Há um oásis de nascentes, minas e fontes na serra algarvia

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Um percurso inédito através de oito (num total de 21) fontes de água natural, algumas das quais resgatadas do esquecimento, que dá a conhecer as nascentes do Arade, entre Boião e Azilheira, no concelho de Silves. A investigadora Patrícia de Jesus Palma, mentora do projeto, mostrou ao barlavento que afinal existe um oásis na serra do Caldeirão.

Há um território virgem que nunca tinha sido trabalhado do ponto de vista do património cultural imaterial e sobretudo da sua maior riqueza, a água. Quem o diz é a investigadora Patrícia de Jesus Palma, dinamizadora do novo percurso das fontes entre Boião e Azilheira, na freguesia de São Marcos da Serra, mesmo já no final do concelho de Silves.

«Estamos no início da Serra do Caldeirão, no sítio dos Barreiros. Apesar de estarmos a viver uma seca extrema, pois não chove à séria no Algarve desde 2016, aqui continuamos a ter pontos de água e um ecossistema de zonas húmidas. Diria mesmo que forma um corredor ecológico de enorme valor, não só para a preservação da flora e da fauna, mas também para o desfrute da beleza desta paisagem», descreve, à beira de um açude por onde a água passa tranquila e abundante.

Açude dos Barreiros.

«Temos aqui uma estrutura hidráulica de captação e encaminhamento de água para as hortas e para um antigo moinho de água. Temos o açude e a levada que apesar de já não ter o valor produtivo que tinha há anos, tem o valor do bem-estar e de fruição da natureza que proporciona. Imagine isto na primavera, com os freixos bem verdes», desafia.

Mas para o valorizar, foi preciso imaginar um projeto, com o cunho da QRER – Cooperativa para o Desenvolvimentos dos Territórios de Baixa Densidade.

Trata-se de um percurso, de 16 quilómetros, num troço do principal afluente do Arade, a Ribeira de Odelouca, entre os lugares de Azilheira e Boião.

«Identificámos 21 fontes. No percurso ficam integradas oito, mas na cartografia ficará registada a totalidade» para quem quiser descobrir. Todas estão georeferênciadas.

Patrícia Palma, que passou parte da adolescência neste território, justifica a necessidade de dar a descobrir nascentes, minas e fontes, algumas das quais que estavam esquecidas e inacessíveis.

«Faz sentido, sobretudo num contexto de escassez de recursos hídricos, de escassez das zonas húmidas. Estas fontes estavam quase todas ao abandono, inacessíveis no meio de silvas e mato, já não havia nenhum contacto com elas. Continuam, no entanto, a ser pontos de água contínuos. Fizemos a monitorização no verão, altura em que foram recuperadas e não houve uma única que secasse. São nascentes e continuam a ter um papel fundamental. Analisámos a qualidade da água de todas. A qualidade é boa, sem indícios dos nitratos ou de poluição», explica.

Mas há sobretudo um aspeto que é mais importante. «O que sentimos é que há muita gente falar de preocupações com o interior, mas muito pouco trabalho no terreno. Esta é uma iniciativa que está a trabalhar esses problemas. No concelho de Silves, temos uma situação crítica. Por ser uma freguesia com 1000 habitantes, há quem pense que não merece qualquer tipo de investimento. Não há direito de cidadania às pessoas que vivem na serra. Isto não pode acontecer», diz.

Além disso, é preciso que «as pessoas no barrocal e no litoral entendam que dependem da serra para terem água nas suas torneiras. Porque a serra é o grande repositório que permite o abastecimento de água doce ao resto» do Algarve.

A comunidade também não fica indiferente. «Quisemos que as pessoas que aqui vivem assumissem o papel de guardiãs dos seus recursos e sentissem a valorização que o exterior faz do seu modo de vida e dos seus saberes».

Junto à Azilheira, a água corre.

Plano de ação para 2020

A instalação do Percurso das Fontes Boião-Azilheira é co-financiada pelo Programa «No Planet B» da AMI – Fundação de Assistência Médica Internacional, União Europeia e Instituto Camões.

A rota inaugura na manhã de sábado, dia 29 de fevereiro, com uma ecocaminhada, mas há todo um plano de atividades para o resto do ano.

«A nossa ideia é assegurar a manutenção e a valorização deste território com uma atividade por mês. Queremos trabalhar as questões da água e também da relação entre o interior e o litoral, estas tensões que existem», explica Patrícia Palma.

Na agenda, haverá oficinas de comunicação de ciência dirigidas às escolas, mas também atividade para famílias e público, em que se privilegiará o património e a relação com a comunidade local.

Uma paisagem verdejante que ainda recupera do fogo de 2016.

O percurso faz parte de um conjunto de projetos que neste momento estão a ser dinamizados em cinco países da Europa, com ações diferentes, mas em rede «para que se consiga uma imagem daquilo que se está a ver ao nível local para uma mudança global. Ou seja, aquilo que se está a fazer aqui no Boião tem uma imagem europeia».

«A nossa ideia quando fizemos a candidatura e pensámos este projeto, era alargar os percursos de pequena rota, fazer uma derivação para Messines, ou até crescer para uma grande Rota em direção a São Marcos da Serra», revela.

No futuro, a Câmara Municipal de Silves já manifestou vontade de assegurar a manutenção da rota, com a integração do percurso das fontes no projeto do Geoparque algarviensis da UNESCO.

Monografia para São Marcos da Serra

O trabalho que tem vindo a ser desenvolvido no vale da ribeira de Odelouca, uma terra cheia de vida onde convivem hortas e árvores de regadio, envolve uma equipa com dois engenheiros do ambiente, dois investigadores de património, uma antropóloga, um biólogo e uma engenheira agrónoma. Em conjunto vão produzir conhecimento sobre um local ainda por estudar.

«Na inauguração do percurso vamos disponibilizar um folheto com o essencial. Mais tarde, haverá uma publicação digital que permitirá divulgar toda a informação levantada. Neste momento, estamos a fechar conteúdos. Propusemos à Câmara Municipal de Silves a publicação de um livro sobre a freguesia de São Marcos da Serra, partindo deste trabalho de inventário de recolha junto da população. Será como que uma monografia», avança Patrícia Palma.

A investigadora, que passou uma parte da sua juventude neste território, não consegue deixar de ter uma visão crítica, no que toca, por exemplo, à falta de sinalética para identificar algumas localidades.

«Tem a ver com o abandono a que tem estado votado. Por exemplo, um dos locais que deveria ser um ponto de romagem é a aldeia de São Martinho onde foi encontrada uma das estelas da escrita do Sudoeste, que é o ex-libris do museu de Almodôvar. Não se sabe nem onde é, nem onda a peça foi encontrada. No âmbito deste projeto, fizemos esse pedido e gostávamos de ter uma réplica da estela, porque simboliza a presença de pessoas aqui desde sempre, que tem a ver com a disponibilidade de água como elemento produtivo», considera.

«Não é possível continuar a olhar para a serra como mato. E que em caso de catástrofes, evacua-se as pessoas e deixa-se arder, como se não existissem lá recursos. Por isso, temos de trazer aqui quem tem responsabilidades para que haja planos de prevenção e atuação, por exemplo, em caso de incêndio», como o que por aqui passou em 2016.

Água, uma riqueza comunitária

«Passamos sobre a Ribeira de Odelouca, que é um dos principais afluentes do Arade. Nasce na Serra do Mú, freguesia de São Barnabé, e vai alargando até à zona da Azilheira. Todas as fontes estão em propriedade privada. Isso foi um dos desafios do percursos, a identificação dos proprietários. Alguns já pertencem aos herdeiros, filhos e netos. Outros já perderam a memória das fronteiras», conta Patrícia de Jesus Palma.

A Fonte Vale de Horta, abastecia uma zona raiana entre Algarve e Alentejo. Era utilizada por pessoas da envolvente. Tal como na Fonte do Boião, foi restaurada algures nos anos 1970 e a parte rústica transformada numa estrutura de tijolo com o aspeto de uma pequena capela. Agora, o caminho de acesso foi desobstruído, o reboco está a ser recuperado e a estrutura será caiada para manter o aspeto original.

Os sapadores florestais fizeram «um trabalho hercúleo» para reabrir os acessos, mas a intervenção é mínima.

«Todas ficam como estão. O objetivo é manter o mais possível a construção tradicional e original, em xisto e materiais locais», garante.

Já a antropóloga Sónia Tomé, está no terreno desde janeiro. Já tinha feito trabalho de campo na serra algarvia, no concelho de Loulé. Aqui encontra um realidade diferente em termos de paisagem e culturais.

A antropóloga Sónia Tomé com D.ª Fernanda, a guardiã da Fonte Vale de Horta.

Não foi difícil ganhar a confiança da comunidade e garante que há muita vontade em participar. «Isto remete para a infância de muitas pessoas. Algumas das fontes estavam obstruídas e outras fora de uso. No fundo, este projeto representa um reavivar de memórias de outros tempos», diz.

No entanto, há algo que a erosão do tempo não conseguiu apagar: «os saberes ligados à manutenção das fontes e o sentimento de partilha comunitária. Apesar de muitas fontes estarem em terrenos privados, os donos sempre fizeram questão de disponibilizar essa água. A questão da partilha é muito valorizada. As pessoas fazem questão de dizer que a sua fonte sempre foi de usufruto público. Há um espírito de vizinhança e a água é de todos. E defendem a sua água como sendo a melhor, há um certo orgulho e sentimento de pertença», conclui a antropóloga.

O Percurso das fontes Boião – Azilheira tem ainda o apoio do município de Silves, da Junta de Freguesia de São Marcos da Serra e APA – Agência portuguesa do Ambiente.

Uma vez instalado ficará disponível enquanto instrumento de educação ambiental e de sensibilização do público, que poderá ser também um novo recurso para o turismo de natureza.

A pinguela da Azilheira

Não há aventura do moderno turismo de natureza que ofereça algo assim. À entrada da Azilheira, há «uma coisa raríssima de se encontrar hoje em qualquer ribeira do Algarve. Trata-se de uma pinguela, uma ponte rústica feita com um tronco que permite a passagem de uma margem para a outra», descreve a investigadora Patrícia de Jesus Palma.

Antigamente, «em época de chuva quando a Ribeira de Odelouca subia, todas as pessoas passavam por aqui. As crianças iam para a escola, muitas vezes caíam à água de propósito para evitar irem à aula e hoje em dia ainda é uma aventura passar por uma pinguela».

O xisto, o tijolo burro, o ferro e a avenca

«A água é um recurso escasso de lenta produção. É preciso que as pessoas voltem a ter consciência dessa realidade para que no dia a dia seja mais automática a poupança», diz Patrícia Jesus Palma, enquanto se retira o cucharro de cortiça do interior da Fonte dos Barreiros, onde alguém escreveu a data 1884, em numeração romana. Esta não é, aliás, a única que remonta ao século XIX. Noutro ponto do vale, a investigadora faz um desvio para mostrar uma outra que foi resgatada do esquecimento.

Fonte dos Barreiros.

«Na Fonte da Casinha temos duas nascentes. Uma utilizada apenas para os animais, e outra numa estrutura construída para consumo humano. Nunca há contaminação entre as duas. Estava completamente inacessível, tudo coberto por silvas e mato, e portanto, foi um trabalho hercúleo da equipa de sapadores florestais desobstruir o acesso aos dois pontos de água», descreve.

Fonte da Casinha. Note-se a acumulação de ferro que forma uma camada de cor alaranjada.

Também aqui, alguém esculpiu numa laje, uma referência: 1889. É regatada ao presente por um gesto, entre o ferro laranja e o verde da avenca cresce na boca da fonte. Ao lado, as ruínas de uma antiga destilaria. Ainda lá estão os tanques, a base em xisto, as paredes de taipa e o tijolo burro, quem sabe se não teria sido feito numa antiga fábrica da qual só restam vestígios… mesmo ao lado da Fonte dos Barreiros.

Na Fonte da Azilheira, a mais ferrosa de todas, também há uma data: 9/10/1927. «Uma coisa engraçada neste projeto foi o recuperar das memórias em torno das fontes, as pessoas locais começarem a fazer contas e virem marcar datas. É um processo de reflexão sobre a vida da fonte, e querer valorizá-la, atribuindo-lhe a data conhecida, porque a nascente sempre ali esteve».

Fonte da Azilheira, a mais ferrosa de todas.

Carrapateira na serra onde os estrangeiros não vão à fonte

«Lembro-me muito bem que vínhamos aqui, de burro, buscar três enfusas. Aquela água era muito bem gerida. Punha-se na bacia e tinha quer dar para todas as pessoas da casa lavarem as mãos várias vezes. Os banhos eram com um balde em lata que tinha um pequeno duche na ponta. E portanto, tomávamos o duche com quatro ou cinco litros, não mais do que isso. Acho que é uma peça que devia voltar a entrar em todas as casas porque não é desconfortável. É a quantidade aceitável para se gastar num banho», brinca Patrícia de Jesus Palma, junto à Fonte da Carrapateira.

Fonte da Carrapateira.

«Esta era usada pelas crianças da escola primária», que ali existiu. «A professora mandou o médico de São Marcos da Serra analisar a água para saber se era adequada para consumo. Deram um resultado muito bom e daí a confiança que as pessoas sempre tiveram nesta fonte, além de ser uma nascente muito grande. Lá dentro parece quase um poço».

Ao contrário das outras naquela zona, não é ferrosa. «Vê-se que há muito que não é utilizada. Hoje, os habitantes da Carrapateira são todos estrangeiros e não vêm à fonte. Pelo menos, por enquanto».