Faro: Memorial a episódio da Segunda Guerra Mundial já ganha forma

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Já está colocado o memorial que evoca o salvamento de aviadores norte-americanos por pescadores de Faro em plena Segunda Guerra Mundial. Ainda não há, contudo, data para a inauguração.

Ao fim de 12 anos de persistência, Michael Pease, residente britânico em Lagos, conseguiu, por fim, dar corpo a um memorial em homenagem aos pescadores farenses que salvaram aviadores norte-americanos ao largo de Faro, no inverno de 1943.

A escultora Toin Adams, recorda ao barlavento, o andamento da obra.

«O Michael contactou-me no início de 2012 e pediu-me para desenhar uma escultura que representasse a história dos pescadores de Faro e dos aviadores norte-americanos. Nos anos seguintes, passámos por cerca de 10 designs, orçamentos diferentes, e houve tantas reuniões com a Câmara Municipal de Faro, que perdi a conta. A dada altura, no início de 2019, lembrei-me do memorial de Nelson Mandela, em Howick, que me deu a inspiração para elaborar o desenho final. Tentei descrever a ideia em palavras e desenhos, mas ninguém conseguia compreender o que eu queria dizer. Por isso, fiz um modelo. E foi nesse momento que este memorial se tornou real», conta.

Em outubro de 2019, «Michael Pease, Humberto Lopes e eu fomos ao encontro de Adriano Guerra e Sophie Matias em Faro que perceberam o modelo. Finalmente, sucesso, depois de tantos anos. Concordaram em ajudar a financiá-lo. Devido a outros compromissos que eu tinhaem Londres, concordámos que o projeto teria início em abril de 2020 e que a inauguração seria no Dia de Cidade de Faro», celebrado a 7 de setembro, mas devido à pandemia de COVID-19, tudo ficou em suspenso.

«Michael Pease fez algo extraordinário. Decidiu que devíamos avançar conforme planeado no calendário acordado e que devíamos dar início ao memorial, embora sem a certeza de que iria arranjar os fundos prometidos. Por isso, arriscou o seu próprio dinheiro. Então, com um orçamento minúsculo, começámos a trabalhar. Estávamos sob pressão para tentar completar a maior parte da escultura no prazo de três meses», recorda.

O trabalho acabou por ser mais complicado que o previsto. «Em três meses conseguimos levantar apenas oito dos 30 painéis de aço. Olhámos para a escultura em desespero. Foi um desastre! Michael foi muito compreensivo e viu o esforço envolvido. Por isso, tivemos de embalar os painéis no inverno para tentar minimizar a ferrugem devido à humidade no ar. A equipa teve de polir tudo duas vezes, talvez mais. Nos dias entre o Natal e o Ano Novo, a Câmara de Faro contactou-me do nada para para libertar os fundos. Nunca agi tão depressa», recorda a escultora.

«Assim, iniciámos a segunda fase em janeiro de 2021. Houve muitas paragens e começos devido ao tempo e a ferimentos. A chave para esta escultura é que cada peça tem de ser montada com muita precisão, para que o espetador possa ver a imagem completa que é cortada no aço.  Assim, aprendemos com os nossos erros na primeira metade e alterámos o processo», descreve.

«Em vez de utilizarmos as barras maciças e sólidas de 40 milímetros (mm) que impossibilitavam uma colocação precisa, mudámos para secções ocas. Em poucos dias, toda a escultura estava de pé. E agora podíamos marcar as posições exatas para que pudesse ser instalada como uma peça de mobiliário, em Faro», quando chegasse a altura.

«Durante a realização deste monumento, todo o tipo de pessoas habilidosas e não qualificadas vieram ajudar na árdua tarefa de polir, limpar, levantar e mover. Sem elas, o monumento não poderia ter sido construído», recorda.

Ao que o barlavento apurou, ainda não há uma data prevista para a inauguração oficial, mas existe interesse por parte de altas entidades em assinalarem a importância deste memorial que evoca o melhor da Humanidade nos seus piores tempos.

Uma história de guerra

Os ventos da Segunda Guerra Mundial rugiam violentos numa Europa a ferro e fogo. Na noite sem lua, a 30 de novembro de 1943, o pescador farense Jaime Nunes estava no mar, à corvina, a cerca de 12 milhas ao largo da ilha de Faro, com o compadre, José Mascarenhas, e o filho deste, o jovem Manuel, num frágil barco a remos. Primeiro, ouviram o ronco de motores a cortar o silêncio noturno. Depois um enorme estrondo. Fumo, óleo, chamas e gritos.

Um PB4Y-1, versão da Marinha Americana do famoso bombardeiro B-24 Liberator, que combatia submarinos alemães, despenhara-se depois de sobrevoar Quarteira e Faro. O avião, vindo da base de Port Lyautey, em Marrocos, perdeu-se e ficou sem combustível. Dos 11 tripulantes a bordo, cinco perderam a vida na amaragem. Embora assustados, Nunes e Mascarenhas socorreram de imediato os aviadores caídos e feridos.

Deram-lhes tudo o que tinham, o farnel e as roupas secas de agasalho. Tiveram que esperar a maré favorável para o regresso, num esforço para governar o barco sobrelotado. Chegaram ao porto de pesca de Faro às 03h15 horas de 1 de dezembro.

Os aviadores americanos foram levados para o Hospital da Misericórdia, mesmo ali em frente à doca de Faro. Um oficial da delegação naval dos EUA mudou o registo do local do acidente para fora das águas territoriais com o objetivo de contornar os acordos de neutralidade e permitir o repatriamento da tripulação, que ficou com o estatuto de náufragos.

De outra forma, teria que ficar internada em Portugal até ao final do conflito. Salazar fechou os olhos e Jaime Nunes e José Mascarenhas, apesar da coragem, nada ganharam nem viram o mérito reconhecido até muitos anos mais tarde.

Os heróis de Faro. Durante toda a Segunda Guerra Mundial, os portugueses salvaram milhares de vidas no mar.

Esta história só veio a público em julho de 1999, devido à persistência do jornalista Carlos Guerreiro, investigador da Segunda Guerra Mundial. O britânico Michael Pease, residente de longa data em Lagos, ficou tão emocionado com este episódio que pensou que nunca deveria ser esquecido.

Assim, dedicou 12 anos da sua vida a implementar um memorial, em Faro, onde tudo aconteceu. Bateu a mil e uma portas para arranjar financiamento e até o propôs o projeto ao Orçamento Participativo Portugal (OPP) em 2018.

Ao barlavento, Michael Pease sublinha que foi fundamental o apoio de várias entidades para conseguir o orçamento, que ronda os 40 mil euros. Muitos foram também os filantropos que se juntaram à coleta.

Ao barlavento, Carlos Guerreiro manifesta-se «muito satisfeito» pela concretização do projeto de Michael Pease, que também acompanha desde o início, e refere que os portugueses salvaram centenas de vidas, beligerantes e não beligerantes durante os anos do conflito.

«Quando o Ti Jaime e o Lyle Van Hook me deram o prazer de revelar a sua história nunca pensei algum dia vê-la imortalizada assim. Um grande abraço aos dois, estejam onde estiverem… sempre disse que o livro Aterrem em Portugal! era um ponto de partida e não um ponto de chegada. Está aqui a prova. Um grande abraço ao Michael Pease que luta há tantos anos para pôr isto de pé e à Toin Adams que desenvolveu a ideia. Lançar um livro é um acontecimento único que tem um sabor inigualável. Este tem sido tanto mais. Obrigado a todos por esta aventura», sublinha.