Fernando Martins, uma vida dedicada ao vinho do Algarve

  • Print Icon

Fernando Martins, adegueiro, 70 anos, tem a responsabilidade de toda a produção de vinho no Monte de Salicos, em Lagoa. Segue a tradição e métodos artesanais que aprendeu há mais de 40 anos.

Entre a Praia do Carvoeiro e Lagoa, desde o século XVIII, o Monte de Salicos (MDS) possui uma vasta extensão de exploração agrícola. Há pelo menos cinco gerações que chegou às mãos da família Cabrita e, em 1999, foram plantadas as primeiras vinhas pelo médico lagoense, hoje coproprietário António Cabrita.

No início, as uvas começaram por ser entregues à Única – Adega Cooperativa do Algarve, próxima da propriedade, onde o médico acabou por conhecer Fernando Martins, à data responsável pela adega e pelos trabalhadores e que já somava mais de 30 anos de experiência vitivinícola.

«A quinta estava a passar uma má fase. O dono dava a uva à cooperativa numa altura em que ficou sem o encarregado. Estava prestes a reformar-me, mas o doutor tanto clamou que acabei por vir para cá com a minha mulher. Na altura, como só vendiam as uvas, vim para tomar conta da vinha. Mas como sabiam que sou adegueiro e que trato do vinho, quiseram começar a produzir e criaram aqui uma adega própria. Como tinha muitos conhecimentos, sugeri registar a marca, entre outras coisas. E foi assim. Construiu-se a adega, mais um armazém, foram colocadas as cubas de inox e começámos a produzir o vinho em 2011», conta ao barlavento Fernando Martins, adegueiro, 70 anos, sob o olhar atento da esposa, Rosa Martins, 66 anos, responsável pelo alojamento local do MDS e ainda por pequenas tarefas relacionadas com a produção de vinho.

Com o tempo, a capacidade da adega foi aumentando, sendo que hoje ronda as 20 mil garrafas anuais de tinto, branco e rosé. É graças à proximidade do mar, que se encontra a cerca de três quilómetros, que esta vinha, instalada em solos argilo-calcários, proporciona as condições ideais tanto para o desenvolvimento das castas mediterrâneas, como a Cabernet Sauvignon ou a Syrah, mas também para as castas portuguesas, como a Touriga Nacional. «É um solo que nunca teve aditivos, natural da zona e tipicamente algarvio», assegura ao barlavento o também médico Pedro Cabrita, que partilha os destinos da marca em conjunto com o pai.

«Esta é uma produção quase biológica e praticamente toda artesanal. Usamos poucos produtos fitossanitários e por isso é muito diferente da produção industrializada que se vê um pouco por todo o lado. O que fazemos é típico do Algarve», proveniente de mais de oito hectares de videiras.

«Ganhámos a medalha de ouro de vinhos do Algarve e outras em concursos regionais e nacionais. Para a capacidade que temos, com poucos rótulos e apenas 10 anos de existência, estamos muito orgulhosos do que já conseguimos e esperamos ir ainda mais longe», adianta o coproprietário.

Um trabalho que começou aos 13 anos

Ainda antes de começar a namorar com Rosa, aos 17 anos, Fernando Martins já ajudava na distribuição do vinho da antiga Adega Cooperativa de Lagos, construída, segundo o próprio, em 1952. «Tinha 13 anos quando comecei a ajudar a distribuir o vinho. Depois fui para a tropa, estive no Ultramar e quando regressei, após o 25 de Abril, casei e voltei a trabalhar na adega. Então, o enólogo que lá estava e que era responsável pelas Adegas Cooperativas do Algarve, estava prestes a reformar-se. Acabei por ficar responsável pela Adega de Lagos durante 34 anos. Não havia enólogo, mas nos anos 1980 cheguei a produzir três milhões e 200 mil litros de vinho. Contando com o stock armazenado, chegámos quase aos seis milhões e tivemos de armazenar em Portimão e até em Santarém. Depois vim para Lagoa, durante 10 anos, gerir a adega e o pessoal, antes de nos mudarmos para o MDS», recorda.

Estava em Lagos quando, em 1993, venceu um primeiro prémio com um Vinho de Qualidade Produzido em Região Determinada (VQPRD), colheita de 1986. «Foi no ano em que também fiz moscatel doce e este foi o primeiro prémio de sempre para o Algarve». E estudou? «Tirei o curso de adegueiro», responde, «nome que a antiga Junta Nacional do Vinho dava às pessoas que trabalhavam todos os dias na adega. Fiz vários estágios e provas. Desconheço a atual denominação, sei que há os enólogos e engenheiros que vão às adegas, mas ainda é necessário um adegueiro. Estes técnicos tiram cursos superiores, mas a experiência vem do adegueiro que conhece todas as movimentações do vinho», compara. E será que hoje ainda restam adegueiros no ativo, no Algarve? «Se calhar sou o único», diz. Rosa discorda: «já não há nenhum».

Em boa verdade, Fernando Martins diz que já perdeu a conta ao tempo que dedicou e ainda dedica ao vinho. «Foi uma vida de muito trabalho neste sector. Hoje em dia os enólogos já não têm nada a ver com os da minha altura e está tudo moderno», mas nos Salicos, as boas práticas antigas ainda estão bem vivas. Um exemplo é o pequeno laboratório onde ainda hoje faz as análises, com instrumentos que «são uma relíquia, têm dezenas de anos e já não se encontram em lado nenhum. Claro que as análises aos vinhos são feitas num laboratório credenciado fora da propriedade, mas os pequenos acertos necessários, sou eu que os faço e enquanto cá estiver vai ser assim», garante.

Já Rosa Martins, na adega, está responsável pela rotulagem e capsulagem de cada garrafa, tudo feito à mão e com resultados milimétricos. «Trabalhamos de dia até de noite e não fica tudo feito. Só não fazemos a poda, de resto fazemos aqui tudo, de agosto a agosto», afirma. Mais que bons profissionais, para os donos da propriedade, o casal Fernando e Rosa «são espetaculares e temos uma grande amizade com eles», afirma Pedro Cabrita.

Das alfarrobas ao Alojamento Local

Além do vinho, «comercializamos alfarrobas e temos colaborado com a Câmara Municipal em diversas atividades como o Lagoa Wine Experiences.

Fazemos eventos, provas e acabamos por ter a propriedade sempre aberta», acrescenta o coproprietário. E há também Alojamento Local, numa casa à beira das vinhas, com dois quartos, piscina privada e churrasqueira, disponível para alugar todo o ano.
«Este verão já esgotámos as reservas. Nota-se que há um grande aumento de procura. No início, quem nos procurava eram sobretudo pessoas que estavam a passar férias na zona. Neste momento, noto uma mistura e há muito interesse nas atividades que desenvolvemos relacionadas com o vinho. Denoto uma diferença no tipo de turista e há cada vez mais estrangeiros, sobretudo ingleses, holandeses, irlandeses e alemães», detalha.

Pedro e Inês Cabrita.

Em relação a planos para o futuro, apesar de o MDS, desde 2017, ser parte integrante dos percursos do património da UNESCO no concelho de Lagoa, a internacionalização dos rótulos não é uma meta.

Os vinhos estão disponíveis nas grandes superfícies e em vários restaurantes, embora apenas a nível regional, «porque não temos capacidade de resposta para o resto o país».

No entanto, «a adega é para aumentar, assim como a capacidade de produção. Temos ideia de deixar de vender parte da uva e utilizá-la a 100 por cento nos nossos vinhos. Não temos é ambições de nos tornarmos uma grande empresa. O objetivo é sempre manter a genuinidade que esta quinta algarvia tem e teve desde sempre», aponta.

«Está na nossa família há, pelo menos, cinco gerações. Hoje estou eu, o meu pai, a minha mulher e a minha filha. Estamos todos envolvidos neste projeto que espero que seja para continuar nas próximas gerações. Não é algo que dependa de mim, mas espero que sim», conclui.

Lagoa Wine Show no coração de Lagoa

O Lagoa Wine Show volta ao coração de Lagoa, de 9 a 12 de junho, para celebrar o património vitivinícola do concelho e da região do Algarve. O evento conta com um cartaz musical que traz à Rua Coronel Figueiredo Sara Correia (dia 9), Luís Trigacheiro (dia 10), Sangre Ibérico (dia 11) e Ana Moura (dia 12).

Esta edição surge no âmbito da candidatura que une os municípios de Lagoa, Albufeira, Lagos e Silves, a Cidade Europeia do Vinho 2023, sob a designação «Algarve Golden Terroir».

Um ponto alto é o Concurso de Vinhos do Algarve (dia 10), no Convento de São José, onde serão avaliados mais de 140 vinhos por 25 jurados de experiência reconhecida, numa organização da Comissão Vitivinícola do Algarve (CVA) com o apoio do município de Lagoa. O certame abre todos os dias às 19h00.