Joana da Silva, a «feiticeira» de Aljezur que terá inspirado Saramago

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Processo inquisitorial do século XVIII, de Joana da Silva, a «feiticeira» de Aljezur, tem semelhanças com a obra «Memorial do Convento» de José Saramago, segundo o catedrático de Coimbra José Pedro Paiva.

José Pedro Paiva, historiador, professor catedrático na Universidade de Coimbra, especialista em História da Religião, com especial relevo para a História da Inquisição, reparou numa semelhança entre um episódio real passado no Algarve e a ficção contemporânea.

Com duas notas «fora do tempo» abriu a palestra que deu em Aljezur, na tarde de sábado, 2 de outubro.

Em «Memorial do Convento» (publicado pela primeira vez em outubro de 1982), José Saramago escreveu um diálogo revelador entre as personagens protagonistas do romance.

A dada altura, Baltazar Sete Sois pergunta a Blimunda Sete Luas: «que poder é esse o teu?».

Ela responde: «Vejo o que está dentro dos corpos, e às vezes o que está no interior da terra. Vejo o que está por debaixo da pele. Às vezes, o que está por debaixo das roupas. Mas só vejo quando estou em jejum. Perco o dom quando muda o quarto da lua».

Para José Pedro Paiva, esta passagem é reveladora. «Muito do que Saramago recriou para a sua personagem Blimunda, vamos encontrar em Joana da Silva, o que mostra como ele fez um excelente trabalho de pesquisa historiográfica quando engendrou a sua narrativa literária».

O processo desta mulher que viveu nas Alfambras, Aljezur, no século XVIII, sobreviveu ao tempo e está na Torre do Tombo.

«Conseguimos assim recuperar a história desta pessoa, que provavelmente, se não existisse a Inquisição, nunca saberíamos. Os historiadores têm hoje uma grande atração por tentar recuperar os mais humildes e mais anónimos, num certo ponto de vista, os derrotados da História», notou.

Avançando um pouco na cronologia deste caso, Joana da Silva, quando ouvida pela segunda vez pelos inquisidores, em Évora, em outubro de 1746, «perguntaram-lhe se alguma vez tinha feito um pacto com o diabo? Era crença comum, a ideia de que os poderes resultavam disso. Respondeu que não. Perguntaram-lhe se alguma vez tinha usado meios ilícitos para conhecer o futuro (que só dependia de Deus) ou se alguma vez tinha tentado adivinhar o paradeiro de coisas perdidas?».

Então, revelou «que quando tinha 15 anos, de manhã, pela crescença do Sol, estando sentada à porta da rua com a sua mãe, viu passar uma porca. Olhou com muita atenção e viu que estava prenha de sete porquinhos. E isso causou-lhe grande espanto. Contou à mãe, mas esta não ficou muito admirada e ter-lhe-á dito: tu tens esse dom, porque antes de nasceres, tu choraste no meu ventre, três vezes. E por isso tens o dom de ver no interior das criaturas racionais e irracionais», explicação que está registada no processo inquisitorial.

E continuou Joana que «conseguiu ver isto durante apenas duas horas, durante a tal crescença do Sol, mas depois perdia essa capacidade. Contou que muitas vezes, quando fazia de parteira e ia assistir às grávidas, via logo se eram gémeos ou não. Contou também que quando ia às igrejas era capaz de olhar às sepulturas e ver o estado em que estavam os corpos. Conseguia ver através da terra. E confirmou que via clara e distintivamente como se estivesse a ver uma coisa normal»…

Uma «feiticeira» com fama na região

Joana da Silva tinha fama em toda a região. Dizia-se ter «poderes extraordinários para provocar doenças, provocar a morte, mas também para resolver malefícios que atormentavam as pessoas».

Era viúva de Gregório Lourenço, natural de Odeceixe, residente no lugar de Alfambras, no então Reino do Algarve. «Era velha e vesga de um olho», lê-se no processo.

Tudo começou no dia 10 de abril de 1745 na localidade da Bordeira, quando «uma série de pessoas foram ter com o cura da paróquia fazendo queixas contra Joana da Silva e a sua filha que se chamava Catarina».

Eram «tidas e havidas por feiticeiras e buscadas para curar malefícios, descobrirem furtos, curarem enfermidades e fazerem outras coisas supersticiosas».

«O cura viu que as pessoas estavam preocupadas e tinham medo delas. Tomou nota e enviou tudo a um notário do Santo Ofício em Lagos. Este fez chegar a carta (que ainda existe) ao tribunal de Évora que tinha jurisdição sobre esta zona. Um mês depois, os inquisidores mandam abrir um inquérito. Que indagasse, como se dizia na altura».

Na Igreja da Nossa Senhora da Encarnação da Bordeira foram ouvidas as testemunhas. O inquérito começou a 21 de junho e esta é a parte mais rica do processo.

Quem eram as testemunhas? «19 pessoas, 13 homens e seis mulheres, com idades entre os 20 e os 64 anos. Até ao século XVIII, por norma, considerava-se que os homens eram testemunhas mais fidedignas. Mas neste caso, tiveram de ouvir muitas mulheres porque eram quem melhor conhecia algumas das práticas da Joana e da Catarina. Muitas eram suas vizinhas. Vivam porta a porta. E muitos destes depoimentos eram de pessoas que se sentiam vítimas delas» revelou José Pedro Paiva.

Minhocas fritas em azeite e mortes misteriosas

Uma das testemunhas era Maria André, casada com um lavrador natural de Monchique, moradora nas Alfambras, de 50 anos.

«Conta que um dia, um habitante de Aljezur chamado Bartolomeu foi à procura das duas mulheres que tinham capacidade de lhe dar remédio para o curar. Qual era o problema? Não conseguia ter relações sexuais com a esposa. Não conseguia cohabitar, como se dizia na altura. Quando Joana e Catarina o receberam, disseram-lhe que ele estava ensarilhado. Quer dizer, tinha aquilo a que hoje chamamos impotência sexual. Ter-lhe-iam dado um remédio para o ensarilhamento, segundo o que está no processo, que tomasse minhocas criadas numa raiz de laranjeira azeda, as fritasse em azeite, as comesse e ficaria bom».

A verdade é o Bartolomeu disse que nunca tomou o remédio, mas passado algum tempo ficou curado do ensarilhamento.

Contou ainda que Catarina dizia que quando a mãe morresse, ela é que ficaria a mestre. «É um traço comum neste tipo de crenças. Há uma espécie de hereditariedade. Aprendia-se de geração para geração, quer os poderes para fazer bem, quer os poderes maléficos ou diabólicos. Enquanto a avó ou a mãe fossem vivas, ninguém era mestre. Tem a ver com a experiência da vida», disse José Pedro Paiva.

Também foi ouvida «uma Teodora, natural da Raposeira, casada, moradora no Monte Valverde, de 31 anos. Contou que quando estava para dar à luz foi acompanhada pela Catarina e quando terminou o parto, esta deu-lhe um coelho guisado a comer. De repente, turvaram-se-lhe os sentidos e nunca mais teve um dia de saúde. Tal sorte que esteve quase dois meses a pensar que ia morrer. Sentiu-se enfeitiçada».

Os enteados resolveram procurar Joana da Silva que «disse a Teodora, que se esta tivesse ânimo, iria curá-la. Fez-lhe um lavatório com folhas de laranjeira azeda e folhas de louro e sussurrava algumas palavras como: ponho-te as mãos e deus ponha-te a virtude, enquanto a bafejava. Poucas horas depois, disse, estava sã e bem disposta».

Francisco Dias, de 20 anos, enteado de Teodora, confessou que prometeu casar com Catarina, se Joana conseguisse curar a madrasta… mas depois mudou de ideias. «Elas eram muito poderosas e podiam dar feitiços quer no corpo quer na sombra», disse.

Outra testemunha refere episódios de curas ao padre Duarte Estevão, embora o pároco tivesse ido para Monchique e nunca nada disse a esse respeito.

Uma outra mulher pediu ajuda a Joana para curar uma criança doente, «e esta pôs-lhe em cima leite de uma cabra preta e abriu um ponto cortado ao meio pelas costas». A enferma curou-se.

Mas o mais grave foi o desentendimento que Joana teve com o Juiz das Vintenas e com o Sargento-mor, a quem terá dito que iram «pagar muito bem» o desaforo. As autoridades estavam desconfiadas que Catarina, descrita como «mal casada» teria morto um filho indesejado no final da gravidez.

A verdade é que depois destas palavras, os homens adoeceram e acabaram por morrer.

Desta vez foi demais.

Joana acabou por ser presa no castelo de Aljezur. «Conta-se que quando o alcaide ia virar a chave do cárcere, não teve forças para o fazer, não foi capaz. Joana terá dito que não valia a pena sequer tentar: Escusas de porfiar. Por mais que tentes, não vais conseguir fechar a porta».

Houve então receios de uma mortandade nas Alfambras e muitos que até então nada diziam por medo de represálias, decidiram denunciar mãe e filha.

Prisão, tortura e degredo

Depois de presa vários meses em Évora, o passo seguinte foi colocá-la sob tormento, a tortura do potro. Era considerado um meio legítimo para a obtenção da prova. «Joana nunca admitiu culpa».

Perante isto «foi sentenciada em março de 1747 que fosse a um auto de fé público, em Évora, onde teve de abjurar de leve suspeita na fé, reconhecer que tinha cometido alguns erros e que prometia emendar-se. Foi condenada a cinco anos de degredo em Lamego, e pagar todas as custas do processo. E pagou!», disse o historiador.

Já a filha Catarina, teve uma pena de três anos de degredo em Leiria.

Pouco tempo depois, «Joana não se emendou e começou a fazer curas e voltou a ser acusada. A partir daí perdemos-lhe o rasto e não sabemos o que lhe aconteceu», admitiu José Pedro Paiva.

«Sabemos que foi uma mulher profundamente resistente como outras e que mesmo perante a prisão, a tortura e o degredo, ou porque acreditava naquilo, ou porque não tinha alternativa de subsistência», continuou a fazer o que sempre fez…

«Acredito que a história tem uma dimensão antropológica muito profunda. A Joana da Silva é uma figura que tem um contexto comum nas crenças mágicas em Portugal e na Europa. Foi um caso igual a quase tudo o que encontramos noutras zonas do país ou da Europa. Muitas destas crenças e procedimentos eram iguais. Havia figuras que achavam que tinham poderes e havia uma comunidade que recorria a elas, ou as incriminavam», concluiu.

A palestra «Pela Crescença do Sol via o interior dos corpos. Joana da Silva, a feiticeira de Alfambras e a Inquisição em Aljezur» foi a primeira do III Ciclo de Conferências «Aljezur no Tempo e na História», organizado pela Associação de Defesa do Património Histórico e Arqueológico de Aljezur e coordenada pelo Mestre José António Martins, do Centro de História da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

A próxima conferência será sábado, dia 9, às 15 horas na Junta de Freguesia de Aljezur. O tema é «De que forma o passado ajuda a compreender o presente? Viagens de exploração e aventura, estabelecimento de fronteiras e índios da Amazónia Brasileira» por Ângela Domingues, investigadora do Centro de História da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Um padre «solicitante»

Segundo José Pedro Paiva, a intervenção da Inquisição em Aljezur, comparada com o que aconteceu no resto do país foi «modesta e foi tardia». Apenas há processos no século XVIII. «Provavelmente porque este foi um território que se manteve durante muito tempo isolado, distante, e por outro porque a Inquisição portuguesa atuou sobretudo contra cristãos-novos acusados de práticas judaizantes». No entanto, há dois dignos de nota.

«Houve o caso do padre Amador Duarte, natural de Aljezur e cura de Odemira que em 1720 foi acusado da prática de solicitação em confissão. Que era isso? Durante o ato da confissão, o sacerdote tentava o assédio sexual a algumas das suas penitentes. Algumas foram queixar-se ao comissário da Inquisição em Odemira».

Foi o caso de Madalena. «O padre, que era pessoa de maus costumes, muito desonesto e luxurioso, ter-lhe-á posto as mãos nos seios», contou. Houve outras vítimas de práticas semelhantes. O pároco foi chamado e apresentou-se em Évora, admitiu os factos, «e como era comum, as penas aplicadas pela Inquisição nestes casos, não tinham fama pública, porque se entendia que isso seria uma forma de mostrar aos olhos de todos, a degradação de alguns elementos do clero».

Há um outro processo, tardio, «de um homem que era escravo, viveria em Aljezur, chamado João de Abreu, que a certa altura, mudou-se para Vidigueira, e foi acusado de um delito que não é normal encontrar-se em Portugal, pois foi acusado de práticas judaizantes».

Inquisição portuguesa não foi branda

Este ano celebram-se os 200 anos da abolição da Inquisição portuguesa, extinta na sessão de 31 de março de 1821, pelas Cortes Constituintes, decretando assim o fim do Tribunal do Santo Ofício, criado em Portugal em 1536. «Alguma literatura da época acusa a Inquisição portuguesa de ter sido a mais violenta durante mais tempo. Manteve muito tempo uma dimensão que era vista como grande iniquidade, isto é, o segredo processual e os chamados depoimentos singulares, que foram abandonados no século XVI pela maioria das inquisições modernas, mas que se mantiveram em Portugal. Tratava-se da aceitação de testemunhos contraditórios que não eram conforme as várias provas do processo. Isso bastava, muitas vezes, para se condenar alguém à pena capital» diz José Pedro Paiva. Enquanto esteve vigente, moveu cerca de 45 mil casos. Cerca de cinco por cento resultaram em condenações à fogueira.