In the Pink: Loulé acolhe galeria de fotografia contemporânea

  • Print Icon

Chama-se «In The Pink» e é um projeto singular na região e no país. Nasce pela mão do casal Philip e Anja Burks em Loulé. Galeria dedicada à  fotografia contemporânea pode ser visitada a partir de sábado.

Três ou quatro pinceladas testam a cor original da fachada edifício de estilo Art Deco que faz esquina na Praça da Re­pública, quase paredes meias com a Câmara Municipal de Loulé.

«Talvez um pouco mais de salmão… é isto mesmo», sugere Philip Burks, o proprietário do espaço, enquanto inspeciona os retoques finais das obras de recuperação do edifício. Ao todo serão três pisos, ligados por uma escada em ca­racol de ferro, feita à medida.

O edifício, apesar de imponente por fora, não tinha telhado nem chão nos pisos superiores.

«Era apenas uma ruína», descreve o investidor. Agora conta com três salas cheias de luz, cujo pé alto se adequa às exposições de fotografia que irá acolher. Foi também possível salvar a claraboia original e há uma pequena janela que aponta para a torre sineira da Ermida de Nossa Senhora da Conceição, mesmo ao lado.

«Quando nos conhecemos, começámos a colecionar fotografia, que na minha opinião, tem-se tornado, de várias formas, uma nova arte contemporânea. Existe hoje um todo um mercado para os grandes fotógrafos, basta ver a oferta de leiloeiras como a Christie’s, a Sotheby’s e a Phillips», começa por explicar Anja Burks, que fez carreira na banca e tem experiência no mundo das artes. Preparou, por exemplo, de coleções no Museum Barberini, em Potsdam, na Alemanha. «Estamos a falar de um mercado muito interessante e mais acessível do que outros tipos de arte», compara.

«Foi assim que chegámos a este ponto. O Phil viu o edifício à venda e decidiu salvá-lo. Quando o comprámos, na verdade, não tínhamos um plano. Pensámos que tinha algo de especial e que merecia ser reconstruído», acrescenta Anja. Philip Bukrs, que fez uma carreira de sucesso no imobiliário, vai mais longe: «Somos apaixonados pela fotografia. Queremos aprofundar o nosso conhecimento e portanto, que melhor maneira do que abrir a nossa própria galeria?».

© Albert Watson, «Juli Foster with Birdcage», Algarve, 1977.

«Ambos parámos as nossas carreiras para viajar e temos vindo muitas vezes ao Algarve. Restaurar um edifício antigo que faz parte da história de Loulé é também uma forma de darmos algo à comunidade. Penso não existe melhor forma do que apostar na cultura», sublinha Anja. Quando se casaram, Anja e Phil criaram uma fundação de beneficência social, a Roots and Wings Charity Foundation. A nova galeria será também a base para os projetos a implementar no futuro. «Será uma forma de nos ancorarmos na comunidade e dar algo de volta», sobretudo em iniciativas vocacionadas para as crianças e jovens, explica o casal. «Acreditamos que se dermos raízes fortes às crianças, elas poderão voar no futuro», diz Philip.

Quanto ao nome pouco usual da galeria, Phil explica: «To be in the Pink significa estar satisfeito com a vida. Mas na verdade, desde que comprámos o edifício, sempre o chamámos de casa rosa, que é a cor original. Além deste duplo significado, também remete para a ideia de Algarve, que é um paraíso e um lugar de felicidade», descreve o galerista.

«Fomos ao Porto e a Lisboa, vimos excelentes galerias embora não dedicadas à fotografia. Sabemos que Portugal tem excelentes artistas fotográficos como Helena Almeida e Jorge Molder», cita Anja.

A primeira exposição será sobre moda, com três abordagens e três autores diferentes. O destaque é apresentação de 14 fotografias do célebre fotógrafo Albert Watson, cujo portefólio inclui campanhas para Chanel, Prada, Revlon, e mais de cem capas internacionais da revista Vogue.

«Vamos mostrar, por exemplo, uma foto incrível da edição de dezembro da Vogue Portugal. Temos também duas belíssimas fotografias que o Albert tirou para a Vogue no Algarve, em 1977. No final do ano passado, tivemos a oportunidade de visitar ao seu estúdio em Nova Iorque. A verdade é que ele não tinha ninguém a mostrar o seu trabalho em Portugal. Sim, ele ficou um pouco surpreendido [com a proposta], mas ficou muito feliz», revela Anja.

O segundo artista convidado é o jovem holandês Bastiaan Woudt, inédito em Portugal. «Ele teve uma ascensão meteórica no mundo da fotografia contemporânea com os seus retratos magistrais», avança Anja. «Estamos a falar de um autodidata cujo trabalho é minimalista e inspirado pelos grandes mestres da fotografia das décadas de 50, 60 e 70», descreve Phil. E estará presente na inauguração da galeria.

Por fim, o terceiro fotógrafo a mostrar o seu trabalho na galeria louletana é Kristian Schuller, nome que já se afirmou na Alemanha. O fotógrafo romeno, que vive em Berlim, é conhecido pelo trabalho intenso, com cor e movimento e cujas imagens remetem para um imaginário onírico. Kristian começou sua carreira na moda como estilista, trabalhou com a estilista Vivienne Westwood, e aprendeu a fotografar com o célebre fotógrafo FC Gundlach, em Berlim.

«Tínhamos várias combinações em mente e não foi fácil chegar a estes três», admite Phil. «Mas pensamos que estes artistas representam três linguagens visuais surpreendentes, e muito diferentes, para ilustrar o tema da fotografia de moda para a nossa inauguração.»

«A verdade é que queremos criar algo que seja importante para Loulé. Quando a galeria estiver consolidada como uma referência para a fotografia artística, queremos começar a procurar novos talentos portugueses», acrescenta o proprietário. Para já, Anja e Phil com a colaboração do fotógrafo local Vasco Célio, cujo estúdio é do outro lado da rua.

A galeria inaugura no dia 24 de junho, sob a direção de Pedro Vasconi. As exposições temporárias ficarão patentes cerca de três meses.