Loulé será «Cidade dos Livros» e estreia Bienal de Humanismo em 2020

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Notícia foi avançada durante a cerimónia que salientou importância das Atas de Vereação de Loulé para o conhecimento da História da Cristandade Medieval, na quinta-feira, dia 12 de dezembro.

Durante a sessão comemorativa dos 635 anos das primeiras Atas de Vereação de Loulé, as mais antigas de Portugal e classificadas como Tesouro Nacional, em junho, o município de Loulé homenageou o jornalista Carlos Albino pelo empenho no processo e pela entrega às causas louletana.

O evento, que decorreu na noite quinta-feira, 12 de dezembro, no Cine-Teatro Louletano, serviu ainda para destacar a importância destes testemunhos escritos datados dos séculos XIV e XV, numa mesa-redonda que contou com a presença de três especialistas.

Maria Helena da Cruz Coelho, da área da História, Eduardo Vera-Cruz, da área do Direito, e Silvestre Lacerda, da área da Arquivística, foram unanimes em reconhecer que «a raridade destes 11 livros de Atas» que, no seu conjunto, foram distinguidos como bens arquivísticos de interesse nacional, foi um fator decisivo para esta classificação.

Apesar do elevado número de atas lavradas nas reuniões de Câmara durante a Idade Média, em vários municípios do país, a esmagadora maioria perdeu-se devido sobretudo à «fragilidade dos documentos feitos em papel», restando apenas como principais conjuntos, para além de Loulé, os do Porto e do Funchal.

No entanto, é de Loulé a ata mais antiga (1384) e o conjunto mais completo.

Um dos pontos altos desta noite foi a homenagem a Carlos Albino, «um louletano inquieto e apaixonado pela sua terra, figura indissociável da Revolução dos Cravos, jornalista conceituado, um homem que tem tido um papel importante nas atividades culturais que acontecem no concelho de Loulé» e que, segundo a autarquia, propôs o início do processo de classificação das Atas medievais de Loulé como Tesouro Nacional.

A sessão foi moderada pela jornalista Rosa Veloso.

Foi também o principal organizador do programa comemorativo do 40º aniversário do 25 de Abril no concelho de Loulé, «com um conjunto de ações que permitiu trazer a este município personalidades e iniciativas de grande relevância».

Carlos Albino é o mentor e o Diretor da Bienal de Humanismo que arranca em 2020.

Visivelmente emocionado, levantou um pouco do véu daquilo que será a Bienal do Humanismo, adiantando que o Parque Municipal de Loulé irá acolher, já no próximo ano, «A Cidade dos Livros», iniciativa que se prevê venha a ter lugar em anos diferentes, em Loulé e em Quarteira/Vilamoura, com o envolvimento de importantes entidades ligados à leitura e ao livro.

Vítor Aleixo reconheceu o homenageado como «um exemplo de dádiva à sua terra, um exemplo de generosidade, de ousadia, de querer bem à terra e de estar constantemente a sonhar transformá-la, a deitar a semente à terra para que dela possa germinar a luz».

Quanto ao papel que teve na Revolução do 25 de Abril de 1974, o autarca disse, de forma peremptória, que «tudo o que possamos fazer para te agradecer esse gesto de passar a senha é pouco para aquilo que permitiste que coletivamente sonhássemos e fossemos, ou melhor, que sejamos. Para que, a cada dia, possamos continuar a construir esta democracia imperfeita e a perceber que temos de lutar para a aperfeiçoar, por ti e por todos os que acreditaram que era possível viver em liberdade, numa sociedade mais justa e, acreditamos, mais feliz».

Aleixo lembrou ainda outras pessoas importantes para a valorização e elevação deste tesouro nacional que constituem as Atas de Vereação de 1384, com destaque para Joaquim Romero de Magalhães, responsável por um parecer que se incluiu no processo de classificação e que, em breve, passará a ter o seu nome inscrito na fachada do Arquivo Municipal de Loulé, além do prémio de investigação criado para homenageá-lo e que terá o primeiro vencedor já no próximo ano.

Um tesouro para Portugal

Durante a sessão, a historiadora e docente da Universidade de Coimbra Maria Helena da Cruz Coelho sublinhou a importância dos conteúdos destes documentos, que integram um espaço temporal compreendido entre 1384 e 1497.

Ou seja, abarcam a crise dinástica, ilustrando a vida de Loulé nos mais variados aspetos mas que contêm um espaço geográfico bem mais amplo. «Os assuntos não são só de Loulé, são nacionais mas também à escala global», explicou a historiadora.

Já Eduardo Vera-Cruz, docente de Direito da Universidade de Lisboa, sublinhou a importância histórico-jurídica destes documentos que permitem, por exemplo, comparar a lei vigente do século XIV, possibilitando, a partir daí, fazer uma série de estudos sobre o poder local.

E é por essa notoriedade, ao mesmo nível do que a Carta de Pêro Vaz de Caminha ou do que o Tratado de Tordesilhas, que estas Atas são uma parte integrante e um contributo para identidade nacional e constituem «monumentos enquanto evidências das vivências em sociedade», sendo, como tal, fundamental a sua preservação.

Até porque foi graças do cuidado das consecutivas vereações que estas Atas chegaram até aos dias de hoje e a partir daqui o município de Loulé passará a ter ainda mais responsabilidade nesta matéria, como sublinhou o diretor da Direção-Geral do Livro, Arquivos e Bibliotecas, Silvestre Lacerda.

As Atas continuarão à guarda da Câmara Municipal de Loulé que, além da permanência ao nível da conservação terá ainda outras responsabilidades como a transcriação, adequação e disponibilização, por exemplo, através da internet.

Os três especialistas responsáveis pelos pareceres e classificação de tesouro nacional, acreditam que há um manancial de áreas a explorar, desde logo que estas atas sejam o ponto de partida para novas investigações, estudos, o mote para ciclos de congressos, para as escolas, as artes criativas e performativas ou a divulgação nos meios de comunicação social.

Maria Helena da Cruz Coelho considerou ainda que estes valiosos documentos que são também «um pedaço da História da Cristandade Medieval» poderão atrair interessados à cidade, constituindo-se como uma componente importante do turismo científico-cultural, cada vez mais em voga.

«Queremos que este tesouro possa reluzir cada vez mais», afirmou a docente da Universidade de Coimbra.

Vítor Aleixo referiu as várias iniciativas que fazem parte da linha estratégica do município na área patrimonial e cultural: a Revista Al-Ulya, os Cadernos do Arquivo, o Encontro de História de Loulé, catálogos de exposições e outras publicações culturais, mas também projetos como a ampliação do Arquivo Municipal, o Quarteirão Cultural de Loulé, que irá aliar ciência, cultura, património, conhecimento e educação em pleno Centro Histórico, o aspirante Geoparque Mundial da UNESCO – Geoparque Algarvensis que une Albufeira, Loulé e Silves, ou a obra de musealização dos Banhos Islâmicos.

A noite de celebração das primeiras Atas de Vereação do país encerrou com a peça de recriação histórica «No alpender da dicta villa» levada a cena pelo grupo Ao Luar Teatro, escrita por Rui Penas que partiu dos textos desses documentos para trazer ao palco do Cine-Teatro Louletano episódios do quotidiano da antiga vila de Loulé, durante a Idade Média, inspirados nos textos das Atas.