Fórum Nacional de Psicologia nasce coordenado pela UAlg

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Projeto nacional conta com a coordenação de Saúl Neves de Jesus, vice-reitor da Universidade do Algarve (UAlg), e junta Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) a 31 instituições de ensino superior com formação na área da Psicologia.

Inaugurado há pouco mais de um ano, «a ideia de criar o Fórum Nacional de Psicologia surgiu pela Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) com o intuito de criar uma entidade que permitisse uma relação mais próxima com as instituições de ensino superior, públicas e privadas, de norte a sul do país, com formação na área, seja licenciatura, mestrado ou doutoramento », começa por explicar ao barlavento Saúl Neves de Jesus, que logo no primeiro encontro nacional com todos os representantes, ainda de forma presencial, foi eleito como coordenador da nova entidade.

O objetivo principal, afirma o vice-reitor da academia algarvia, «é o de fortalecer a ligação entre quem forma psicólogos e quem regulamenta a atividade profissional, de forma a existir um retorno entre ambas as partes. Isto, para que na academia possamos estar mais focados nas questões práticas profissionais e, por outro lado, para que a OPP possa ter em conta aquilo que é importante na formação dos psicólogos. Nós somos responsáveis pela formação inicial, mas depois colaboramos na formação contínua dos psicólogos. Há uma série de medidas, que ao longo da carreira dos psicólogos, é preciso também ter em conta», diz.

Após quatro reuniões online, o coordenador, que é também diretor do curso de Doutoramento em Psicologia da Universidade do Algarve (UAlg), conta que «temos tomado posições e feito recomendações sobre temas atuais, relacionados com a vida profissional dos psicólogos e com questões sobre a psicologia de uma forma geral. Criámos também uma revista, a Psicologia para Psicólogos», que se encontra agora na fase de produção da segunda edição.

Uma das primeiras posições tomadas por esta recente entidade nacional está relacionada com a atual conjuntura que se vive, a pandemia da COVID-19.

Saúl Neves de Jesus.

«Tem a ver com a saúde mental da população, porque se começou a verificar uma necessidade maior de apoio psicológico generalizado. Quem já sofria de patologias teve uma agudização dos sintomas. Quem não as tinha, passou a ter devido ao confinamento e à maior solidão», esclarece o responsável, que acrescenta que ao longo deste contexto pandémico, «foram feitos estudos em Portugal e em muitos países, que revelaram aumentos significativos de vários indicadores de problemas como stress, ansiedade ou depressão», o que torna esta área de intervenção pertinente.

Por outro lado, segundo Saúl Neves de Jesus, «as restrições sanitárias fizeram com que a intervenção psicológica não pudesse ser presencial. Uma das coisas que nós [psicólogos] fazemos é analisar a linguagem corporal, a comunicação não verbal e a empatia. Há vários indicadores que numa consulta presencial conseguimos visualizar, avaliar e dar retorno em função disso. Mas noto que houve até uma boa adaptação a estas circunstâncias, tanto pelos profissionais como pelos pacientes», sublinha.

Aliás, um documento recente criado pelo Fórum Nacional de Psicologia, ao qual o barlavento teve acesso, explicita que, segundo «dados recolhidos junto de 10.519 portugueses adultos no início do estado de Emergência, comprovam o significativo impacto negativo da pandemia na saúde mental. Quase metade (49,2 por cento) reportou impacto psicológico moderado ou grave, variando os níveis de depressão, ansiedade e stress entre os 12 e os 30 por cento da amostra».

Considerando tal cenário, a nova entidade liderada pela UAlg alerta que a atual situação é «complexa» e «requer uma intervenção especializada para a qual julga imprescindível e urgente o reforço do número de psicólogos no Serviço Nacional de Saúde (SNS), em especial nos cuidados de saúde primários. Esse será o caminho para prevenir o aumento, em número e em gravidade, dos problemas de saúde mental no período em que vivemos e naquele que se lhe seguirá».

Outro dos pontos já discutidos no Fórum é o financiamento para a investigação em psicologia. Uma questão que está «relacionada com os fundos disponíveis para as áreas das ciências humanas e sociais em geral, e para a psicologia em particular».

Segundo o vice-reitor da UAlg, há menos dinheiro para estudos nestas áreas do que para investigações noutros campos científicos, «talvez porque requerem laboratórios e outros materiais. As ciências humanas e sociais são pouco valorizadas do ponto de vista financeiro. Por isso, sentimos a necessidade de tomar uma posição sobre este assunto, para tentar sensibilizar os responsáveis, sobretudo ao nível da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT)».

Saúl Neves de Jesus refere mesmo que a nova entidade apresentou quadros comparativos entre as várias áreas científicas «para demonstrar que há, de facto, um défice de investimento na área da Psicologia».

Isto, apesar de existirem várias áreas de investigação comum às 31 instituições de ensino superior contempladas no Fórum Nacional de Psicologia.

Na UAlg há, contudo, uma pesquisa inédita e única em Portugal que tem a ver com o turismo.

«Cada academia tem o seu núcleo de temas a desenvolver. Estão sobretudo relacionados com os seus investigadores e com a área geográfica envolvente. Aqui temos o CinTurs – Research Center for Tourism Sustainability and Well-being, que faz a ponte entre o turismo e a psicologia», explicita.

A preocupação com os estudantes estrangeiros, não europeus, que frequentam as universidades portuguesas é outro dos temas debatidos a nível nacional.

O coordenador dá o exemplo dos brasileiros, que ocupam uma grande fatia dos alunos internacionais que escolhem a academia algarvia para completarem os seus estudos.

«Fizeram os cursos no Brasil e querem obter equivalências cá. Alunos, por exemplo, que completaram um curso de cinco anos no Brasil. Não sabem se pedem equivalência ao grau de licenciatura ou ao mestrado. Será necessário fazerem uma tese? Cada instituição, neste aspeto, funciona à sua maneira. A lei é igual para todos, mas a interpretação é diferente. Penso que é importante falar sobre esta questão para que haja um procedimento comum», no reconhecimento de graus na área da psicologia obtidos fora do espaço económico europeu.

O Fórum Nacional de Psicologia corrobora essa linha de pensamento e sugere «a elaboração, atualização e disponibilização de uma lista com todas as instituições de ensino superior que podem realizar processos de reconhecimento específico».

Além do reconhecimento de competências e aptidões, há também novas linhas sobre o exercício da profissão em Portugal.

«As nossas tomadas de decisão têm sido muito nesta linha, de identificarmos o que deverá ser corrigido», sintetiza o coordenador nacional. A próxima reunião está marcada para julho e terá, pelo menos, dois temas em cima da mesa.

«Um é a intervenção psicológica à distância e de forma remota, a chamada telepsicologia, que, conforme a situação concreta, pode levantar muitas questões. Queremos discutir que tipo de intervenções fazem sentido serem feitas à distância e quais têm mesmo de ser presenciais», diferencia.

A esta temática junta-se ainda o acesso a mestrados em Psicologia para não psicólogos.

«Até recentemente, por exemplo, um professor podia tirar um mestrado em Psicologia da Educação e um enfermeiro em Psicologia da Saúde. Agora, os mestrados são destinados a quem já tem formação anterior em Psicologia e pessoas de outras áreas deixaram de ter essa oportunidade », embora isso possa vir a mudar em breve.

Psicologia para Psicólogos

A assinalar o primeiro ano de Fórum Nacional de Psicologia, a entidade criou uma publicação, a revista Psicologia para Psicólogos, em fevereiro de 2021, a ser publicada online e distribuída nas 31 instituições de ensino superior e noutros organismos relevantes para a área. A periodicidade prevista é anual.

Saúl Neves de Jesus, vice-reitor da Universidade do Algarve (UAlg) e coordenador do conselho editorial da revista esclarece que «há muitas publicações internacionais especializadas, mas há também um desfasamento nos seus artigos que são muito académicos, muito estatísticos e muito pesados do ponto de vista conceptual».

«Quem está a exercer, tem dificuldade em compreender a mais-valia de determinados artigos de investigação. O que procurámos fazer foi criar uma revista, em que os artigos publicados são sínteses, em português, de outros já publicados e que já tiveram a validação por parte dos pares. Assim, os autores escrevem de forma mais simples, mais clara, mais acessível e mais focada nas implicações práticas. A investigação serviu para quê? Em que é que isto vai ter influência? Que implicações tem para a prática profissional? Depois, há a revisão do artigo, por parte de alguém que exerce a profissão. O único requisito é que pelo menos um dos autores seja da Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) para dar esta ligação à prática profissional», conclui.