandre Andrade, criou uma nova empresa, a TechSalt, que adquiriu a concessão em 2019.

Andrade saiu da sociedade, porque entretanto se reformou, mas está de volta colaborar.

«Em 1992, vim para a mina como diretor de produção. Passei a diretor técnico e agora estou de volta como como chefe de operações. Tenho passado a minha vida debaixo do chão. Enquanto me der prazer, cá estarei», diz.

A mina já empregou 180 pessoas, em três turnos diários, dos quais mais de um terço tinha a seu cargo a manutenção. Em 1983, foi adquirida a primeira mineradora roçadora e, em 1987, uma segunda, o que levou à redução da mão de obra.

«Quando cá cheguei, só havia 68 trabalhadores. Em 1995, chegou a terceira máquina e, até ao fim do século passado, diminuiu a força laboral para 28 pessoas. Mas não houve despedimentos. Apenas não substituíamos quem se reformava. Em 2005 foi diferente, porque parámos a operação, mas ficámos com 14 dos 28 mineiros. Neste momento, somos 12. E a mina, a trabalhar à capacidade máxima que a nossa maquinaria permite, tem produto para extração durante os próximos 3.000 anos. A diferença entre o sal-gema e o sal marinho é o facto de este estar em rocha e também a idade. O nosso sal-gema tem 300 milhões de anos» e o sal de mesa marinho é contemporâneo.