Futebol Clube de Ferreiras tem eleições…mas não tem candidatos

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Há 19 anos como presidente do Futebol Clube de Ferreiras, António Colaço considera ser altura de abrir um novo ciclo e desafia críticos das redes sociais a «assumir a responsabilidade do trabalho».

«Falar e comentar é uma coisa, assumir a responsabilidade do trabalho é outra». É desta forma que António Colaço, presidente do Futebol Clube de Ferreiras (FCF) há 19 anos e ligado ao clube desde a sua fundação, a 1 de dezembro de 1983, explica a ausência de listas candidatas ao ato eleitoral no clube que deveria ter ocorrido em abril e, agora, está marcado para dia 19 de novembro, depois de um primeiro adiamento por falta de candidaturas que obrigou a uma prorrogação do mandato.

Da sua parte, também não foi apresentada qualquer lista, pois «já há algum cansaço. Eu nunca digo nunca, mas é necessário pensar bem. Tenho um orgulho muito grande neste percurso e em ter trabalhado com todas as pessoas que encontrei no FCF», explica o dirigente deste emblema do concelho de Albufeira.

O cargo tem, no entanto, pontos negativos. «Desde logo somos confrontados com conversas nas redes sociais, que dão a entender que isto é muito bom e nos gera grandes contrapartidas. São palavras de quem fala do que não sabe e não procura ser mais informado», atira António Colaço, que elenca outro problema das funções: «o tempo roubado à família. São eles os principais prejudicados, pois temos de estar 24 horas disponíveis para o clube, e sem compensações financeiras».

O presidente do FC Ferreiras aponta ainda outras palavras aos detratores das redes sociais: «temos centenas de atletas à nossa responsabilidade, e quem está de fora não percebe o que isso é. Agora têm aqui uma oportunidade de se chegar à frente e ninguém se apresenta. Concluo que as pessoas falam com má índole e, se conhecessem a realidade, o tempo que tem de ser dedicado a esta causa, ficavam assustadas».

Segundo o máximo responsável deste emblema da freguesia de Ferreiras, «há um princípio no clube que tem sido transversal a todos os presidentes: ninguém vem para aqui derreter nem enterrar dinheiro. Vem para trabalhar e conseguir trazer apoios e patrocínios para garantir o funcionamento de tudo».

Apesar da ausência de nomes para assumir o futuro do Futebol Clube de Ferreiras, o vazio não será um problema…por enquanto: «se até dia 19 de novembro não surgir uma lista candidata, será criada uma comissão administrativa, de tempo limitado, que não poderá ir além dos seis meses. Depois temos de ver. Mas acredito que há solução e ela aparecerá antes de tudo isto. Uma coisa é certa, aqui ninguém vai voltar as costas ao clube», garante António Colaço.

Clube «estável» de olho na profissionalização

O presidente do emblema albufeirense afirma que «quem vier, encontrará um clube a recuperar de uma crise pandémica mas numa situação financeira absolutamente estável. Não nos saiu a lotaria, mas estamos tranquilos nesse capítulo. Também existem patrocínios, alguns a ser retomados depois do auge da pandemia».

O clube tem «cerca de 1070 associados, mais de 700 com as quotas em dia», enaltece António Colaço, que destaca ainda: «o FC Ferreiras, atualmente, está espalhado por todo o país em todos os fins de semana, a praticar diversas modalidades com resultados muito promissores». Um ponto que será proposto pelo ainda presidente passa pela «profissionalização do clube. Terá de ser esse o caminho, e os principais responsáveis poderão vir a ser compensados pelo seu trabalho. Tenho ideias de propor algumas alterações aos regulamentos para criar a figura de um diretor geral, desportivo. Alguém que trabalhe a tempo inteiro e faça toda a gestão desportiva do clube».

É que, segundo o responsável, «o modelo atual, se não se esgotar hoje, esgota-se amanhã. O ciclo está a chegar ao fim e é preciso pensar no futuro».

Recuperar de uma crise pandémica… mas não só

A COVID-19 provocou enorme reboliço por todas as atividades e o desporto não foi exceção. No Futebol Clube de Ferreiras sentiu-se «um estrago significativo», lamenta António Colaço, que detalha: «financeiramente tivemos uma quebra a rondar os 27 por cento nas receitas. Depois, tínhamos mais de 600 atletas federados e ainda não conseguimos recuperar esse número. Estamos a ultrapassar agora os 550».

Quem sentiu mais os efeitos da crise sanitária foi o futebol, principalmente nos escalões de iniciados, juvenis e juniores. Mas, para o presidente do FCF, a pandemia não é a única culpada: «os miúdos vão crescendo, entram na universidade e muitas vezes param a prática desportiva. E também começa a haver uma propensão para o desporto individual, onde não é necessário um compromisso com ninguém».

Outra problemática no desporto jovem, de acordo com o dirigente, prende-se com as pressões dos pais. «É verdade que hoje os miúdos têm um apoio muito maior em casa, para praticar desporto. Mas muitas vezes também é na expetativa que esteja ali o Euromilhões da família. Quando percebem que isso não vai acontecer, começam a desligar e as crianças ficam frustradas», lamenta António Colaço, que elenca outros problemas destas atitudes: «é exigido demasiado às crianças e, quando por vezes atingem bons patamares e chegam até aos campeonatos nacionais, as coisas não correm tão bem e depois existe vergonha de dar um passo atrás para corrigir. Isso também motiva o abandono do desporto». O dirigente lembra que «podem não aparecer Cristianos Ronaldos todos os dias, mas saem daqui cidadãos. E isso é o mais importante».

Um clube que «nasceu do zero»

À beira de celebrar o 38º aniversário no próximo dia 1 de dezembro, o Futebol Clube de Ferreiras «nasceu do zero», explica António Colaço, atual presidente e sócio fundador deste emblema do concelho de Albufeira, que aprofunda: «não havia nem um sítio para guardar uma camisola. Fomos estabelecendo contactos com a Câmara Municipal e ao início não foi fácil, mas com persistência lá conseguimos que se iniciasse a aquisição de terrenos, sendo na altura Xavier Xufre o presidente da autarquia».

O primeiro campo de futebol, ainda pelado, surgiu em 1988, tendo sido relvado em 2001. Só em 2005, «já no mandato de Desidério Silva», surge o edifício com a bancada coberta: «é comparar o nada que existia com o que há agora», enaltece António Colaço.

Nestes 19 anos sob a sua presidência, o atual responsável destaca ainda «uma grande expansão para outras modalidades como a natação, a patinagem, a dança, o triatlo e ainda o futebol feminino». Tudo isto suportado com apoios que vêm também da Câmara Municipal, numa relação que tem tido altos e baixos, mas atualmente «sem motivos de queixa. Os clubes do concelho têm um ótimo apoio a nível logístico por parte da autarquia», revela António Colaço. Já a nível financeiro, «houve fases menos boas, como em 2012, quando a chegada da Troika nos tirou todos os apoios. Logo por coincidência, a nossa equipa principal de futebol subiu ao Campeonato Nacional de Seniores nessa época e tinha deslocações enormes, caríssimas. Foi uma época terrível, mas conseguimos aguentar a pancada», refere o presidente do Futebol Clube de Ferreiras, considerando ainda que, «apesar dos apoios financeiros ainda não terem voltado ao nível pré-Troika, estão num bom caminho».