Grés de Silves tem cada vez mais procura

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Bruno Matos, um dos herdeiros da centenária pedreira de grés de Silves, em Vale Fuzeiros, tem encomendas até ao final deste ano. O negócio familiar é uma indústria artesanal que explora um recurso único do país.

A pedra faz um som diferente a cada bater da marreta. Diz se a laje está pronta para ser arrancada da terra. Por vezes é preciso deitar-lhe um pouco de água para a descalçar sem a partir, separando as travincas acessórias, as argilas e outros sedimentos que o tempo deixou. É como se fosse um puzzle, uma formação geológica feita de veios e camadas. Forte e frágil ao mesmo tempo. A força é a linguagem do diálogo entre o homem e o grés. Não pode ser leve nem demasiada.

Quem o diz é Bruno Matos, 44 anos, que começou a extrair a pedra vermelha em criança. «Vinha para cá com os meus irmãos ajudar o nosso pai. Trazia uma saca de palha e, de joelhos, punha-me a picar a pedra» para a ajudar a extraí-la.

Mas a história não começa aqui. Começa em São Bartolomeu de Messines, onde onde o bisavô José Joaquim explorou os primeiros rebolos de arenito ruivo. No princípio, a pedra não era perfeita. Procurou-se num outro cerro nos arredores da vila, mas «também não era a ideal». Por fim, sondou-se em Vale Fuzeiros onde apareceu o filão perfeito, que é explorado até aos dias de hoje.

Nessa época, a alcunha da família era «os derrubas», por causa da força física, fruto da atividade pedreira.

«Tudo o que se vê em Silves, as edificações desde há 100 anos para cá, foram os derrubas que forneceram», aponta Bruno Matos. As alvenarias de muitas casas, as recentes obras de reabilitação da Sé e das muralhas, a grande escadaria do Castelo «que o meu pai esteve seis meses a fazer» e até as salas de audiência do Tribunal têm grés da pedreira de Vale Fuzeiros.

O grés de Silves tinha um lugar especial na indústria corticeira que precisava de um utensílio especializado para afiar as ferramentas de corte. «Descobriram que esta pedra afia muito bem.

Já existia o uso do grés na construção, mas para a cutelaria foi uma inovação. As corticeiras pediam rebolos com uma espessura de 12 centímetros», para os homens dos montados terem sempre à mão um reforço à lâmina. Também a construção de pias para as pocilgas e capoeiras, às vezes rudimentares, foi uma fonte importante de receita. Ainda hoje são pedidas, em especial para o restauro de casas de campo.

Bruno Matos usa apenas os métodos e as ferramentas de sempre. Picaretas, escopros, macetas, barras de ferro, pás, esquadros e toda a habilidade acumulada com a experiência. «Se meter aqui uma máquina, a força hidráulica estraga e parte a pedra», diz. nas máquinas, os discos apenas duravam uma manhã» porque o grés é muito abrasivo.

«Vieram cá engenheiros fazer testes e perceber porquê. Hoje produzem discos com pontas de diamante, feitos de propósito para nós, que são muito muito caros, mas podem durar anos, dependendo da quantidade de trabalho que fazem», descreve.

Na pedreira há duas zonas diferentes, uma de pedra «muito rija, muito boa» para, por exemplo, ser usada em cantarias e uma outra onde é mais suave, adequada a elementos decorativos ou funcionais.

A pedra não gosta do fogo nem do calor, mas é excelente para o elemento água. Retém bem os líquidos e é antiderrapante. E por isso, «cada vez mais o grés está na moda» afirma. Ainda há muito por extrair.

«Podemos afundar mais dois ou três metros. Mas sempre foi política da família poupar a pedra ao máximo para a próxima geração». Só se tira conforme as encomendas que não faltam, pelo menos até ao final deste ano, mesmo no atual contexto pandémico.

Bruno Matos desconhece a data da compra da pedreira pelo bisavô. Guarda um cartão da década de 1920 que anunciava «pedra de amolar vermelha e branca», embora hoje seja «muito raro» encontrar pedra branca.

«Está a ver ali em cima aquelas marcas? Foi o meu bisavô que as fez quando começaram a sair daqui os primeiros rebolos. O meu pai teve o cuidado, quando andou a rebentar com pólvora, de não as estragar. Costumo dizer que tudo isto é história. O que quer que seja feito aqui no futuro, mesmo quando se deixar de extrair pedra, ficará a memória das mãos que talharam este sítio com marretas e escopros », tal como hoje.

Apesar de não falar sobre valores ou preços de mercado, Bruno Matos considera que esta pequena empresa é rentável o suficiente para lhe dar emprego a tempo inteiro. «Podiam dar-me um trabalho bem pago num escritório, que não trocava», brinca.

Mas o maior valor é o sentimental. «Antes de falecer, o meu pai disse-nos que isto foi, durante muitos anos, a fonte do nosso alimento. E pediu-nos para continuarmos a trabalhar a pedra, como sempre fizemos»…

Bruno Matos, um dos herdeiros da centenária pedreira de grés de Silves, em Vale Fuzeiros, tem encomendas até ao final deste ano. O negócio familiar é uma indústria artesanal que explora um recurso único do país.Rota do grés, um património de todos os silvenses

Segundo Bruno Matos, manter viva e no ativo a pedreira centenária de Vale Fuzeiros é um orgulho para a família. Ainda mais porque fará parte do património do futuro Geoparque Algarvensis, aspirante a Geoparque Mundial da UNESCO.

«Gostava de ver o grés de Silves reconhecido como património municipal. Sei que estamos a falar de um negócio privado e é difícil passar esta mensagem, mas a verdade é que tudo isto também é de todos os munícipes de Silves e de Messines. Digo-o de todo o coração. Acho que no futuro vão surgir projetos bonitos, como uma rota do grés» que está já a ser pensada pela Câmara Municipal de Silves.

«Gostava que as pessoas pudessem vir até cá, conhecer o meu trabalho e a pedreira, e que vissem com outros olhos a aplicação da pedra nas construções históricas e contemporâneas».