Filipe da Palma publica «Platibandas do Algarve» em livro

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A partir da obra de Filipe da Palma, fotógrafo portimonense apaixonado pela arquitetura popular algarvia, é publicado hoje, dia 3 de dezembro, o livro «Platibandas do Algarve» que traz novos olhares a umas das marcas identitárias mais fortes da região presente do litoral à serra.

A espera até pode ter sido longa para quem queira ver reconhecido e publicado o trabalho de Filipe da Palma em livro.

A verdade é que a partir de hoje, dia 3 de dezembro, começa a ser distribuído o livro «Platibandas do Algarve», pela chancela da Argumentum, editora especializada em obras de arquitetura, património, urbanismo e fotografia aérea.

Não é apenas um livro de fotografia, mas uma abordagem multidisciplinar com textos de Miguel Reimão Costa, José Eduardo Horta Correia, Alexandre Tojal e Pedro Prista. Guilherme de Oliveira Martins assina o prefácio.

«Todos os anos, nas minhas voltas, vejo revestimentos de casas que desaparecem, pinturas cromáticas que são caiadas de branco. As madeiras vão sendo substituídas por alumínios, as platibandas desaparecem, as chaminés são derrubadas e trocadas por outras de cimento. Há um vasto património popular que se está a perder de dia para dia, e na minha opinião, não se tem feito nada para o evitar. Há uma grande necessidade de apreender e registar este património que não é património, pois não há leis que protejam estes elementos», começa por contar Filipe da Palma, ouvido pelo barlavento.

Já antes do advento da fotografia digital que registava as platibandas em filme diapositivo (slide).

Tudo começou após a leitura do livro «Algarve Revisitado» de Jacinto Palma Dias. Após os estudos no AR.CO (Centro de Arte & Comunicação Visual), em Lisboa, Palma regressou à região.

«Na altura, praticava ou tentava fazer da fotografia um meio de comunicação muito diferente do que hoje faço. A partir do momento em que leio o texto do Jacinto, começo a ver o Algarve com outros olhos, em particular a arquitetura popular algarvia que está cada vez mais depauperada e em particular as platibandas. Comecei a vê-las como elementos arquitetónicos riquíssimos, que atravessam o Algarve, do litoral para o interior, que são únicos. Não há duas platibandas iguais. São uma marca bastante forte no território e, se calhar, nunca tivemos olhos para ver e valorizar esta riqueza. Sempre que me é possível saio para fotografar as janelas, as portas, as cantarias, as chaminés, a utilização da cor. As platibandas abriram-me as portas para o mundo da arquitetura popular do Algarve. Hoje é uma corrida contra o tempo para fotografar os poucos exemplos que ainda existem», diz.

«Comecei a fotografar sem qualquer objetivo que não o meu prazer particular nesse levantamento. Era um prazer egoísta, meu. Mas houve um momento de viragem. Pensei que já tinha um grande espólio e talvez fosse bom fazer qualquer coisa de tangível com isso», admite.

Esse momento foi em junho de 2012, com a exposição «Sous les pavês, la plage. …Sous la plage un autre Algarve ou a irredutibilidade de uma certa arquitetura algarvia» apresentada na Biblioteca Central de Gambelas da Universidade do Algarve (UAlg), a convite de António Rosa Mendes, e também com a mais recente mostra «Da minha janela ainda vejo o Algarve?» que esteve patente de agosto a novembro de 2019 no Museu de Portimão.

Entretanto, surgiram promessas de publicação, mas nada aconteceu.

«Sim. Todas as tentativas foram tiros ao lado, nos pés ou pela culatra. Faltou pontaria até que surgiu esta oportunidade. Claro que estou muito contente. No início tinha outra ideia e queria partir para um livro apenas de fotografia, algo mais gráfico. Mas depois, em conversa e partilha de ideias, chegámos à conclusão que faz todo o sentido haver algo como o que está feito, um contexto explicado», acrescenta Filipe da Palma.

Na verdade, quis um dia a sorte que Filipe Jorge, editor da Argumentum, visse em casa de Teresa Patrício, em Cacela Velha, amiga comum de ambos, as impressões de colagens de platibandas algarvias, um trabalho oferecido por Filipe da Palma.

«A ponte ficou imediatamente feita», recorda o editor.

«Depois disso, a primeira vez que ele me mostrou o seu corpo de trabalho, fiquei muito impressionado pela qualidade», sublinha.

Marca identitária regional, conhecimento global

Apesar de o novo livro «Platibandas do Algarve» ter um forte cariz regional, Filipe Jorge acha que o interesse extravasa o ponto de vista geográfico.

«Esta obra acrescenta muito ao entendimento do que é a arquitetura na sua expressão mais natural, mais evidente e de importância regional. Platibandas há em todo o país. Mas no Algarve adquirem uma formalização particularmente desenvolvida em termos estéticos, gráficos e coloridos. Para isso muito contribui o facto de nas construções e edificações, quer seja em espaço urbano ou rurais, a existência de uma açoteia, de um elemento construtivo terraço que, como sabemos tem funções utilitárias para a secagem dos frutos».

Por outro lado, «de forma mais simbólica, num pensamento mais individualista, é um elemento diferenciador, torna a casa mais eloquente que a do vizinho. Aí, a platibanda não é só a proteção de uma açoteia, mas pode ser o esconder de um telhado, a proteção de um algeroz ou tubo de queda de água», explica o editor que assina a coordenação editorial.

«A platibanda excede-se na sua função construtiva para entrar no domínio do decorativo», remata.

A amostragem é de 167 imagens de 16 concelhos do Algarve, embora a maior densidade seja no Sotavento algarvio.

«Terá a ver com o desenvolvimento urbano, rural, arquitetónico que potencia os acabamentos mais rebuscados. O facto de existirem elementos mais complexos tem sempre a ver com o investimento dos donos das casas. O mesmo acontecia com as chaminés, da sua vontade e capacidade financeira», refere.

Reimão Costa: «fotografias são uma realização artística»

Miguel Reimão Costa, arquiteto, investigador e docente da UAlg fez a coordenação científica dos textos do livro «Platibandas do Algarve».

«Um aspeto fundamental, e discutimos isso ao longo da realização da preparação do livro, tem a ver com uma realização artística do trabalho do Filipe da Palma. Os aspetos relacionados com as volumetrias dão lugar à componente da cor, dos materiais, das composições. Isso é particularmente feliz no tema das platibandas», considera.

«Aquilo que fizemos foi uma releitura das platibandas que podem ser olhadas de formas muito diferentes da descrição de um arquiteto, de um artista plástico, de um antropólogo, que revela fatores e aspetos muitos diferentes. Foi essa diversidade que procurámos com estes autores. Esta é uma questão que não está fechada», sublinha.

Na verdade, «há muitos estudos feitos sobre a arquitetura popular e tradicional do Algarve. Uma parte significativa não está publicada e é uma pena. Há muito trabalho recente e há novos estudos em preparação».

«Sempre vivemos em paisagens e em territórios que estão em permanente transformação. O que mudou é que valorizamos o património de forma cada vez mais generalizada. Já não valorizamos apenas o património monumental, como as igrejas, por exemplo. Qual é a importância destes trabalhos? Por um lado fazem o registo do que desaparece. Isso, por si só já é importante. Depois, só podemos preservar tudo isto se as pessoas tiverem interesse e se conhecerem este património. A arquitetura da habitação não é como a igreja, em que há um conjunto de mecanismos que visam a sua preservação, e há um conjunto de regras de classificação. A grande vantagem deste trabalho é que o Filipe da Palma tem enorme facilidade de comunicar e de chegar às pessoas. Essa é a grande esperança», opina Miguel Reimão Costa.

Por outro lado, «o texto procura de certa maneira explicar. Há muitas ideias erradas, mitos e histórias que não se confirmam em relação a este património. Acho que este pode ser um ponto de situação», conclui.

Autores escolhidos a dedo

Em relação aos autores dos textos, Filipe Jorge explica que «ambos conhecíamos o coordenador científico Miguel Reimão Costa, até porque já havia o objetivo de fazer projetos cujo foco fosse a arquitetura regional e a especificidade do Algarve. Em relação ao professor Horta Correia é uma pessoa que conhece todos os aspetos do património edificado do Algarve. Alexandre Tojal foi diretor do Arquivo Distrital de Faro, e fez um enquadramento histórico das platibandas.

Por fim, juntou-se o antropólogo Pedro Prista que deu uma perspetiva etnográfica». A pandemia, contudo, vai limitar o calendário de apresentações do livro. «Na conjuntura atual, penso que poderemos combinar com as autarquias pequenas sessões, até com transmissão online».

O livro teve o apoio dos municípios de Albufeira, Castro Marim, Loulé, Olhão, Portimão, Tavira e Vila do Bispo e ainda da Direção Regional de Cultura do Algarve.

«Tenho pena que o mundo das empresas não tenha aderido, mas penso que é fruto do desconhecimento que essas entidades têm desta identidade patrimonial e cultural do Algarve. Um dia, uma vez descoberta, mudarão de ideias», remata Filipe Jorge.

Algarve, de novo Revisitado

Forte influência no trabalho do fotógrafo portimonense Filipe da Palma, Jacinto Palma Dias considerava que «as platibandas e chaminés são um reflexo visível da pujança económica que o Algarve teve no princípio do século XX, em grande parte devido ao sector agrícola. Nos finais do século XIX, o parlamento português sediado em Lisboa não queria ouvir falar em caminho de ferro para o Algarve. Nada. Foi o Fontes Pereira de Melo que decidiu construí-lo. E a partir do momento em que chega a Vila Real de Santo António em 1906, abre-se a possibilidade de pela primeira vez, o Algarve fornecer Lisboa com os seus primores, que têm uma antecedência entre 20 dias a um mês de um relativamente a outros produtores. A partir desse momento, houve uma revolução hortofrutícola no Algarve. Houve um surto económico, favorecido pela ferrovia, que conduziu a que pela primeira vez houvesse uma série de gente que teve a sua própria casa».

Segundo aquele autor, «os clusters da cortiça, das conservas, e sobretudo da agricultura davam grandes níveis de receção de capital e muito distribuído. É por isso que ainda hoje vemos casas resplandecentes em sítios incríveis de pessoas aparentemente modestas, mas que dedicaram uma parte do seu orçamento para a platibanda e aos seus caprichos decorativos. O culto da fantasia foi de tal maneira correspondente ao supérfluo de dinheiro que as pessoas, pela primeira vez, tiveram acesso. O Algarve era um jardim. Hoje não temos essa ideia, porque está tudo destrambelhado. Mas quando essa gente começou a tirar partido do comboio a vapor, todo o seu interior exteriorizou-se, sem vergonha nenhuma!».

Jacinto Palma Dias.

Mais tarde, na década de 1950, o Sindicato dos Arquitetos, órgão do Estado Novo de Salazar, «fez um inquérito à arquitetura popular portuguesa de norte a sul do país. Houve 18 arquitetos a trabalhar na publicação, que ficou pronta em 1961. Na altura, os jovens arquitetos que fizeram o inquérito estavam completamente embutidos no espírito funcionalista que estava na moda (influenciados por Le Corbusier e Mies van der Rohe). E portanto, não compreenderam bem este tipo de casas extrovertidas, cheias de decorações, com a sala das visitas virada para a frente e onde se vivia na cozinha lá atrás. Não perceberam, e assim houve uma censura ideológica em que a casa algarvia não é incluída no roteiro. O lapso deu aso a que depois do 25 de Abril de 1974 se legitimasse uma destruição total» do Algarve.