Ladaínhas dos pescadores algarvios vão ecoar no Museu de Portimão

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«Leva-leva, ladaínha de pescadores» vai ser apresentado no auditório do Museu de Portimão, na terça-feira, dia 19 de julho.

A partir de gravações de arquivo, feitas pelo etnomusicólogo Michel Giacometti em 1961, um coletivo de investigadores e artistas portugueses e franceses focou-se nos cânticos de trabalho dos pescadores da região do Algarve.

O projeto chama-se «Leva-leva, ladaínha de pescadores» e é dinamizado pela editora independente FLEE Project, com o apoio do Instituto Francês de Portugal.

Vai ser apresentado no auditório do Museu de Portimão, na terça-feira, dia 19 de julho, às 18h30, com a presença dos responsáveis do projeto e dos investigadores locais Maria João Raminhos Duarte, Carlos Osório e José Garrancho, contando também com momentos de animação musical.

Entoado pelos pescadores do Algarve, durante a faina, o «Leva-leva» ou «Ribolé/Arribalé» servia para estimular, motivar e coordenar o trabalho a bordo das traineiras, sobretudo nos momentos mais pesados em que era preciso puxar as redes carregadas de sardinha.

De uma pesquisa de 18 meses, nasceu um livro e um disco, com gravações de arquivo originais e versões revisitadas por artistas e produtores contemporâneos.

No disco, há três registos de arquivo. O primeiro é de 1939, de Armando Leça. O segundo registo é de Michel Giacometti, captado em Portimão, em 1961, e por fim, há um registo de 1981.

O livro inclui vários ensaios, entrevistas, fotografias de arquivo, assim como duas comissões de arte, olhando para os pescadores em Portugal através de uma perspetiva original.

Já o livro é uma recolha de ensaios sobre história dos pescadores no Algarve, que se cruza também pela história das suas mulheres, a condição social e evolução económica da região.

Em entrevista à TSF, o representante da plataforma FLEE confessa que ficou comovido com a vida das mulheres dos pescadores.

«Não tinham qualquer direito. Eram chamadas apenas quando soava a campainha da fábrica, quando os barcos regressavam ao cais, para porem o peixe em conserva. Mulheres que tinham uma vida muito difícil, que traziam os filhos para o trabalho, até durante a noite. Foi uma história que me tocou muito», sublinhou Alan Marzo.

«A segunda coisa que me tocou foi ver e compreender a transformação do Algarve, em tão pouco tempo. De uma economia baseada na pesca, tornou-se uma região com uma economia assente nos serviços e no turismo».

À espera da «cuba». Foto: José Garrancho.

Alan Marzo gostaria de ver mais estudos sobre o que se perdeu na música e na cultura no Algarve, com o turismo de massas.

Com este projeto centrado nas canções dos pescadores em Portugal, a plataforma FLEE Project tenta aliar uma investigação antropológica aprofundada a uma reflexão contemporânea e artística.

Michel Giacometti foi um etnomusicólogo francês que passou a vida em Portugal a documentar as diferentes culturas, folclore e tradições periféricas do país. Nos anos 1960, viajou para o Algarve com o seu colega português Fernando Lopes Graça para gravar as canções dos pescadores locais.

«Leva-leva, ladaínha de pescadores» foi apresentado no Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia (MAAT), em Lisboa, na sexta-feira, dia 15 de julho.

Durante a próxima semana, chegará a museus de Setúbal, Portimão e Porto, que colaboraram na iniciativa. A entrada é livre.

«Esforço Lúdico» ou o sofrimento enquanto força motriz de uma região

Até final do mês, estará patente no MAAT, em Lisboa, uma instalação de Alan Strani cujo título é «Esforço Lúdico».

«Durante séculos, a economia da região portuguesa do Algarve dependia da pesca. Numa cidade como Portimão, a maioria dos homens vendia a sua força de trabalho como pescadores em perigosos arrastões por uma ninharia, ao passo que as mulheres eram exploradas em fábricas de conservas de peixe, sem grandes direitos. Neste contexto, a matriz cultural da sociedade gravitava frequentemente em torno do esforço físico e do sofrimento. Com o aparecimento do turismo de massas no final dos anos 1970, a região costeira do Algarve mudou abruptamente, e cidades como Portimão viram emergir rapidamente uma economia completamente nova: a indústria de serviços. Nas águas oceânicas, os pescadores que puxavam as suas redes foram rapidamente substituídos por turistas a realizar grandes sessões de grupo de hidroginástica», ironiza o autor.

Explorando a noção de memória coletiva, «Esforço Lúdico» convida os participantes de uma sessão de hidroginástica em Portimão a criar uma coreografia sobre canções de trabalho de pescadores gravadas num barco em 1962 pelo etnomusicólogo Michel Giacometti.

«Numa região onde o sofrimento tem sido a força motriz da economia durante anos, a instalação de Alan Strani questiona: o que acontece quando, em poucos anos, o entretenimento generalizado ganha terreno através do turismo de massas? Como pode a noção de esforço ser concebida como uma atividade lúdica escolhida, quando há anos que é uma ação suportada? Esta é a anomalia que este trabalho transmedia tenta explorar».