João Marques: «Faro precisa de um fator diferenciador»

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João Marques, cabeça de lista à Câmara Municipal de Faro pelo Partido Socialista (PS) revela ao barlavento os pontos chave da candidatura.

barlavento: Já há algum tempo que se falava na possibilidade de encabeçar uma candidatura à Câmara Municipal de Faro, embora, só agora tenha sido confirmada. Porquê? João Marques: Em primeiro lugar porque surge um convite por parte do PS. Em segundo porque fui auscultando muitas pessoas da sociedade civil que me motivaram para ser candidato. Acharam que é o momento de eu poder dar um contributo diferente a Faro. A minha vida, nos últimos 10 anos, tem sido fora da política. Presente na esfera pública, porque agarrei o Ginásio Clube Naval de Faro, mas sobretudo muito ligado à vida empresarial. Agora que tenho estabilidade profissional e a possibilidade de poder contribuir como as pessoas me pedem, acho que é o momento certo. E até por outro motivo. Faro precisa de um fator diferenciador, como outras cidades têm tido e Faro não.

Em termos gerais, que ideias chave defende para o seu programa eleitoral e quando será apresentado?
A decisão da candidatura foi mediante condições que coloquei ao PS. Essas condições partiram por abrir muito esta candidatura à sociedade civil, e a possibilidade de ter a autonomia para a realização de uma lista. É importante para se fazer o trabalho futuro: confiança e pessoas diferentes. Da experiência que tenho, em termos de trabalho de gestão, é preciso poder delegar para que as coisas aconteçam. Por outro lado, esta candidatura que se afirma diferente e aberta, prende-se muito em pensar a cidade. Tenho ideias, assim como quem me acompanha e apoia, e espero fazer um programa participado. Será apresentado dentro de um mês, até porque o PS, através do conselho consultivo, já elaborou um primeiro diagnóstico daquilo que é a cidade com algumas perspetivas, mas acho importante juntar também aquilo que as pessoas pensam. Há ideias concretas e que me motivam porque acho que a cidade tem de mudar em um ou dois anos, não num projeto político de quatro anos. Tem de haver fatores imediatos de mudança na área da mobilidade e no cuidar das próprias infraestruturas existentes. É fundamental que Faro cuide primeiro daquilo que tem, para dar qualidade de vida à população, e depois sim, lançar mais projetos. Temos de cuidar daquilo que temos, valorizar mais o que temos, sem pensar em grandes obras estruturantes.

Que faria para melhorar a cultura, o desporto, o turismo e a economia do concelho de Faro?
São necessárias novas dinâmicas em qualquer uma dessas áreas. A cultura tem sido preenchida pelos seus agentes e o desporto também. O centro histórico tem de ser valorizado, beneficiado e requalificado. Sem dúvida que não deve ter circulação automóvel. O Teatro Lethes deve ser também recuperado. É uma das infraestruturas mais antigas da cidade e não tem qualquer tipo de cuidado. Temos de criar as nossas identidades. No desporto, os clubes estão sedentos de ter mais infraestruturas. Passamos por alguns concelhos e percebemos que, por exemplo, há piscinas municipais muito mais antigas que as nossas e que estão muito melhor cuidadas. No futebol e nas outras modalidades, é necessário criar novos equipamentos. Acho que é fácil e que, a curto prazo, Faro deve ter mais dois ou três campos sintéticos para dar resposta aquilo que é uma prática desportiva que mexe com milhares de pessoas e coletividades. O primeiro e segundo ano, caso este projeto chegue à vitória, serão para mudar a cidade sobretudo nestas áreas que parecem pequenas, mas que se tornam muito grandes. Há pequenas requalificações que hoje são feitas que me parece não serem prioritárias e que já deveriam estar mais direcionadas para estas necessidades prementes. O turismo é fundamental. Faro teve um impulso enorme com os empresários da restauração e com o Alojamento Local. Não conseguimos acompanhar com a melhoria das infraestruturas, naquilo que é o mobiliário urbano. Falo não só de espaços de lazer, não é concebível que um Largo de São Francisco ou uma zona da baixa não tenham um WC público. Estamos a viver tempos difíceis e a retoma será longa.

Prevê desenhar medidas concretas de âmbito municipal para o pós-COVID-19 no seu programa?
É fundamental que o município tenha esse papel. É uma recessão não económica, derivada de uma pandemia e já temos muitas, mas vamos ter mais pessoas a passar dificuldades. Acho que o principal desafio de Faro, na área social, é estar na linha com a Europa. Não faz sentido a capital de distrito do Algarve não ter creches, jardins de infância e lares. Hoje em dia, qualquer pessoa que precise destas respostas, terá grandes dificuldades em encontrar vaga em Faro. Em relação à COVID-19 serão precisos outros apoios além dos que já existem. Acho que se deve criar alguma equidade, um mecanismo municipal, que possa não só fazer acompanhamento social, mas também o acompanhamento económico daquilo que é um agregado familiar. Essa é uma das bases estruturantes da avaliação de uma cidade, a área social. Se tivermos uma área social com resposta temos uma cidade mais evoluída. Depois, a Câmara tem de ajudar muitas IPSS e algumas vezes substituir-se a elas. Isto é, dentro daquilo que é a sua estrutura, criar capacidade de resposta e não só encaminhar para as instituições sociais, porque também elas próprias estão a viver períodos difíceis.

Luís Coelho, ex-autarca e candidato à Assembleia Municipal de Faro poderá ser uma mais-valia na sua candidatura?
Luís Coelho, olhando para o seu histórico, é sempre uma mais-valia para a cidade. Foi presidente da Câmara Municipal de Faro e muitos recordam-se que foi o único autarca com um grande projeto para a cidade. Aliás, grande parte das obras que foram feitas nestes últimos 12 anos, foram obras de um projeto que o Luís Coelho fez parte durante seis anos, quatro deles de forma direta. Passados 20 anos continuamos a executar projetos de 2001. Considero que é uma mais-valia, até porque o próprio já ganhou dois atos da Assembleia Municipal e é uma pessoa da cidade que, tenho a certeza, que naquilo que são as instituições farenses, tem estado sempre presente.

Que tem a dizer sobre os projetos que têm sido apresentados para a frente ribeirinha da cidade?
Um porto de recreio exterior tem de ser feito em quatro anos. Se não for, enquanto presidente e respetiva equipa, não estamos disponíveis um mandato seguinte. Tem de haver compromisso para com a cidade e Faro tem de dar esse salto. Temos de sair dos projetos, das conversas, do prorrogar prazos e temos de efetivar uma obra. Até pelas funções que ainda hoje exerço, e pelo conhecimento que tenho da Ria Formosa, Faro tem de ter um porto de recreio exterior em quatro anos.

Faro tem uma zona à beira-ria, onde há ruínas de uma antiga fábrica de cortiça e restos de uma zona industrial. Isso é algo que o preocupa?
Preocupa bastante porque não consigo perceber, como é que ao fim de tantos anos, ainda não existe um único plano para o local. Preocupa-me e estranho. Faro é uma capital de distrito, com imensa gente a visitar-nos e vê aquilo sem qualquer tipo de intervenção. Sem dúvida que será uma zona de desenvolvimento para Faro. É um sítio que tem de ter passos definidos a curto prazo. Se os proprietários da zona, até à data, não conseguiram fazer um Plano Pormenor, acho que a Câmara já se devia ter substituído a isso. Aliás, no tempo do José Apolinário, houve um estudo da equipa da Parque Expo para a zona. Não foi valorizado a porteriori, mas acho que pode ser a base do estudo. Estranho que ao longo destes anos nada tenha sido feito. É a única zona da cidade onde conseguimos passar a linha do comboio e não conseguimos requalificar um único metro quadrado. O mesmo podemos dizer em relação ao bairro da Horta da Areia…

É uma promessa nos discursos de quem tomou posse, que nesse mandato, o bairro da Horta da Areia deixaria de existir. Acho que esse bairro só sairá de lá quando existir um plano, em que trate os equilíbrios económicos, nas duas formas, para que se possam fazer as coisas com desenvolvimento e tirar as pessoas dali para algum sítio com dignidade. Para isso é preciso acompanhamento porque os hábitos das pessoas que ali estão também precisam de ser alterados. Aliás, lamento que aquilo que são os gabinetes de bairro, que na altura tinham trabalho de proximidade na Horta da Areia e na Lejana, tenham ficado praticamente ao abandono, levando ao descontrolo da população e das próprias infraestruturas que lá estão. Há um descontrolo total dessa área, nos últimos anos, que não acontecia em mandatos, inclusive, do PSD com José Vitorino. Nestes últimos anos tem havido um descontrolo total e isso prejudica não só quem lá vive como a envolvência, sobretudo na Lejana. É necessária uma intervenção urgente do município.

Em boa verdade, foi o PS que fez o loteamento a custos controlados na Avenida Calouste Gulbenkian, que beneficiou muitas famílias que de outra forma dificilmente teriam oportunidade de comprar casa. A habitação é uma prioridade para a sua candidatura?
É uma prioridade. Outro compromisso que quero fazer com a cidade, é que nos primeiros quatro anos têm de estar garantidas construções de habitação a custos controlados. A habitação a custos controlados quando ficou garantida connosco, no tempo do José Apolinário, foi em quatro anos e foi feita. Essa é outra das linhas que não abdico de me comprometer com os farenses. Qual a sua opinião em relação à candidatura de Faro a Capital Europeia da Cultura em 2027?

É algo que quer acarinhar?
Sem dúvida. Faro já tem isso na sua história com a construção do Teatro Municipal, que alavancou e projetou muito a cultura. Mas para se pensar nisso é necessário um acompanhamento, melhorar tudo o que são as condições internas da cidade: melhorar a qualidade de vida das pessoas e das instituições culturais. Não vale a pena ser Capital Europeia da Cultura por ter uma bandeira e não ter intervenientes culturais ou uma cidade que pouco diz sobre isso. Basta passear pelo centro histórico para percebermos que não temos acarinhado a cultura.

Como vê uma aproximação aos concelhos vizinhos na elaboração de projetos conjuntos (ciclovias, por exemplo)?
Os dois concelhos vizinhos que temos, Loulé e Olhão, têm conseguido pautar-se nos últimos anos pelo fator diferencial, algo que não tem acontecido em Faro. É fundamental haver essa proximidade. Nestes quatro municípios, porque incluo também São Brás de Alportel, uma vez que se tem desenvolvido muito bem, acho que há a possibilidade de se criar uma plataforma muito interessante, entre os executivos municipais, para mostrar que não só somos capital, como somos uma região com qualidades europeias. Para isso, é melhor conseguir convergir. É esse o pulo que se pode dar nesta plataforma entre estes municípios.

Socialistas escolheram candidatos

A Comissão Política Concelhia do Partido Socialista de Faro, votou no dia 23 de fevereiro os nomes dos cabeças de lista aos órgãos autárquicos da capital de distrito.

Desta reunião magna dos socialistas farenses foram aprovados por larga maioria, com 95 por cento dos votos, os nomes de João Marques como cabeça de lista à Câmara Municipal e de Luís Coelho como cabeça de lista à Assembleia Municipal.

Foram também votados favoravelmente, por larga maioria, os cabeças de lista às Juntas de Freguesia.

Carlos Pedro Sousa Gordinho foi o indicado como candidato à Junta Freguesia da União de Freguesia de Faro (Sé e São Pedro);  José António Viegas Leal Jerónimo à Junta de Freguesia União de Freguesias de Conceição e Estoi; Eduardo Paulo Viegas de Sousa à Junta de Freguesia Santa Bárbara de Nexe e  Fernando Caetano Ferradeira Domingos à Junta de Freguesia do Montenegro.