Loulé combate exclusão através da arte urbana

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«Quebrar barreiras» e «devolver sonhos» aos mais pequenos, através de diferentes formas de expressão artística é o objetivo do novo Gabinete de Apoio ao Bairro de São Clemente, em Loulé, inaugurado a 1 de agosto.

«Este novo gabinete surge no âmbito do projeto Bairr’Art, um programa de inclusão e mudança social através da arte. O objetivo é quebrar barreiras em comunidades que habitualmente não se cruzam e sobretudo em territórios vulneráveis», explica Sandra Vaz, chefe da Divisão de Coesão Social e Saúde, da Câmara Municipal de Loulé.

O Bairr’Art nasceu em junho de 2015 como resultado de uma assembleia de moradores. A ideia é construir pontes através de uma metodologia participativa, numa «comunidade que se sente excluída».

Nas habitações sociais do bairro de São Clemente, em Loulé, residem aproximadamente 550 pessoas, sendo na sua maioria jovens e adultos em idade ativa.

patisson-ao-alto2«A ideia é que os moradores comecem a olhar para o espaço coletivo, que é de todos, aumentem o sentimento de pertença comunitário, mudando a imagem destes territórios muito marcados pelo estigma. E percebemos que, através da arte, conseguíamos destruir muros que, muitas vezes, são apenas imaginários, desenvolvendo redes de proximidade, de partilha intergeracional, e também pela requalificação do espaço público. O desafio é derrubar as fronteiras do preconceito e abrir as portas a estas comunidades para a cultura, música, pintura, teatro, dança, um conjunto de outros caminhos que fomentem o bem estar e melhoria na qualidade de vida dos residentes», acrescenta.

O valor do projeto, reconhecido pela Rede Portuguesa das Cidades Educadoras, surge numa lógica de governação integrada, com o forte envolvimento de parceiros sociais do município de Loulé. É agora reforçado, com a criação de um Espaço Comunitário, através de uma parceria da «Casa da Primeira Infância» com a Câmara Municipal de Loulé. O espaço conta já com três técnicos da área social e das artes e vai permitir «uma maior intervenção e proximidade com a comunidade».

«Durante o verão, haverá ocupação de tempos livres em oficinas criativas lúdicas e pedagógicas, visitas de estudos, e no futuro, ações que visem a capacitação e desenvolvimento dos jovens e comunidade, nas áreas do empreendedorismo, empregabilidade, sucesso escolar; cidadania e participação cívica, entre outras», para os mais jovens.

No que toca aos adultos, vão ser dinamizadas «oficinas lúdicas; histórias do bairro – encontros que acontecem semanalmente e onde se partilham histórias de vida, incentivam-se os convívios e constroem-se bairros solidários e saudáveis», mas também «a realização periódica de
assembleias de moradores, a qualificação artística dos edifícios através de graffiti e a reabilitação do espaço público através da criação de jardins comestíveis, a criação de uma horta de formação-demonstração de design de permacultura, ateliers de desenvolvimento de artes expressivas, entre outras ações», explica Vaz.

«O importante é fazer uma avaliação das necessidades e traçar um plano de ação de capacitação das pessoas, para que estas continuem a acreditar na transformação social. Apesar das vivências quase sempre complexas é possível encontrar caminhos para a mudança», sublinha.

«Os sonhos começam aqui» diz Don Pattinson

Dom Pattinson, 47 anos, é atualmente um dos artistas urbanos britânicos de maior renome no panorama mundial.

patisson-ao-altoApesar de repartir a sua vida «entre Londres e Nova Iorque a cada duas semanas», encontrou tempo para estar presente na inauguração da sua exposição, na galeria louletana Art Catto, na quinta-feira, 28 de julho.

O artista aceitou ainda o desafio e convite de Vítor Aleixo, presidente da Câmara Municipal de Loulé para pintar dois murais na cidade. Para o trabalho no edifício que alberga o recém-inaugurado Gabinete de Apoio ao Bairro, apenas impôs uma condição: «que as crianças pintassem comigo».

A ideia de leitura para a obra é «os seus sonhos começam aqui. Quero que olhem para o mural e que sintam que isto lhes pertence. Que se sintam orgulhosos», explicou ao «barlavento».

«Adorei esta experiência e há muito tempo que já não pintava em cima de um andaime. Fiquei rotulado como artista urbano há alguns anos, pois fazia muitos trabalhos de graffiti na rua. Hoje é um género de arte muito popular e até respeitado, mas na época era considerado vandalismo. Mas na verdade, vejo-me mais como um artista pop», sublinhou.

De Loulé, segue para a costa lesta dos Estados Unidos da América, para instalar três enormes telas numa mansão em Los Angeles. Depois, irá trabalhar no seu estúdio em Nova Iorque enquanto se prepara para uma nova exibição a solo em Londres, com estreia marcada em novembro. Sobre o Algarve, deixou uma promessa muito clara: «quero voltar todos os anos».

«Brexit» no coração de Loulé

Pintar dois murais em Loulé «não estava programado», mas isso não foi problema para Dom Pattinson. No centro da cidade, pintou uma obra que evoca o recente «Brexit». E explicou porquê.

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«O Algarve tem uma enorme comunidade de expatriados britânicos. O mural faz referência a esta situação: a saída do Reino Unido da União Europeia. É interessante porque agrada tanto aos que queriam a saída como os que defenderam a permanência. A interpretação ficará a cargo de cada um. O bulldog inglês representa o Reino Unido, e a bandeira, o desmoronar da UE. Para mim toda esta situação é errada. Eu votei a favor, e fiquei absolutamente devastado quando soube os resultados», confidenciou ao «barlavento».