Faro2027 desafia 28 autores a escrever e fotografar «A Europa em Casa»

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Projeto junta diferentes cidades europeias, apresentando uma reflexão artística, através de palavras e imagens, deste momento sem precedentes e que está a ser vivido «em casa». «EuropeAtHome» surge pela mão da Faro2027, equipa responsável pela candidatura de Faro a Capital Europeia da Cultura.

O projeto «Europe at Home» reúne 14 cidades Europeias e um total de 28 trabalhos fotográficos e literários que «retratam o momento de isolamento social vivido por todos nós» em consequência da pandemia da COVID-19, apresentando, no caso de Faro, obras de Vasco Célio (fotografia) e Sandro William Junqueira (texto literário).

Perante o cenário de uma Europa «parada», onde maior parte da população teve que seguir regras de isolamento social, a equipa da Faro2027 lançou o desafio a diversas cidades europeias para retratar, através da lente de um fotógrafo e das palavras de um escritor, a vivência deste momento sem precedentes na nossa história.

Conforme comentou Bruno Inácio, coordenador da Candidatura de Faro a Capital Europeia da Cultura «a resposta foi célere e positiva e rapidamente diversas cidades Europeias se juntaram para evidenciar as similitudes e diferenças de uma europa que enfrenta um inimigo comum e invisível ao mesmo tempo que aprende a viver uma nova realidade».

Cada cidade que participa no «Europe at Home» convidou um fotógrafo e um escritor a produzir imagens e textos que retratassem a vivência do isolamento social latente no quotidiano das suas comunidades e são estes trabalhos artísticos que a partir de já podem ser apreciadas na plataforma digital do projeto.

«Considero o projeto Europe at Home muito interessante, retrata como todos os países estão em pé de igualdade em termos de experiência e partilha deste momento de isolamento social. Relembrando o texto que escrevi para o projeto: A realidade continua de mão fechada a dar socos diários e consecutivos à ficção. Uma coisa apenas. Não duas. Tornando-nos mais pobres», explica o escritor Sandro William Junqueira.

Sandro William Junqueira.

«Paul Celan tinha alertado para a impossibilidade de escrever após a consumação da tragédia. Indiferente a isto, o meu cão tem-me levado em passeios pelas ruas vazias da cidade. E eu tenho-lhe obedecido. E vou continuar a obedecer-lhe, agradecido. Pelo confronto diário com o medo e o avanço na liberdade. Enquanto o meu cão me levar em passeio pelas ruas vazias da cidade serei um homem que faz barulho ao andar», termina Sandro William Junqueira, cujo trabalho para este projeto pode ser visto aqui.

Sandro William Junqueira (1974) nasceu em Umtali, na antiga Rodésia, mas sempre viveu em Portugal. É escritor, diretor e professor de expressão dramática. É também autor de romances e de vários contos, além de ter escrito três livros para crianças. É coordenador dos projetos «PANOS – Palcos Novos Palavras Novas» e «KCena», ambos sobre teatro com jovens, no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa.

Já o conhecido fotógrafo algarvio Vasco Célio, considera que «na conjectura do que estamos a viver, sob esta pandemia, perspectiva-se diante de nós uma grande interrogação. Sinto como se estivéssemos dentro de um grande tornado e que não sabemos onde, nem como vamos estar e sentir quando este parar! Quais serão as consequências sociais desta fase de confinamento e como as vamos digerir a nível pessoal. Qual o novo papel das nossas casas e do seu interior na nossa nova realidade?», questiona.

Vasco Célio.

«O trabalho fotográfico que desenvolvi para o Europe At Home teve como foco esta visão do interior e da vivências nas nossas casas e com a nossa família em oposição ao espaço exterior que está vazio e que nos leva a interrogar sobre o que se passa entre paredes. Considero que a arte é e será fundamental para nos ajudar a encarar futuras realidades que no momento não são mais do que uma grande interrogação», diz. O trabalho de Vasco Célio pode ser visto aqui.

Vasco Célio nasceu em Angola em 1975. Chegou a Portugal ainda jovem e desde então vive no Algarve. A partir do sul de Portugal, tem procurado realizar um olhar documental sobre seu país, a Europa e África. Essa contemplação permanente e profunda reflexão resultou em várias publicações fotográficas e exposições individuais e coletivas, encomendadas por diferentes instituições, curadores e outros artistas.

Cidades participantes

O grupo inicial de cidades que o constitui colocam a cultura como um de seus principais eixos de desenvolvimento e estiveram, estão ou desejam estar relacionadas ao projeto e Capital Europeia da Cultura: Bodø (Noruega); Chemnitz (Alemanha); Esch (Luxemburgo); Faro (Portugal); Kaunas (Lituânia); Leeuwarden (Holanda); Novi Sad (Sérvia); Oulu (Finlândia); Piran (Eslovénia); Plovdiv (Bulgaria); San Sebastian (Espanha /País Basco); Tartu (Estónia); Valletta (Malta)e Veszprèm (Hungria).

O projeto conta ainda com mais quatro cidades em fase de finalização de trabalhos artísticos para serem colocados online e o promotor do projeto reforçou a sua intenção de crescimento do mesmo, evidenciando a existência de outras cidades interessadas em participar.

Gabija Vainiutė, fotógrafa convidada da cidade de Kaunas, nomeada para Capital Europeia da Cultura 2021, e cujo trabalho «Quarantine Windows» foi uma das inspirações para a concretização deste projeto.

© Gabija Vainiute.

Gabija explica que ficou comovida ao ser contactada pela equipa de Faro2027 e afirmou a «importância do Europe at Home num momento em que estamos fisicamente distantes mas em que nos sentimos mais iguais e próximos que nunca».

Segundo Bruno Inácio, promotor e porta-voz deste projeto, o «Europe at Home» pretende ser um movimento aberto que visa envolver mais cidades e mais artistas mas também cidadãos europeus no geral. Para cumprir este objetivo, é levado a cabo um convite a todos europeus a partilhar as suas experiências durante esse período de emergência nas suas redes sociais (perfis públicos) utilizando #EuropeAtHome.

O conceito

«Vivemos um momento sem precedentes na nossa história recente. Na Europa, cidadãos de todas as gerações deparam-se com uma desafio coletivo nunca antes vivenciado, resistindo a um inimigo público, sem rosto, que os obriga a refletir sobre a incerteza do futuro, nas mais diversas dimensões da sociedade e a questionarem-se sobre a imposição de uma nova realidade», explica a FARO2027.

«As convenções sociais e pessoais são postas à prova, e cada um de nós tenta alimentar as suas esperanças através do que vê, ouve e lê na esfera digital. Artistas em todo o mundo ajudam-nos, através da sua arte, a ganhar uma nova perspectiva sobre a nossa realidade – interior e exterior – que ultrapasse a barreira do medo».

A vida tal como é hoje no Luxemburgo. Um parque fechado em Esch, a segunda maior cidade do país, pela objetiva de Sophie Feyder.

«A verdade é que hoje, contudo, mais do que nunca, é o comportamento e atitude de cada um de nós que alimenta o abrandamento curva, que dizem ser a da salvação, e o conceito de cidadania dilui-se no de quietude e confinamento. A proximidade física está estritamente limitada e os espaços públicos são evitados. Perante estas limitações, as nossas casas e janelas adquirem uma nova dimensão e passamos a olhar para as ruas da nossa cidade, para o nosso bairro e para os nossos vizinhos sob uma nova perspectiva. E os vizinhos são aqueles que moram na porta ao lado mas também os restantes países que partilham desta experiência».

«A Europa, particularmente a União Europeia enfrenta um grande desafio e vê os seus conceitos de comunidade, prosperidade e paz serem desafiados. É neste contexto de incerteza que nos voltamos uns para os outros e nos questionamos: conseguiremos ultrapassar este momento de forma criativa e positiva? Europe At Home é um projeto que tem como principal objetivo refletir sobre estas questões, unindo diferentes cidades e artistas europeus e oferecendo uma perspectiva artística, através de imagens e palavras, acerca deste momento específico da nossa história que é vivido em casa», conclui a organização.

Novi Sad, na Sérvia. Lászlo Végel escolheu escrever na língua materna e em húngaro, enquanto a escolha de Marija Kovač foi fotografar em filme.

Outras informações sobre Faro2027

A cidade de Faro convidou um grupo de cidades, que colocam a cultura como um dos seus principais eixos de desenvolvimento, a refletir este momento da nossa História comum. Embora muitas das cidades iniciais estejam relacionadas com o projeto Capital Europeia da Cultura, «Europe at Home» pretende ser um movimento aberto que integra qualquer cidade e artista europeu, desde que este se identifique com o conceito do projeto. A ferida aberta pela pandemia COVID-19 pode começar a ser curada se a Europa – e o Mundo – estiverem dispostos a partilhar e aprender com ela.

Faro está a preparar uma candidatura ao título de Capital Europeia da Cultura 2027. Com a sua casa entre o Oceano Atlântico e as colinas do interior de Portugal, a cidade foi moldada pelo seu multiculturalismo. Os primeiros visitantes de Faro datam de 400 a.C., uma tradição que se perpetua com a comunidade Erasmus culturalmente ativa de hoje. O sol, a comida, a arquitetura, as paisagens únicas, a vibrante universidade e habitantes amigáveis, os farenses marcam aqueles que escolhem a cidade para viver. Sendo a capital do Algarve, Faro manteve o seu turismo e tradições inerentes, enquanto desenvolve um movimento cultural próprio, jovem e com os olhos no futuro.

Trabalho de Vasco Célio.

Conforme afirma Bruno inácio, coordenador da equipa Faro2027, «Estamos a encontrar o nosso caminho rumo a uma candidatura a Capital Europeia da cultura e nesse sentido estamos comprometidos com a tarefa de conhecer mais sobre nós mesmos e a nossa região, celebrando a nossa diversidade e partilhando a nossa riqueza cultural com o resto da Europa».

Notas sobre os artistas e as suas perspetivas

O projeto apresenta o trabalho de 28 artistas, de várias gerações e num bom equilíbrio de géneros. Os profissionais de alguma forma dedicados à escrita como jornalistas, ensaístas, professores, tradutores, editores, músicos, entre outros. Esta diversidade traduz-se igualmente na riqueza literária quer no estilo quer no conteúdo. Há prosas e poemas, textos mais realistas, outros mais ficcionados. Textos que apelam a ação ou que em oposição apresentam uma visão mais pessoal do autor. Estão presentes as interrogações sobre o futuro e sobre as novas formas de cultura on-line mas também mensagens de esperança. Em comum, todos partilham olhares sobre as cidades e a dicotomia casa/espaço público.

Georgi Matov retrata a atualidade de Plovdiv, na Bulgaria, através de detalhes de edifícios e suas áreas circundantes.

No que concerne à formação profissional dos fotógrafos selecionados pelas cidades a diversidade também existe e encontramos repórteres fotográficos, curadores, professores, agentes culturais e freelancers.

Já no que toca aos trabalhos de fotografia também são apresentados trabalhos de artistas das mais diversas áreas profissionais: curadores, fotojornalistas, professores, agentes culturais, músicos e freelancers.

Em alguns dos trabalhos impera a cor e noutros a crueza do contraste a preto e branco. Trabalhos fotográficos que retratam o ambiente vivido presentemente no espaço público, respeitando as regras de distanciamento social e outros, por oposição, dedicam-se exclusivamente ao espaço privado e à vivência em isolamento.

Existem ainda trabalhos fotográficos mais conceptuais que remetem para uma reflexão mais profunda.

Em Leeuwarden, no norte da Holanda, Jacob van Essen capta estórias específicas e com um sentido único.

Artistas e entidades

Bodø (Noruega)

Entidade Cultural a representar a cidade: bodo2024.no

Bodø no norte da Noruega, é a primeira capital europeia da cultura acima do círculo polar ártico. Em 2024, com o título de Capital europeia da Cultura Bodø e a região de Nordland reconectar-se-ão à Europa e ao mundo. Liv Okkenhaug é o escritor convidado pela cidade que nos remete para as novas realidade dos dia a dia. Dan Mariner é o fotógrafo escolhido para esta cidade e cujas imagens encerram pequenas mensagens de esperança.

Dan Mariner é o fotógrafo escolhido por Bodø, na Noruega, e cujas imagens encerram pequenas mensagens de esperança.

Chemnitz (Alemanha)

Entidade Cultural a representar a cidade: chemnitz2025.de

Uma cidade industrial vibrante antes de ser completamente destruída na Segunda Guerra Mundial, Chemnitz foi reconstruída como uma cidade modelo socialista e é agora uma cidade em franco desenvolvimento. Chemnitz é uma cidade candidata à Capital Europeia da Cultura da Europa 2025. Johanna Eisner escreve e Philipp Gladsome encontra e fotógrafa arte na solidão.

Johanna Eisner escreve e encontra o fotógrafo Philipp Gladsome na solidão, em Chemnitz, na Alemanha.

Esch (Luxemburgo)

Entidade Cultural a representar a cidade: esch2022.eu

Esch é a segunda maior cidade do Luxemburgo e combina história, modernidade, tradição e contemporaneidade. Catherine Elsen é a escritora convidade e que dá voz aos que ficaram em silêncio. Sophie Feyder retrata vivências durante o confinamento.

Faro (Portugal)

Entidade Cultural a representar a cidade: faro2027.pt

Sandro William Junqueira é o escritor e Vasco Célio o fotógrafo convidado pela cidade promotora do projeto apresenta imagens do quotidiano de diferentes famílias.

Kaunas (Lituania)

Entidade Cultural a representar a cidade: kaunas2022.eu

Kaunas tornou-se uma cidade Europeia moderna, vibrante. O modo de vida e a estrutura, incluindo uma vasta rede de organizações culturais e comunidades fortes, representam os valores de Kaunas – Capital Europeia da Cultura 2022. Jorė Gritėnaitė foi o escritor selecionado para retratar este momento vivido em Kaunas. Gabija Vainiutė captura através da sua máquina fotográfica os sentimentos das pessoas através das suas janelas.

Leeuwarden (Holanda)

Entidade Cultural a representar a cidade: lf2028.eu

Leeuwarden é a capital da região da Frísia, situada no norte da Holanda. Em 2018, Leeuwarden-Friesland foi Capital Europeia da Cultura. E desde lá olha para 2028 como um (novo) ponto no horizonte. Até lá trabalham para se tornar uma melhor versão deles próprios. Jamila Faber ecoou os sentimentos da cidade com um poema. Jacob van Essen capta estórias específicas e com um sentido único.

Novi Sad (Sérvia)

Entidade Cultural a representar a cidade: novisad2021.rs

Novi Sad nas margens do rio Danúbio conta com uma rica herança intercultural. Em 2019, Novi Sad foi a Capital Europeia da Juventude e uma das primeiras cidades fora da União Europeia que recebeu o título de Capital Europeia da Cultura. Lászlo Végel escolheu escrever na língua materna e em húngaro, enquanto a escolha de Marija Kovač foi fotografar em filme.

Oulu (Finlândia)

Entidade Cultural a representar a cidade: oulu2026.eu

Oulu é a maior cidade do norte da Finlândia, com mais de 200 000 habitantes. O porto de Oulu é um local importante para o comércio internacional há séculos. Primeiro, foram exportados salmão, produtos de couro e alcatrão, hoje existem uma forte componente industrial na cidade, bem como empresas de alta tecnologia. Katariina Vuori escreveu e Harri Tarvainen disparou a sua objetiva nas paisagens geladas.

© Harri Tarvainen.

Piran (Eslovénia)

Entidade Cultural a representar a cidade: piran2025.eu

A região da Ístria oferece um exemplo de como diferentes culturas sobreviveram, coexistiram e lucraram juntas. Com a candidatura da ECoC para 2025, a interconexão da área e das suas comunidades trouxe à tona novos desafios. Uma onda de mudança envolveu as cidades a partir de Piran, a cidade candidata. Para representar isso, Piran escolheu Maja Bjelica para escrever sobre o estado atual da região. Brad Downey foi o performer da sua própria série de fotos.

Plovdiv (Bulgaria)

Entidade Cultural a representar a cidade: plovdiv2019.eu

Plovdiv, foi a primeira cidade búlgara escolhida para receber o título de Capital Europeia da Cultura em 2019. Com seu patrimônio cultural e histórico que remonta a 8000 anos, Plovdiv é considerada a mais antiga cidade continuamente habitada da Europa e um das mais antigas do mundo. Convidado por esta cidade, é o escritor Theodor Karakolev. Georgi Matov retrata a atualidade através de detalhes de edifícios e suas áreas circundantes.

San Sebastian (País Basco/Spain)

Entidade Cultural a representar a cidade: donostiakultura.eu

Donostia/San Sebastian é uma cidade aberta ao mundo ao mesmo tempo que conserva a sua identidade. Vê-se como uma cidade em permanente reinvenção e transformação. Juan Kruz pensou nos animais. Por sua vez, Marcelo Koning encontrou poesia nos espaços vazios da cidade.

© Marcelo Koning.

Tartu (Estónia)

Entidade Cultural a representar a cidade: tartu2024.ee

Tartu, cidade património Literário da Unesco e Capital Europeia da Cultura em 2024, é igualmente a cidade mais antiga do Báltico e que combina magnificamente o seu forte património e produção cultural com o estatuto de cidade tecnologicamente inteligente. Carolina Pihelgas é a escritora convidada e Kiur Kaasik captura a memória do momento que vivemos a preto e branco.

© Kiur Kaasik.

Valletta (Malta)

Entidade Cultural a representar a cidade: vca.gov.mt

Centro cultural, administrativo e comercial, Valletta é a capital de Malta e Patrimônio Mundial da UNESCO. A cidade apresenta-se como um museu ao ar livre – decorado com arquitetura barroca, britânica e moderna – que abriga cerca de 5000 moradores, muitas empresas e instituições. Simone Inguanez oferece ao projeto um poema. Alexandra Pace deu à sua coleção o título de «Isolation View».

© Alexandra Pace.

Veszprèm (Hungria)

Entidade Cultural a representar a cidade: veszprém2023.hu

Esta cidade de localização única é delimitada pela cadeia de montanhas Bakony, a norte, e pelo lago Balaton, a sul. Devido à sua posição geográfica favorável e à sua rica história, vale a pena visitar Veszprém durante qualquer estação do ano. Veszprém geralmente está repleta de eventos incríveis que giram em torno da dança e da música. Kilián László escreve e Gábor Gáspár apresenta uma visão da cidade sob o estado de pandemia.

© Gábor Gáspár.