Manuel Alegre premiado em Faro com direito a ovação de pé

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Manuel Alegre considerou o prémio nacional de poesia António Ramos Rosa «um exemplo para o país num tempo em que a cultura tende a ser uma palavra muitas vezes citada, mas vazia de conteúdo»

Um profundo admirador e conhecedor da obra de António Ramos Rosa foi o que Manuel Alegre revelou ser na tarde de sábado, 4 de setembro. O nome maior da literatura portuguesa venceu a oitava edição do prémio nacional de poesia António Ramos Rosa, mas foram os presentes na sessão que ganharam o momento, pelo ensaio que leu e que lhe valeu uma ovação de pé.

«Ainda tenho comigo as primeiras edições dos primeiros livros de António Ramos Rosa, comprados assim que saíram. E guardo a revelação que para mim e para a minha geração foi aquela poesia que trazia um novo sopro, um novo dizer, um novo sentido poético e cívico. Sabia-se de cor o poema O Funcionário cansadoO Boi da paciência, fazia-se a Viagem através duma nebulosa, e chega-se ao Grito Claro. Clamava-se em coro, estamos nus e gramamos. E sobretudo, proclamava-se pela noite fora, não posso adiar o amor para outro século. Era uma poesia de superior qualidade que fazia da palavra poética uma arma de libertação e de luta contra a ditadura. Depois, mais tarde, aquele verso luminoso, estou vivo e escrevo sol, foram poemas que marcaram a nossa vida e mudaram a nossa própria visão da poesia», começou por explicar Manuel Alegre, no uso da palavra.

«Não posso esquecer neste momento, que tendo eu apenas dois livros publicados, estava no exílio nessa altura, António Ramos Rosa me incluiu na antologia das líricas portuguesas, por ele organizadas. E ao contrário de leituras ideológicas então predominantes, ora encomiásticas, ora redutoras, António Ramos Rosa fez uma análise literária. Sublinhou conquistas expressivas do mais recente modernismo e inseridas em formas rítmicas tradicionais e assinalou certa pureza de brilho de linguagem como valiosa conquista da expressão. De certa maneira, foi o meu primeiro prémio António Ramos Rosa», recordou.

«Quero também lembrar o apoio que António e Agripina me manifestaram em momentos da minha intervenção cívica. Por isso, a atribuição do prémio instituído pela Câmara [Municipal de Faro] e pela Biblioteca com o nome do poeta tem para mim um significado especial», acrescentou.

Aliás, «foi com emoção e surpresa que recebei a notícia e é com emoção que venho aqui para o receber. E é uma honra figurar ao lado dos vencedores que me antecederam, entres eles dois ilustres algarvios, que são nomes maiores da literatura portuguesa: Gastão Cruz e Nuno Júdice», sublinhou.

«Talvez nenhum outro poeta português tenha levado tão longe como Ramos Rosa o trabalho da palavra sobre a palavra. O ofício da linguagem sobre a própria linguagem. Logo após os seus primeiros livros, Jorge de Sena sublinharia que a sua poesia é de uma personalidade com seguro sentido da criação poética e um largo conhecimento das mais modernas experiências. O seu trabalho ensaístico e a sua permanente interrogação sobre a matéria do real e a matéria do poema revelou-se de grande importância para o que alguém chamou de desprovincialização da poesia portuguesa. A partir de certa altura é quase impossível acompanhar a incessante produção e publicação poética de António Ramos Rosa. Onde como assinalou Ana Paula Coutinho Mendes, há como que um êxtase verbal e um misticismo poético de base ontológica. Mas é Ramos Rosa que traz até nós um outro olhar sobre a moderna poesia europeia, na linha de Mallarmé ou, de como ele gostava de citar, da liberdade livre de Rimbaud», explicou ainda Manuel Alegre.

«Em Ramos Rosa, a palavra poética confunde-se com o sentido da sua própria vida. Uma grande espiritualidade, dizia Robert Bréchon, que tive o privilégio de conhecer, e era um devoto de Ramos Rosa, cuja poesia que nunca deixa de ser uma metapoesia como única forma de atingir o real absoluto».

«Mas também como assinala José Carlos Seabra Pereira, poesia da cidadania e da condição humana que quer integrar a experiência da alienação social e política na experiência da própria realidade poética. Tão devotado ao trabalho por dentro da linguagem, quanto à interrogação da natureza e à revelação do sentido do mundo».

Por fim, «temos de estar gratos à Câmara Municipal de Faro e à Biblioteca António Ramos Rosa por ter instituído um prémio que nos ajuda a lembrar, a descobrir e a redescobrir um poeta incomparável e que é, de certa maneira, uma inspiração para outros poetas, para os mais antigos e sobretudo para os mais novos que deveriam lê-lo. Um prémio que pela importância dos poetas já laureados e pela qualidade do júri e do patrocínio, tem vindo a afirmar-se como um prémio nacional. É um exemplo para o país e para os patrocinadores, neste tempo em que a cultura tende a ser uma palavra muitas vezes citada, mas vazia de conteúdo. E em que talvez seja preciso que a poesia volte a ser como foi, com o António Ramos Rosa, o grito claro para que os distraídos e os desatentos não se iludam: não se pode adiar a vida para outro século», concluiu.

Por sua vez, António Monteiro, presidente da Fundação Millennium bcp, principal mecenas do galardão, sublinhou a colaboração cultural com o município de Faro, que considerou «profícua» para ambas as partes, sobretudo, «numa altura em que a cultura precisa de apoios de várias vertentes. Este prémio é-nos particularmente caro e posso dizer que impulsionou outros prémios e iniciativas que estamos a ter. Continuaremos nessa senda que nasceu a partir de Faro», disse.

«Pertenço a uma geração para quem Manuel Alegre representou uma diferença enorme. Acho que ainda tenho o manuscrito de Praça da Canção, que não era editado, estava proibido, mas que correu cópias em Coimbra. Isto foi no início dos anos 1960 e era uma obra fundamental. Acompanhámos sempre o que ele foi fazendo ao longo da vida. Uma coisa que sempre me impressionou é quando diz, no final, que mesmo numa noite triste, há sempre quem resiste, há sempre quem diz não. Quem resiste e diz não abriu-nos o país que hoje temos. E por causa de Manuel Alegre e de outros como ele, que lutaram pela liberdade, que podemos hoje fazer as perguntas que quisermos ao vento que passa. Já não é a desgraça que nos vem, mas é a história de um país que tem melhores e piores momentos, mas que vive em liberdade e que tem uma democracia que penso que vai perdurar graças a personalidades como Manuel Alegre. Quero agradecer muito aquilo que deixa com a sua ação cívica a todos nós e o legado que deixa para as letras portuguesas. Muito obrigado», finalizou António Monteiro.

Também presente na sessão, Saúl Neves, vice-reitor da Universidade do Algarve (UAlg), revelou que a academia associou-se ao prémio desafiando os alunos do curso de Artes Visuais a elaborar um trabalho original. Assim, Manuel Alegre foi presenteado com a obra «O Silêncio por detrás da Agonia» da autoria da estudante Cátia Jesus.

Sandra Martins, diretora da Biblioteca Municipal António Ramos Rosa, sublinhou que o prémio foi entregue «a um homem de lutas, principalmente pela liberdade da palavra, e que na sua obra poética isso é bem visível, interpelando o presente, o passado e o futuro».

E embora nenhum dos membros do júri pudesse ter estado presente para explicar a decisão, foi lida a ata da reunião final, a 27 de julho, quando Nuno Júdice, Carina Infante do Carmo e Isabel Lucas, depois de um profundo debate e de terem analisado as 236 obras a concurso, deliberaram por unanimidade atribuir o prémio à obra «Quando» de Manuel Alegre.

A escolha foi fundamentada «pelo facto de se tratar de um livro em que o poeta investe a sua longa experiência de escrita e ao mesmo tempo dá uma presença muito forte da subjetividade perdida no tempo atual, com as marcas da realidade que estamos a viver, mas transcendendo a circunstância através de uma escrita que rompe com os hábitos do poeta sendo de sublinhar esta renovação de uma das vozes mais fortes da nossa poesia».

A sessão contou ainda com a presença de Adriana Nogueira, diretora regional de Cultura do Algarve e de José Apolinário, presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) do Algarve.

A apresentação teve direito a um recital de poesia por Ana Cristina Oliveira e António Gambóias.

Prémio literário farense é para continuar

O autarca farense Rogério Bacalhau, anfitrião da oitava edição do Prémio de Poesia António Ramos Rosa, referiu, que «numa altura em que muitas Câmaras desistiram dos seus prémios literários, a Câmara Municipal de Faro, pelo contrário, decidiu recuperar o seu. Fê-lo em 2015 e, desde então, tem vindo a reforçá-lo alocando mais recursos e captando a atenção de cada vez mais escritores de nomeada. Isso deve-se também ao envolvimento dos nossos mecenas», sobretudo a Fundação Millennium bcp. A entrega do galardão a Manuel Alegre «é demonstrativa da importância e da dimensão que este prémio já alcançou, atraindo cada vez melhores trabalhos a concurso e os autores mais consagrados».