Joana Bruno, a luthier de violinos de Barão de São João

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Nos arredores de Barão de São João, entre árvores e o chilrear dos pássaros, numa pequena casa de madeira, Joana Bruno conserta e restaura instrumentos de corda e arco.

Nos arredores de Barão de São João, entre árvores e o chilrear dos pássaros, numa pequena casa de madeira, muito simples, uma artesã especializada conserta e restaura instrumentos de corda e arco.

Chama-se Atelier Pukka Violins e até poderia passar despercebido, não fosse o característico «f» itálico que dá forma à boca da caixa de ressonância de muitos dos instrumentos acústicos de corda e arco, e que identifica aquele local como uma pequena casa da música. Atrás da porta de vidro, é possível ver violinos pendurados nas paredes e sobre a bancada, ferramentas e frascos com todo o tipo de acessórios e peças. É o local de trabalho da luthier Joana Bruno, no coração do concelho de Lagos.

«Nasci, cresci e estudei em Lisboa. Ao terminar o meu curso em Conservação e Restauro, tinha como propósito dedicar-me ao mobiliário em madeira. Rumei ao Algarve e instalei-me em Lagos, há cerca de dez anos. E a minha vida mudou completamente», resume a alfacinha, que nunca tinha pensado em reparar instrumentos musicais.

«A minha área de competência eram as peças de madeira e fiz alguns trabalhos em mobiliário. Quando cheguei a Lagos, conheci um senhor que tem um atelier no centro da cidade conhecido internacionalmente por Old Violin International. Sabendo da minha formação, mostrou interesse em mim e convidou-me para ajudar a restaurar os seus violinos, pois tem uma coleção espetacular. Na altura, fiquei um pouco receosa, porque era uma área completamente diferente, mas desde então dedico-me exclusivamente à reparação e restauro de instrumentos. Costumo dizer que os violinos escolheram-me», conta. Entretanto também já reparou violas de arco, violoncelos e até contrabaixos, pois todos têm uma técnica de construção semelhante.

E há instrumentos suficientes nesta zona do Algarve para se conseguir viver da luteria a tempo inteiro? «Há muitos estudantes de violino e há orquestras conhecidas. O que acontece, na minha opinião, é que os músicos ainda procuram luthiers fora do Algarve, sobretudo em Lisboa, para fazer as suas reparações, talvez porque ainda não me conhecem. Embora esteja no Algarve há dez anos, só me projetei como Joana Bruno Luthier há pouco tempo e é preciso algum para ganhar a confiança do mercado. Para um músico, o seu instrumento é quase um filho, há uma relação de amor, é a sua ferramenta de trabalho e cuida dele como se fosse um membro da família. Não o entrega a qualquer um. Alguns músicos já têm luthiers a quem recorrem e mantêm essa relação de confiança», responde.

Joana Bruno está satisfeita com a evolução da sua carreira, porque as encomendas vão crescendo e, embora ainda não a ocupem a tempo inteiro, isso é bom, uma vez que foi mãe há quatro anos e, assim, consegue conciliar a vida profissional com as funções maternais à moda antiga.

Este tipo de instrumentos são manuseados com muito cuidado pelos músicos, no entanto, com a utilização profissional surgem sempre problemas.

«Há vários. Nas reparações pequenas, a mais usual é o cavalete, a parte onde as cordas se apoiam. É uma peça solta, que se mantém no lugar pela tensão que as cordas exercem sobre si. Com o tempo, tende a curvar, dependendo da qualidade da madeira utilizada. E as pessoas procuram-nos para que façamos um novo. Outra situação recorrente é o ajuste da altura e forma do cavalete. Também as cravelhas, por vezes, não seguram bem ou ficam presas demais, resultado de humidades e mudanças de temperatura. Ocasionalmente, temos de fazer reparações maiores, por exemplo, quando aparecem fissuras, sendo necessário abrir o instrumento. Também a alma do violino, uma peça que se encontra no interior, verticalmente, ajudando à passagem das vibrações, por vezes cai, sobretudo quando se tiram as cordas ou depois de uma viagem».

Os melhores violinos são construídos à mão por luthiers especializados. Os mais baratos, por norma, adquiridos pelos principiantes, são feitos em série, em fábricas, com a China a liderar a produção.

«Muitas vezes, infelizmente, dependendo do preço, não saem de fábrica bem ajustados e trazem as cordas muito altas em relação à escala, obrigando a um esforço muito grande por parte das crianças, para pressionar as cordas. Faço ajustes para as baixar e evitar um esforço demasiado nos dedos», o que é também fundamental para que os estudantes não percam o interesse na aprendizagem da música.

Joana Bruno faz o seu verniz, utilizando várias resinas que são moídas, nas quantidades certas, juntando-as e, depois, acrescentando álcool a 99 por cento. O envernizamento é um processo moroso, pois obriga a várias camadas com intervalos longos para irem secando de forma adequada.

«Só uso cola animal, feita de ossos e cartilagens. É usada há séculos, não só em instrumentos musicais, mas, de um modo geral, em trabalhos de restauro. Há várias colas diferentes como a de pele de coelho ou de peixe. E também colas de mistura. São hidratadas com água e aquecidas a uma temperatura própria para terem o efeito ideal. Uma das vantagens em relação às colas sintéticas, é serem reversíveis, solventes em água. Só assim fui capaz de abrir este violino, sem grandes estragos nas zonas de contacto. Usei um pouco de álcool, porque estas colas são compostas por proteínas e o álcool ajuda a quebrá-las. Se tivesse sido colado com cola sintética, teria sido muito mais complicado», explica.

Como nada é perfeito, a cola animal não é resistente a temperaturas muito elevadas e à humidade. Por isso, em climas quentes, e em particular no algarvio, os instrumentos podem descolar se não forem bem acondicionados. No caso dos violinos, é frequente descolar na zona que encosta ao corpo do violinista, devido à transpiração.

Embora já a tenham desafiado, a luthier Joana Bruno diz não ter vocação para construir instrumentos. «A minha paixão é o que está a ver», diz, enquanto exibe um velho violino aberto, com fissuras.

«Tem, pelo menos, cem anos. O meu prazer é que volte a tocar depois de o restaurar. Como restauradora, a minha paixão é reabilitar. Prefiro um instrumento antigo e recuperado, apesar de todas as suas mazelas e marcas de história, a um instrumento novo e brilhante», conclui.

Atelier Pukka Violins

O Atelier Pukka Violins, de Joana Bruno, tem por lema «em harmonia com a paisagem e os sons da natureza» e por missão «intervenções de restauro que preservam a identidade e autenticidade dos instrumentos». Tem ainda um projeto de recuperação de violinos infantis antigos, a fim de proporcionar a um maior número de crianças a experiência de aprendizagem em instrumentos de fabrico artesanal, para que deixem de ser descartáveis e sejam violinos para vida». A luthier Joana Bruno atende apenas por marcação, que pode ser feita por telemóvel (914 313 993) ou e-mail (pukka.violins@gmail.com).