Lagos lança Base de Dados dos Naufrágios Históricos do Barlavento

  • Print Icon

Base de Dados foi apresentada do Simpósio de História e Arqueologia Náutica e Subaquática de Lagos, que decorreu ontem, 13 de abril.

Em entrevista ao barlavento, Alexandre Monteiro, arqueólogo náutico e subaquático do Instituto de Arqueologia e Paleociências (IAP) da Universidade Nova de Lisboa, explica que a segunda fase da iniciativa terá um foco especial na época dos Descobrimentos Portugueses.

barlavento: Como surge esta base de dados?
Alexandre Monteiro: surge de uma iniciativa conjunta do Instituto de Arqueologia e Paleociências (IAP) da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (História, Territórios e Comunidades do Centro de Ecologia Funcional – Ciência para as Pessoas e o Planeta) e da Câmara Municipal de Lagos. Em 2016 foi assinado um protocolo para o estudo, divulgação, salvaguarda e valorização do património subaquático e tem vindo a avançar, embora de forma vagarosa.

Qual foi o ponto de partida?
Temos vindo a fazer toda uma investigação histórica relativa aos naufrágios naquilo que entendemos que é a zona de influência de Lagos, numa área que vai de Odeceixe até para lá de Portimão. Na antiga administração territorial, o Algarve tinha dois polos, Faro e Lagos, que estruturavam, digamos assim, as relações com o mar. Lagos, até pelo facto de ter a praça-forte, tornou-se o principal ponto de apoio à navegação de todo o Barlavento algarvio. Ourique era o ponto em terra que controlava a zona de Santiago do Cacém, Grândola e Sines e é onde fomos descobrir muita informação.

Neste momento, quantos registos tem a Base de Dados?
Tem 185 validados, podendo chegar às 250 ocorrências de naufrágios históricos, com vários graus de precisão, desde o século XIV até 1980. Isso permite-nos perceber e aferir quais são os pontos da costa onde existem mais ocorrências de naufrágios. E a partir daí podemos extrapolar para épocas mais antigas. Sagres, as ilhas do Martinhal e toda a zona para oriente do Cabo de São Vicente são das mais perigosas do país. Além dos Açores, não estou a ver outra com maior número de naufrágios. A costa norte acima do Cabo de São Vicente até à Arrifana, quase debaixo de cada pedra há um naufrágio. Ainda hoje a Capitania de Lagos ocupa praticamente toda essa zona de influência e, portanto, é preciso resgatar a História. Vamos disponibilizar um link online para a carta arqueológica com sistema de informação geográfica. Depois, queremos publicar um livro em formato digital [ebook].

O acesso público da informação não pode abrir caminho a pilhagens por caçadores de tesouros? Ou só se conhecendo se pode proteger esse património?
Essa é uma questão paradoxal. Não temos assim tantos navios com tesouros, embora existam alguns. É um compromisso que tem de se fazer. Há de haver sempre um por cento de pessoas mal intencionadas. Acontece o mesmo com as cartas arqueológicas em terra. Será que as pessoas vão aos sítios, ao fim de semana, com detetores de metais e destruir tudo? Bem, se calhar é melhor dar a informação ao público e quem prevaricar terá que responder às autoridades. Também não vai ser com base nestas informações que será possível chegar aos sítios com tesouros. Um exemplo: no Alentejo, em frente à Comporta, há um navio espanhol com 22 toneladas de ouro e de prata. Pode estar num raio de um quilómetro. Agora, para se encontrar esse navio debaixo de metros de areia, será preciso usar tecnologia. Isso dará nas vistas e não poderá ser feito de um dia para o outro. Portanto, penso que temos mais a ganhar em dar toda esta informação à comunidade. Até porque isto gera entusiasmo e, por vezes, chega-nos informação, por exemplo, através dos pescadores, que pode não ter qualquer valor do ponto de vista patrimonial ou arqueológico, mas acaba por ser muito interessante.

O que já está concluído no âmbito do protocolo com Lagos?
A primeira fase foi fazer um levantamento dos sítios com potencial arqueológico subaquático. Agora, vamos submeter estes dados à Direção-Geral do Património Cultural, que tem a incumbência de se manter atualizada para que sempre que haja construções em frente marítima, as empresas que fazem os estudos de Impacte Ambiental possam ter em conta a possível existência de naufrágios. Vamos também apresentar um Projeto de Investigação Plurianual em Arqueologia (PIPA). Significa que numa segunda fase vamos criar equipas para desenvolver a investigação, em conjunto com a Universidade Nova, o município de Lagos e outras entidades parceiras. Temos uma colaboração com a Faculdade de Engenharia do Porto, que dispõe de sistemas de deteção e prospecção geofísica no mar. Têm um género de mini-torpedos com sonar de varrimento lateral e magnetómetros, um equipamento que deteta anomalias magnéticas do campo terrestre e que poderá indiciar a presença de canhões, âncoras, entre outros artefatos. Será feita uma recolha e análise de dados geofísicos. No final do processo, faremos uma intervenção nos contextos que parecerem mais interessantes. Não em todos.

Qual o objetivo?
Pretende-se criar mais conhecimento sobre aquilo que foi a grande paisagem marítimo-fluvial desta região e todo este interface que era o reino do Algarve. A única via de comunicação com o resto do mundo, sobretudo com o norte de África, era através do mar. Tudo se fazia pelo e graças ao mar. Vamos estudar desde as antigas almadravas do atum aos aspetos relativos à construção naval no concelho de Lagos. Ou seja, o objetivo não é ir à procura de um navio com um tesouro, embora também apareçam. Tendo em conta o interesse que Lagos tem pela época dos Descobrimentos, não seria surpresa que nos focássemos mais nesse período. Possivelmente, vamos tentar encontrar navios dessa altura. Sobretudo portugueses, porque hoje em dia não sabemos bem que como eram construídos, nem como eram operados. Encontrámos um pedaço da Nossa Senhora dos Mártires de 1605, no Tejo, e os restos do Bom Jesus, de 1533, na Namíbia, e mais nenhum. Portanto, se conseguirmos encontrar um nos mares do Algarve, seria, do ponto de vista de importância científica, uma coisa fantástica. Vamos ver onde os dados nos
levam…

Restaria alguma coisa para escavar ou resgatar, digamos, numa caravela dos Descobrimentos?
Acho que sim, porque a grande vantagem do Algarve é ter a costa muito arenosa. Por exemplo, temos um projeto em Esposende. Grande parte dos navios que ali naufragaram já não existem. A costa é muito mais selvagem e o número de dias em que se pode lá mergulhar é muito curto. O fundo rochoso faz com que grande parte dos testemunhos materiais tivesse desaparecido por ações mecânicas destrutivas. Numa zona arenosa, se descobrirmos alguma coisa, de certeza que vai estar muito bem preservada. A grande desvantagem é ser mais difícil de descobrir. E depois há outro aspeto: tem sido feita relativamente pouca intervenção ao largo da costa algarvia. O potencial é muito grande porque existe todo este sedimento de areia praticamente intocado. Já não é a primeira vez que ouço dizer que na Praia dos Três Irmãos há um navio romano. Diz-se que na Meia Praia, a cerca de três milhas da costa, há um sítio que pode ter uma nave lapidária.

E caso surja um achado dessa magnitude, qual é o procedimento?
As intervenções debaixo de água são da competência da Direção-Geral do Património, através do Centro Nacional de Arqueologia Náutica Subaquática. Um dos itens para autorização é o destino a dar às peças sempre que são feitas escavações. Mas antes de isso acontecer há muito trabalho prévio, para se perceber as características e o potencial do sítio arqueológico. É uma embarcação romana? Fenícia? Um navio a vapor? É preciso perceber a extensão e a cronologia. Se se justificar uma escavação, então é preciso uma retaguarda de conservação e restauro. No Barlavento algarvio, o Museu de Portimão é o único que tem essa valência. Por outro lado, os artefatos de navios dos Descobrimentos são, regra geral, considerados tesouros nacionais. Por exemplo, um astrolábio ou um canhão em bronze português, provavelmente, irão para Lisboa. Se houver um investimento da parte da autarquia de Lagos no conhecimento de realidades submersas dos Descobrimentos, é possível que se tenha de garantir essa retaguarda. Agora, depois de 25 anos de experiência, o que posso dizer é: quando se procura algo, encontra-se sempre. Sobretudo se houver um muito bom trabalho de gabinete realizado.

E se for uma nau espanhola?
Tudo o que está perdido na costa, nas águas territoriais portuguesas até às 12 milhas, pertence a Portugal. O nosso país invocou também a jurisdição sobre as águas da zona contínua, que são as outras 12 milhas. Ou seja, tudo o que está a 24 milhas de distância da costa, é da responsabilidade portuguesa. Se houver uma forte suspeita que se encontrou uma nau espanhola nas nossas águas, como Portugal e Espanha são Estados que assinaram a Convenção da UNESCO para a Proteção e Salvaguarda do Património Cultural Subaquático, ambos vão ter de se entender. O que Portugal pode fazer é pedir ajuda aos espanhóis para escavar, mas as peças pertencem sempre a Portugal. Recordo o caso da Nossa Senhora das Mercedes, o navio que foi encontrado por caçadores de tesouros com milhares de peças em ouro e prata ao largo de Faro, em 2008, a cerca de um quilómetro de profundidade, a 18 milhas da costa. Portanto, Portugal podia ter reivindicado para si esse naufrágio. No entanto, como havia uma disputa muito grande entre a coroa espanhola e os caçadores que estavam a pilhar o navio afundado pelos ingleses em 1804, Portugal entendeu que devia deixar a batalha legal para o país vizinho.

Agimos bem?
Neste caso, acho que agimos bem. Portugal só deve intervir quando os navios estiverem a ser ameaçados por caçadores de tesouros. Mas isto significa que tudo o que está até 40 quilómetros de distância do Cabo de São Vicente, não só pertence a Portugal, como Portugal tem a responsabilidade de proteger e salvaguardar.

Muitas histórias por descobrir

Segundo Alexandre Monteiro, arqueólogo náutico e subaquático, especializado na descoberta de navios históricos naufragados, o Barlavento algarvio é a zona de excelência para a história trágico-marítima da humanidade. «Olhando para a cartografia e documentação portuguesa e espanhola dos séculos XVI e XVII, conseguimos chegar aos sítios dos naufrágios só com base nessas indicações. Quase de certeza que se mergulhar, vou encontrar destroços. Significa que muitas vezes o que precisamos de ter é o nome do navio e uma data para a sua perda. Já me aconteceu através de uma simples nota de rodapé de um documento de 1720, construir um caso completo com a lista das pessoas que morreram, das que deram à costa e foram enterradas, e até o registo de cargas», refere.

Com efeito, durante séculos, Lagos foi escala numa área que ia de Odeceixe até para lá de Portimão. Batalhas, tempestades, nevoeiros, erros de rota e ataques de corsários levavam ao encalhe, à colisão ou ao afundamento de centenas de navios. Além de documentação em arquivo, todas estas perdas de navios geraram potenciais sítios de património cultural subaquático, monumentos submersos, hoje em dia com elevado valor científico, patrimonial e turístico.

«Por exemplo, em 1525 aconteceu o naufrágio da Nossa Senhora da Conceição ao largo da Praia do Zavial, a sul da Raposeira, no município de Vila do Bispo. No século XIX, temos referência a navios a vapor que naufragavam ao norte, entre uma a três milhas do Cabo de São Vicente. Temos tragédias, como o navio vapor Childwall Hall, que naufragou em 1878. Há toda uma série de documentação que permite perceber como é que o Algarve coordenava as operações de salvamento. Temos manuscritos do Arquivo Histórico Ultramarino e documentos que mostram que na Praia da Bordeira, entre a Carrapateira e Odeceixe, houve um barco que deu à costa em 1780, as mulheres perderam os pertences e que a guarnição de Lagos foi por terra até à zona do sinistro abrigar os náufragos e tentar salvar a carga que podia e resgatar salvados. É esta importância de Lagos enquanto centro administrativo náutico», diz o investigador.

Alentejo dá «Um Mergulho na História»

O Instituto de Arqueologia e Paleociências (IAP) da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa tem agora um outro grande projeto em mãos, inaugurado no sábado, dia 9 de abril, em Alcácer do Sal. Chama-se «Um Mergulho na História» e tem por objetivo fazer um levantamento dos naufrágios do Alentejo Litoral, desde Troia até ao Cabo Sardão (Zambujeira do Mar), em parceria com a Direção-Geral do Património Cultural (DGPC). «Foi o projeto vencedor do Orçamento Participativo de Portugal (projeto OPP nº 466) de 2018 e terá especial incidência na linha de costa fronteira aos concelhos de Alcácer do Sal, Grândola e Sines», explica Alexandre Monteiro, arqueólogo náutico e subaquático, que encontra um paralelismo com o trabalho que tem vindo a ser realizado em Lagos. O financiamento ronda os 300 mil euros.