MAPS passa a ser Movimento de Apoio a Problemáticas Sociais

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Mais adequado à realidade e ao trabalho atual, MAPS passa a designar-se Movimento de Apoio a Problemáticas Sociais. Fábio Simão, presidente da instituição, faz um ponto de situação.

Muito mudou no país e no mundo desde a fundação do MAPS – Movimento de Apoio à Problemática da Sida, a 13 de maio de 1992, que nunca deixou de ser permeável às convulsões da sociedade.

Das consequências do Vírus da Imunodeficiência Humana (VIH) nos grupos mais desprotegidos e marginalizados, ao recente apoio alimentar a uma classe média baixa fragilizada por dois anos de pandemia, são 30 anos de intervenção. Um percurso que Fábio Simão, atual presidente do MAPS, quer assinalar.

«O mais importante é perceber onde o MAPS chegou e pensarmos o futuro. Olhar para tudo aquilo que se conseguiu atingir, a capacidade de resposta que tem hoje, e para o facto de termos cumprido parte da nossa missão, que é sermos uma instituição de referência na integração social», resume.

«Sempre defendi que não se devia mudar o nome porque na verdade, durante muitos anos, foi uma forma de lutar contra o preconceito. A palavra Sida ainda tem um peso muito grande na sociedade e ainda é tabu. Mas a realidade é que se pensarmos naquilo que o MAPS é, aquilo que fazemos, o VIH nem chega a 20 por cento da nossa atuação. Portanto, deixou de se tornar a problemática central. Era um pouco ingrato, para tudo aquilo que fazemos hoje, estarmos sempre ligados» à doença.

O assunto foi discutido em assembleia no final do ano passado e foi decidida a alteração para Movimento de Apoio a Problemáticas Sociais, que mantém a sigla MAPS.

«O procedimento é moroso. Temos o certificado de admissibilidade para fazer a alteração e, neste momento, está em análise no Ministério da Segurança Social», para que seja publicado em Diário da República.

Fábio Simão diz que foi também uma oportunidade «para rever os estatutos e corrigir algumas coisas que poderiam não estar de acordo com a lei vigente», conforme sugerido pela tutela.

A discussão já era antiga, «mas agora é que faz sentido. É o momento correto, porque o MAPS ganhou um local de respeito, de reconhecimento da sua atuação. Esta mudança traz-nos a vontade de apostar numa nova imagem, uma nova postura, uma nova vida, fazer um balanço destes 30 anos e projetar os próximos».

«INEM» da emergência social

Um dos projetos mais ambiciosos que o MAPS tem em mãos é a criação do Centro de Acolhimento de Emergência Social (CAES), num edifício cedido pelo Instituto de Gestão Financeira e Tesouro do Algarve, no Patacão, em Faro, cujo objetivo original era acolher pessoas em situação de sem-abrigo e reintegrá-las na sociedade. No entanto, segundo Fábio Simão, o projeto foi revisto e atualizado para «uma versão 2.0» já aceite pela Segurança Social.

E o que muda? «Explicado de forma simples, será o INEM da emergência social. Não terá apenas alojamento, contará com outras valências e respostas. Terá uma equipa móvel de atuação a trabalhar 24 horas por dia, 365 dias por ano, sempre disponível. Ou seja, qualquer situação que aconteça no distrito, a equipa é acionada através da linha 144 e dirige-se ao local. Por exemplo, uma situação de violência doméstica, em que uma mãe ou pai vai com as crianças para a PSP e só tem vaga num abrigo no dia seguinte ou no outro. Estaremos na linha da frente para que essa família não tenha que esperar na esquadra. Terá, de imediato, a garantia de um espaço seguro para dormir, um sítio para comer, para estar, para aguardar que o processo corra os seus trâmites», descreve.

Nesse âmbito, o MAPS irá «fazer uma parceria com a Associação Dignitude, para bens essenciais de farmácia, medicamentos e tudo o que for necessário na hora. «Ou seja, queremos dar todo o suporte imediato que não pode esperar por burocracias, documentos ou validações».

Outra situação provável: «um idoso acamado cujo seu cuidador, por algum motivo, fica impossibilitado dessa função. A nossa equipa vai poder responder».

O CAES 2.0 «é um projeto-piloto que está a decorrer no distrito de Faro e Braga, que será monitorizado todos os meses pelo Instituto de Segurança Social. Se funcionar, será replicado pelo país», diz o responsável pelo MAPS.

«O edifício está quase pronto. Foi um trabalho enorme. Estamos a mobilar, já temos quartos completos, e tudo tem um ar muito mais habitável», num investimento que ronda os 400 mil euros, dos quais 250 mil financiados a crédito ao MAPS.
«Foi tudo muito bem ponderado e temos tido um apoio muito grande do município de Faro para ajudar a amortizar este valor. Os empréstimos foram feitos em novas linhas protocoladas em que a taxa de juro é insignificante. Temos um plano para que daqui a cinco anos consigamos pagar tudo. Aliás, um dos objetivos desta direção é ter o passivo liquidado no final do mandato».

Nova crise já é notória

O recém-batizado Movimento de Apoio a Problemáticas Sociais mantém o apoio alimentar a pessoas em situação de sem-abrigo com o apoio do município de Faro. «Desde que iniciou a pandemia COVID, até à presente data, ainda não terminámos», afirma Fábio Simão, que já nota os danos colaterais da guerra na Ucrânia e prevê uma nova crise no horizonte. «Sim. Já estamos a ser contactados por aquelas famílias que, durante a COVID-19, precisaram de algum apoio. Aquilo que temos mesmo medo é que não estávamos preparados para esta possível recessão, nem para esta possível crise, que vai afetar muito a classe média e que vai deixar muitas pessoas desprotegidas», afirma.

«Infelizmente, continuamos com os mesmos problemas de sempre e estes não são tratados. O mercado de arrendamento continua numa vergonha, os valores praticados são absurdos. Sei que é assim em todo o país, mas no Algarve a construção é feita sobretudo para férias e não para habitação. Somos uma das regiões mais pobres do país em termos de habitação social. Por isso, acho que as pessoas vão ter dificuldades em pagar as suas rendas, em pagar a prestação do banco e em ter dinheiro em casa para comer. Aquilo que sentimos é que a nossa sociedade já está a sentir, já está a perceber as dificuldades que vão vir e não estamos preparados», sublinha.

«O economato alimentar, onde tínhamos sempre produtos alimentares, fruto dos nossos eventos, nunca mais foi o mesmo. Nunca mais teve a substância que tinha há uns tempos e agora recebemos muito mais donativos. A realidade é esta. Estamos conscientes do que possa acontecer, mas não temos noção de quanto tempo é que poderemos aguentar se isto tudo ganhar um peso demasiado grande»…

Apartamentos partilhados e o projeto LEGOS são casos de sucesso

«Posso dizer que fomos a região do país com mais integrações feitas. Demonstração de que é um modelo que funciona e que o Algarve, mais uma vez, está na linha da frente. Nunca temos vagas por preencher. Estamos a falar de um número elevado de pessoas que, no Algarve, dormem ainda na rua. Acho que estamos num ponto em que nunca sonhámos estar. O nosso receio é que um dia os financiamentos terminem e que todo o trabalho desenvolvido se desvaneça como um castelo de areia».

Nova imagem para o futuro

«Escolhemos um logótipo muito colorido, diferente, respeitando também um bocadinho a nossa história, em que todas as cores representam as múltiplas áreas onde atuamos, ou que podemos vir a atuar. O MAPS tem esta capacidade de se moldar de acordo com a sociedade e as necessidades da nossa comunidade e isso viu-se na COVID-19. Esta é a nossa postura», descreve Fábio Simão, presidente do Movimento de Apoio a Problemáticas Sociais.

«Os círculos são considerados um símbolo de perfeição. Mas, sabendo que existem tantas fragilidades, o nosso objetivo foi dividi-los em semicírculos incompletos, embora seja apenas uma ilusão, porque todos eles se completam. Representam as várias circunstâncias da vida das pessoas, que interrompem os círculos e que não há que ter vergonha. Embora não sejamos perfeitos, completamo-nos uns aos outros e somos os melhores em conjunto. E mantemos o S a vermelho, que é o símbolo do VIH e é aquele que vamos trazer sempre no coração».