Futebol Clube de Ferreiras quer todas as crianças de «Albufeira a Nadar»

  • Print Icon

Projeto que junta clube, autarquia e escolas faz as delícias dos alunos do 3º e 4º ano. Objetivo é voltar a agregar vários estabelecimentos de ensino do concelho, tal como acontecia antes da pandemia.

A chegada de um autocarro quebra a calma reinante nas imediações das Piscinas Municipais de Albufeira, na manhã de sexta-feira, dia 28 de maio. Lá dentro, crianças da Escola EB1/JI de Olhos de Água, do Agrupamento de Escolas de Ferreiras, preparam as mochilas. Alinham-se à porta, distanciadas, e uma a uma medem a temperatura e desinfetam as mãos. Daí até à beira da piscina é um pulinho.

Esta é a rotina que, desde início de maio, é vivida todas as manhãs nas Piscinas Municipais de Albufeira. É o projeto «Albufeira a Nadar», que surgiu em 2016, a voltar a mexer, depois de um interregno de três meses devido à pandemia de COVID-19.

Albufeira a Nadar

Um revés que, segundo Sónia Demétrio, vice-presidente do Futebol Clube de Ferreiras (FCF) para algumas modalidades e responsável pelos protocolos escolares, foi «muito forte. Já tínhamos passado grande parte do ano de 2020 parados e agora, para a retoma, tivemos de ultrapassar vários problemas legislativos. Com grande esforço, conseguimos voltar, até antes das piscinas reabrirem ao público».

Esta responsável do emblema albufeirense explica que, antes da pausa forçada, eram várias as escolas do concelho a participar, chegando a 21 turmas, mas nesta retoma «ainda só contamos com o Agrupamento de Escolas de Ferreiras. Esperamos em setembro ter o protocolo a funcionar de novo em pleno».

O número de participantes varia consoante o número de turmas do 3º e 4º ano, destinatárias desta iniciativa, e todos ficam debaixo de olho para, quiçá, um dia integrarem as equipas competitivas do FCF.

«É o nosso viveiro de talentos», diz Sónia Demétrio, que destaca também a importância deste arranque alastrar a mais escalões e atividades aquáticas. «Por exemplo, precisamos que os bebés voltem a nadar, que as aulas de iniciação retomem. Precisamos de ver estas piscinas vivas, para podermos ter nadadores para competir, no futuro». Mas não só.

Albufeira - Ferreiras

António Colaço, Rui Rosa, Sónia Demétrio e Victor Ferraz

É que, sob a supervisão de dois professores dos quadros do FCF, Filipe Xufre Pereira, o coordenador, e Miguel Guerreiro, as crianças aprendem ferramentas «para contrariar uma preocupante tendência de aumento das situações de afogamento infantil», lembram os monitores.

Motivá-las é «muito fácil», segundo Miguel Guerreiro. E os constrangimentos da pandemia não atrapalham a logística de preparação, aponta o coordenador Filipe Pereira, que até considera que «podemos tirar algumas situações daqui para o futuro. Com esta dinâmica que a pandemia implementou, as crianças demoram muito menos tempo para se equiparem e aproveitam mais estes blocos de tempo».

Sobre o comportamento dos petizes na piscina, ambos concordam: «o difícil é dizer-lhes que as aulas acabaram. Adoram isto!».

Futebol Clube Ferreiras
Miguel Guerreiro e Filipe Xufre Pereira

Uma das professoras do Agrupamento, Patrícia Sérgio, subscreve. «As crianças trazem muita motivação para estas aulas. Até acho que deviam ser mais frequentes, de forma a durarem todo o ano. Atualmente vêm duas vezes por semana, durante cerca de um mês. E as turmas vão rodando. No futuro podiam vir apenas uma vez por semana, mas durante todo o período letivo», sugere a docente. «O desporto é imprescindível, e há crianças que só têm esta oportunidade através da escola», lamenta Patrícia Sérgio.

A sugestão é bem acolhida por Sónia Demétrio, que no entanto alerta para «as dificuldades logísticas inerentes a aumentar a frequência. Mas vamos fazer um levantamento de opiniões noutros municípios que o fizeram, como Loulé, e perceber se traz benefícios para a aprendizagem».

Por enquanto, o objetivo passa mesmo por «voltar a colocar este projeto no ritmo que já teve antes da crise pandémica», segundo António Colaço, presidente do emblema de Ferreiras.

Este responsável máximo do clube reforça «a grande importância do Albufeira a Nadar no dia a dia» de um clube que, apesar de ter Futebol no nome, não se limita à prática desta modalidade. «Somos muito ecléticos. Inicialmente, o FCF surgiu para a prática futebolística, mas depressa começámos a crescer noutras modalidades e queremos continuar».

Para esta receita de expansão ter sucesso falta, na opinião de António Colaço, um ingrediente muito importante: «um pavilhão em Ferreiras. Já foi falado muitas vezes, já se chegaram a desenvolver contactos, mas ele nunca surgiu. Espero que seja uma realidade em breve!».

Município de Albufeira é grande parceiro

Além de disponibilizar as Piscinas Municipais, a Câmara Municipal de Albufeira ainda apoia o FCF no transporte das crianças, que agora, devido à pandemia, tem de ser feito com maiores limitações e, por isso, encarece.

José Carlos Rolo, presidente da autarquia, certifica «a grande importância deste projeto na formação dos jovens». Para o autarca, «é extremamente importante proporcionar às crianças a possibilidade de vir às piscinas, devidamente enquadradas, com a sua disciplina».

Rolo elogia o clube, «elemento aglutinador que criou esta dinâmica para promover a prática da natação», e destaca o simbolismo do projeto «Albufeira a Nadar» numa cidade «com ligação ao mar. A sensação que tenho é de que, a cada dia que passa, há mais praticantes de natação na cidade».

Albufeira a Nadar
Sónia Demétrio, José Carlos Rolo, Rui Rosa e António Colaço

Já o subdiretor do Agrupamento de Escolas de Ferreiras, Victor Ferraz, confirma «todo o apoio da autarquia» ao projeto, «que teve convite aceite desde a primeira hora». Para este professor de Educação Física, «a iniciativa traz maior segurança às famílias, permitindo evitar acidentes com desfechos frequentemente trágicos». Sobre uma possível expansão no futuro, Ferraz tem bons olhos mas diz-se «ciente das dificuldades».

Nesse assunto, José Carlos Rolo abre boas perspetivas, considerando «possível expandir mais facilmente para os alunos do ensino pré-escolar». No entanto, o líder do executivo albufeirense recorda que, no 1º ciclo, «do ponto de vista curricular, a responsabilidade dos programas é do Ministério da Educação. Há pequenas partes do currículo educativo que vão passando para responsabilidade local, e é minha intenção fomentar um Projeto Educativo Concelhio, num próximo mandato. Caso isso seja uma realidade, poderá haver espaço para incluir esta atividade. Mas temos sempre de atender aos recursos existentes. Nada é infindável».

IPDJ apoia projeto «muito importante»

Custódio Moreno, diretor regional do Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ), assistiu a uma aula de natação lecionada no âmbito do projeto «Albufeira a Nadar». Para o responsável, esta iniciativa «representa o papel social do associativismo. Complementa aquilo que nós, por vezes temos dificuldade em fazer, que é ir à célula, às famílias».

Para isso, «a autarquia tem as estruturas, o clube tem as pessoas e nós damos aquele incentivo extra que ajuda a colmatar algumas dificuldades».

Sobre a génese do projeto, o diretor regional do IPDJ considera que «o nosso ensino está muito virado para a Matemática e a Língua Portuguesa, mas cada vez mais as expressões dão competências importantes aos jovens. Eu próprio participei em várias atividades deste género que me dotaram de algumas skills inatingíveis de outra forma».

IPDJ - Custódio Moreno
Custódio Moreno

Por fim, Moreno enaltece a capacidade de adaptação do Futebol Clube de Ferreiras (FCF). «Não se desculparam com a pandemia COVID-19. Adaptaram-se às medidas de segurança em vigor e retomaram a atividade».

O IPDJ, de resto, tem em mãos uma candidatura do FCF ao Plano Nacional de Desporto, para 2021, sob o mote «Ferreiras em Movimento». Inclui o projeto «Albufeira a Nadar» e também um projeto de danças desportivas.

Desporto jovem está em retoma, mas existe abandono

A pandemia COVID-19 prejudicou sobremaneira o desporto de formação em todo o país e o Algarve não fugiu à regra. António Colaço, presidente do Futebol Clube de Ferreiras, declara que «a natação tem sido uma agradável surpresa. Não noto falta de adesão das crianças à prática».

O mesmo, no entanto, não pode ser dito do futebol. Na opinião deste dirigente, o efeito na modalidade «vai ser muito maior. Tenho notado um maior abandono nos treinos das camadas jovens, na ordem dos 30 por cento. Espero que seja reversível. No entanto, não podemos esquecer que foi praticamente um ano sem competir».

Albufeira Nadar

Para António Colaço, «com regras é possível continuar a prática desportiva». Mas o responsável lembra: «eu não faço leis e tenho de respeitar quem as faz».

Custódio Moreno, diretor regional do Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ), por seu lado, enaltece «a retoma no desporto de formação que tem sido visível no Algarve» e deixa um elogio: «apesar das inúmeras regras necessárias para esta retoma, os promotores do desporto na região mostram um empenho enorme para que este arranque decorra com total segurança».

Piscinas de Albufeira com «as portas abertas para os jovens»

«Um complexo erigido para os nossos cidadãos e para as nossas crianças». É assim que Rui Rosa, chefe da divisão de Desporto e Juventude da Câmara Municipal de Albufeira, classifica as Piscinas Municipais de Albufeira, infraestrutura que também coordena desde a abertura, em 2006.

Este responsável municipal afirma que «estes projetos escolares são sempre recebidos de bom grado, pois permitem às crianças usufruir de oportunidades que, de outra forma, não teriam».

Deixando elogios ao «grande dinamismo» do Futebol Clube de Ferreiras (FCF), Rui Rosa lembra que «o município trabalha e funciona para os munícipes. Este projeto foi muito acarinhado, estamos ao lado do FCF desde o início e vamos continuar. Abraçaremos sempre este tipo de projetos com toda a motivação».