Jovens ativistas organizam Semana Mundial pelo Clima no Algarve

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Objetivo é chamar a atenção, com ações pacíficas, para as maiores fontes de poluição da região. O programa culmina na tarde de dia 27 de setembro, com uma greve geral.

Faro, Lagos, Portimão e Tavira unem-se a centenas de localidades, em mais 120 países, que de 20 a 27 de setembro, vão sensibilizar a sociedade para lutar contra a crise climática, num movimento denominado globalmente como Week For Future, ou, Semana pelo Clima, em português.

No Algarve, seis jovens encarregam-se de organizar sete dias de atividades de cariz ambientalista.

«Com esta iniciativa queremos acordar as pessoas. O planeta não pode esperar mais. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas [órgão das Nações Unidas] indicou que em 150 anos aumentámos, em 1 grau celsius, a temperatura global do planeta. Para que toda a civilização se mantenha como está, com água potável e ar respirável, precisamos de cortar 50 por cento na emissão de gases com efeito de estufa até 2030. Precisamos de começar com as mudanças agora e é para isso que queremos alertar os algarvios. Um período de 10 anos, não é nada», começa por afirmar ao «barlavento» Mourana Monteiro, 22 anos, licenciada em psicologia na Universidade do Algarve (UAlg) e uma das responsáveis pelas ações na região.

A jovem foi também uma das impulsionadoras das greves climáticas estudantis dia 15 de março e 24 de maio, às quais se juntaram centenas de alunos, e cujo ponto alto foi em Faro.

Para a semana que se avizinha, as expetativas são mais elevadas.

«As atividades e o dia da greve são para a população em geral e não apenas para os estudantes porque todos temos que nos unir por esta causa», afirma.

O grupo de jovens começou por identificar problemas e ameaças à estabilidade ambiental.

«A indústria aeroportuária, a hotelaria, os portos náuticos, a pecuária, a moda e ordenamento do território foram os alvos que selecionámos como os maiores poluidores do Algarve», diz.

Assim, o primeiro dia, sexta-feira, 20 de setembro, começa com um protesto pacífico numa superfície comercial da região. Apesar da ativista não revelar o local específico, conta que «é preciso alertar para os gastos desnecessários de recursos na chamada fast fashion. Vamos protestar com cartazes e faixas que indicam algumas estatísticas e que visam informar a população de quais os riscos de um nível de consumo desenfreado. Vamos entrar no espaço vestidos com roupas velhas».

Mourana Monteiro, 22 anos, licenciada em psicologia na Universidade do Algarve (UAlg) e uma das responsáveis pelas ações na região.

Para sábado, dia 21, está marcado uma arruada em Faro. «Queremos promover a manifestação de dia 27. Vamos falar com as pessoas, entregar panfletos, mostrar que existimos e quais os motivos que nos fazem lutar», revela a impulsionadora.

Segundo a jovem, «o dia seguinte, domingo, é muito importante. Foi criada uma ação nas redes sociais chamada Mãos à Obra, a que várias regiões, incluindo o Algarve aderiram. Nesse dia, em Portimão e em Faro vamos juntar-nos numa recolha de lixo em parceria com a Straw Patrol. Será um protesto contra a ineficácia da gestão de resíduos. Com algum do lixo recolhido vamos criar uma escultura que será deixada à porta da Câmara Municipal de Faro, no dia da greve global».

No dia 23, a mensagem vira-se para os supermercados. «Vamos dirigir-nos a algumas superfícies e pretendemos chocar a população com alguns dados estatísticos acerca da importância da redução do consumo de carnes para o meio ambiente», explica Mourana.

Na terça-feira, marcada pelo já tradicional desfile académico da UAlg, o grupo realiza a operação «Pequena Sereia», como destaca a jovem.

«No final, quando os cerca de seis mil estudantes estiverem reunidos, vamos alertar para a subida do nível médio da água do mar. Vestidos com fatos de mergulho, vamos sair da Ria e dar a entender que se nada for feito, daqui a uns anos, os algarvios terão de se vestir como mergulhadores para sobreviverem», ironiza. O dia 25 tem como foco principal o Aeroporto de Faro.

Segundo Mourana, «a ideia é criar notas informativas nos autocarros que se desloquem até à aerogare. Vamos ter panfletos com informações sobre os gases de efeito de estufa. Vamos fazer aviões de papel e lançá-los em várias zonas sob o mote: mais aviões só se for a brincar».

As escolas básicas e primárias também não ficaram esquecidas pelo grupo. «No dia 26, queremos apelar à população que não vai à greve. Queremos incentivar os professores a irem com os seus alunos à manifestação. Se isso não for possível, que nesse dia, se lembrem do ambiente. Estamos ainda a tentar, com uma companhia de teatro, que seja realizada uma peça sobre a temática, de modo a que os mais novos se possam instruir de uma maneira divertida», declara a ativista.

Por fim, o culminar das atividades regionais, na sexta-feira, dia 27 de setembro, às 17h00, com a Greve Climática Global. «No Algarve temos quatro cidades confirmadas: Faro, Lagos, Portimão e Tavira. A ideia é que exista abertura e disponibilidade para que qualquer pessoa se possa também manifestar na sua cidade. Sabemos que aqui no Algarve a rede de transportes é fraca e por isso escolhemos as cidades que, na nossa opinião, conseguem aglomerar pessoas de várias localidades», diz ainda Mourana Monteiro.

Em Faro, a manifestação termina no Jardim Manuel Bívar, onde vai decorrer uma Vigília pelo Clima até à manhã seguinte, com palestras, workshops, debates e até música ao vivo.

Os interessados em participar podem juntar-se aos cortejos nos pontos de encontro definidos. Em Faro, na rotunda do Hospital, em Lagos no Mercado de Santo Amaro, em Portimão no Centro Comercial Aqua e em Tavira à porta da Escola Secundária. «Vamos dizer a todos: saia do passeio e venha para o nosso meio», incentiva Mourana Monteiro.

«A subida do mar vai refletir-se no território»

João Lázaro é um dos responsáveis pela Semana pelo Clima no Algarve. Apresenta-se com um livro na mão: «A Nossa Casa Está a Arder» da jovem ativista sueca Greta Thunberg, conhecida por protestar às portas do Parlamento sueco para chamar a atenção para as alterações climáticas.

Na opinião do jovem algarvio de 26 anos, licenciado em Arte e Design, as suas motivações para fazer parte do movimento são claras.

«É o ambiente que vai garantir que as gerações futuras vivam aquilo que eu vivi. Que possam ter uma infância tal como a minha, muito ligada à natureza. É a primeira vez que me estou a aliar à organização de uma iniciativa como esta. Senti que não podia mais deixar para amanhã aquilo que tem de ser feito agora. Estou preocupado e até assustado com o que o futuro nos reserva. Já se vão vendo pequenas alterações, mas acho que todos temos de agir e só todos juntos é que poderemos conseguir enfrentar esta crise», conta ao «barlavento».

Na opinião do jovem designer, a sua profissão tem um papel fundamental, sendo que cada um pode «contribuir para minimizar os impactos a partir da sua área de formação. Enquanto designer sinto que temos uma enorme responsabilidade social. Somos fundamentais neste processo de mudança, tanto na possibilidade de comunicar a mensagem de forma atrativa e clara, como na escolha dos materiais dos produtos que idealizamos e que acabam por ser produzidos. Todo o lixo, antes de ser lixo, já foi um projeto de design. E é nesse momento que temos a capacidade de mudar o rumo do planeta, com apostas em materiais reciclados».

Segundo conta João Lázaro, o Algarve, à semelhança de outros locais no planeta, pode ser uma das zonas mais afetada com o aquecimento global. «Temos uma larga costa e a subida do nível médio da água vai refletir-se no território. Acho que os algarvios têm de se preocupar. Tem de ser uma preocupação de todos e não apenas dos municípios costeiros. Chega tudo muito tarde ao Algarve, mas felizmente este movimento chegou relativamente cedo».

Por fim, o jovem deixa uma mensagem: «gostava que os órgãos do poder realizassem medidas concretas no sentido de formar a população para as causas ambientais. Ações, organizadas pelas autarquias, com o objetivo de consciencializar a sociedade. Primeiro temos de educar porque para agir temos de saber o que se está a passar e o que podemos fazer. O primeiro passo é chamar a atenção para a necessidade de mudança e é isso que queremos fazer durante a semana».

«Na região há vários problemas ambientais»

Na equipa da organização da Semana Pelo Clima no Algarve, há um biólogo marinho que trabalha diretamente com crianças do primeiro e segundo ciclo.

No período letivo desloca-se às escolas para formar os mais novos para a problemática dos plásticos nos oceanos. João Zêzere, 24 anos, natural de Ponte de Sôr, veio para Faro quando ingressou no curso da Universidade do Algarve e acabou por ficar, onde vive há seis anos.

«É difícil pegar por uma ponta e dizer onde começam os problemas ambientais no Algarve. Há falhas na gestão de lixo, há problemas em aterros sanitários e cada vez há menos espaço para resíduos. Depois temos enormes toneladas de lixo que dão à costa nas praias. Há também problemas nas barragens algarvias que estão com um nível de água muito abaixo do desejado. Tivemos a questão da prospeção do petróleo que, não creio, que esteja 100 por cento terminada. Na minha opinião, estas são as maiores causas, que a nível governamental, deveriam ter uma ação visível», afirma jovem o biólogo.

«Depois não nos podemos esquecer que o Algarve é a base turística do país, se começarmos com problemas graves no território, as alterações climáticas tornam-se facilmente num problema socioeconómico», acrescenta.

No entanto, há esperança. «Lido com crianças e com educação ambiental todos os dias e o feedback que tenho é muito gratificante. As gerações mais novas levam a informação para casa e passam a mensagem a todos. São muito receptivos e têm uma consciência ambiental muito diferente das gerações anteriores. Estão realmente a mudar os comportamentos».

Medidas contra descartáveis de plástico são apenas para «tapar a vista»

Mourana Monteiro, João Lázaro e João Zêzere são três dos seis jovens responsáveis por organizar a Semana Pelo Clima, um movimento internacional, na região do Algarve. As motivações dos jovens para fazerem parte do movimento são diferentes, mas todos têm a mesma opinião: «não estamos iguais há 10 anos atrás, mas ainda falta fazer muita coisa».

Para Mourana Monteiro uma das maiores problemáticas do momento são as medidas contra os plásticos de utilização única.

«Os recursos são finitos e pensar numa exploração infinita de recursos finitos, algum momento vai correr mal. Seja papel ou plástico. Na medicina, por exemplo, não há alternativas e esse gasto faz sentido. Mas no dia a dia não é necessário. Os meus pais e avós iam ao supermercado com sacos de pano e garrafas de vidro. Sempre funcionámos sem plástico. Não é algo preciso no nosso dia a dia. Tem de haver legislação que impeça as indústrias e empresas de continuar a investir no descartável, seja de que material for».

A jovem psicóloga vai ainda mais longe e refere que essas medidas têm outros objetivos.

«Tenho consciência que as pessoas no poder não são iletradas e sabem o que estão a explorar. Quando mudam alguma coisa, estão a lucrar com isso, e não estão a fazê-lo apenas pelas preocupações ambientais. Mas a população está a ficar consciente e não podem continuar a fazer certas escolhas sem que ninguém diga nada», aponta.

Também para João Lázaro há ainda um longo caminho a percorrer. «Principalmente pelo governo e pelas grandes empresas poluidoras. Esses sim são realmente os criminosos que estão a destruir o planeta».

Por fim, o biólogo João Zêzere afirma mesmo que «as medidas atuais são apenas para tapar a vista. Reduzem o plástico de um lado, mas aumentam de outro. Ainda não houve capacidade de se criar uma alternativa como um todo, de substituição a 100 por cento».