Faro está «marafado» para ser Capital Europeia da Cultura 2027

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Faro está «marafado para ganhar» candidatura a Capital Europeia da Cultura 2027. Para isso lançou uma nova campanha para envolver toda a comunidade no processo no início da Feira de Santa Iria.

Apresenta-se como um motor para o desenvolvimento económico e social de todo o Algarve, apesar de Faro abrir o caminho e concorrer com Aveiro, Braga, Coimbra, Évora, Funchal, Leiria, Guarda, Oeiras e Viana do Castelo.

Isadora Justo, responsável pela comunicação da candidatura farense a Capital Europeia da Cultura 2027, explicou ao barlavento como surgiu a nova campanha de divulgação deste projeto, acabado de apresentar ao público.

«Quando perguntámos às pessoas o que nos distingue enquanto algarvios, quase todos responderam que somos marafados. Achámos interessante pegar nesse conceito tão nosso e dizer que estamos marafados para ganhar porque é algo que os algarvios têm orgulho em ser», resume.

Ao mesmo tempo, é um lema motivante para um projeto regionalista «para o qual vamos batalhar, porque se uma pessoa está marafada, luta».

A campanha foi apresentada na tarde de domingo, dia 17 de outubro, na banca da cultura do município, na entrada principal da Feira de Santa Iria.

A ocasião serviu também para revelar o logótipo vencedor de um concurso de ideias para dar a cara a toda a candidatura. O eleito foi um desenho de uma designer farense, Francisca Soares, representado em graffiti pelo artista João Correia.

Segundo Isadora Justo, a campanha pretende motivar todos os algarvios a opinar, apresentar propostas, ideias e opiniões sobre o que poderá contribuir para o sucesso desta candidatura, aliás, bastante concorrida.

«Não conseguimos ver os nossos problemas através de um olhar exterior. Às vezes, é preciso pessoas de fora para nos abrirem os olhos, para nos ajudarem, através da cultura, a resolver esses mesmos problemas. Estamos presentes na feira porque estamos abertos a desenvolver esta candidatura na rua, em proximidade, a auscultar as pessoas», explicou.

Paulo Santos, vice-presidente da Câmara Municipal de Faro, que também marcou presença no momento da apresentação da campanha, reiterou o propósito.

«Este é um processo que desejamos que seja inclusivo e abrangente porque só faz sentido se envolver toda a comunidade. Estamos aqui a ouvir tudo aquilo o que as pessoas têm para nos dizer e o que entendem que pode ser uma cidade melhor, porque a cultura é uma área muito abrangente», disse.

Em boa verdade, este é um trabalho que começou a ser feito há mais de um ano. Até ao momento, mais de 1000 questionários foram respondidos através das redes sociais, por parte de associações e coletivos, mas também na banca de cultura congénere que funciona no Mercado Municipal de Faro.

A adesão, até ao momento, não poderia ter sido melhor e há várias problemáticas que já foram reportadas, segundo o vice-presidente da autarquia.

«Arrisco-me a dizer que este tem sido o processo mais participado de sempre em Faro, na sua globalidade», assegurou.

Quando, por exemplo, se fez a sondagem inicial para a elaboração do Plano Estratégico da Cultura, registaram-se cerca de 500 participações diretas.

«Em qualquer plano estratégico ou plano de pormenor desenvolvido pela Câmara, nunca se conseguiram atingir tantas propostas», sublinhou.

De acordo com Isadora Justo, os problemas identificados por munícipes e não só, tocam muito e sobretudo as questões que têm a ver com as desigualdades e as clivagens sociais que tocam nas vidas de muitos algarvios.

«Há quem refira a pobreza, a falta de emprego, a falta de comunicação cultural e até questões relacionadas com a falta de habitação a custos controlados para jovens. As pessoas estão a ser ouvidas e as necessidades estão a ser expostas e isso é muito importante», assegurou.

Para Bruno Inácio, chefe de divisão da cultura da Câmara Municipal de Faro e coordenador da equipa Faro 2027, estas auscultações «servem para balizar as temáticas mais importantes que precisam de ser trabalhadas e que estarão refletidas no processo da candidatura. A ideia é que este processo venha das pessoas, das suas necessidades e daquilo que querem para o seu território. Isso estará refletido e presente nas propostas que vamos apresentar».

Todo o input, ainda que às vezes seja «marafado» na origem, vai estar refletido no Livro de Candidatura, que será entregue até dia 23 de novembro para apreciação de um júri europeu.

O resultado chegará no início de 2022 e, se Faro passar, sairá um relatório com os aspetos que necessitam de ser melhorados na candidatura. O livro terá que ser reescrito e atualizado e entregue de novo ao júri.

Por fim, a decisão será anunciada pela Comissão Europeia entre o final do ano 2022 e o início de 2023.

Para Isadora Justo, o ideal seria mobilizar todos os algarvios em Faro «à espera de recebermos o título. Isto é uma candidatura, que se vencermos, em termos de investimento financeiro no território, na região e na cidade, está equiparado a um campeonato europeu de futebol» com todas a receitas do turismo, dormidas, restauração e serviços de apoio.

«Será como se estivéssemos a ver a final do Euro 2016», comparou.

E se tudo falhar? Mesmo que Faro não seja eleita Capital Europeia da Cultura em 2027, a equipa acredita que esta candidatura, por si só, já é uma grande vitória.

«O processo é muito maior que o resultado final pois queremos criar uma prioridade para a cultura no concelho e na região para os próximos anos. Estamos, neste momento, a concretizar e a executar grande parte das medidas e das ações definidas no Plano Estratégico. Este é o nosso compromisso, assumir a cultura como uma prioridade. Se vencermos o título, ótimo. Se não, todo este processo irá dar outro panorama à cidade», destacou Paulo Santos.

E exemplificou. «Há cinco anos tínhamos cerca de 13 associações culturais sem fins lucrativos no concelho, sustentadas pelo apoio ao associativismo. No último apoio deste ano, totalizámos 51 coletivos culturais. O mérito é das associações, mas demonstra a dinâmica e a vitalidade do concelho de Faro nesta área. Quando se passa de 13 associações culturais para 51, mesmo depois de um ano de pandemia, isso diz muito acerca da dinâmica cultural» de um município.

O vice-presidente, apesar de não querer desvendar muitos pormenores, revelou ainda ao barlavento que na próxima reunião de Câmara, marcada para dia 2 de novembro, «iremos levar uma proposta transformadora e inovadora no país em relação aquilo que é a nossa política autárquica para a cultura. Que eu saiba, não há nenhuma outra autarquia com uma proposta que, na sua globalidade, seja tão audaz no assumir o compromisso com a cultura, como a que vamos apresentar».

Até serem dados mais pormenores, a Banca da Cultura da Feira de Santa Iria pode ser visitada até domingo, dia 24 de outubro. A organização chama ainda a atenção de que se encontra a recrutar jovens voluntários e quem estiver interessado em colaborar, basta apenas falar com a equipa.

Confinamento potenciou participações

De acordo com Paulo Santos, vice-presidente da Câmara Municipal de Faro, o sector da cultura «foi o mais afetado pela pandemia e sensibilizou as pessoas a preocuparem-se muito mais com esta área».

Mas não só, «também porque sentiram a falta que a cultura lhes faz. O online teve uma expressão mais forte e, talvez por aí, conseguimos mais participações neste processo de candidaturas, uma vez que envolveu muitas pessoas e incentivou a participação por essa via. Mas, o online nunca substitui aquilo que é o contacto e a experiência cultural sentida de forma presencial. Acho que a pandemia contribuiu para que hoje a cultura tenha uma atenção especial por parte de mais pessoas e isso justifica termos obtido mais participações», disse ao barlavento.

Capital Europeia da Cultura: o que é?

A iniciativa Capital Europeia da Cultura (em inglês European Capital of Culture – ECoC) é uma das iniciativas mais conhecidas da União Europeia.

Criada pela Comissão Europeia em 1985, esta ação tem como objetivo dinamizar as cidades como centros de vida cultural, social e económica.

Desde a sua criação, 58 cidades já obtiveram o título, sendo um dos mais emblemáticos eventos culturais da Europa.

Portugal acolheu três eventos em Lisboa (1994); Porto (2001) e Guimarães (2012).

No modelo atual, duas ou três cidades, em países diferentes, são Capitais Europeias da Cultura durante um ano.

O título é atribuído cinco anos antes, após um processo de candidatura e seleção por parte de um júri constituído por peritos independentes.

O convite formal à apresentação de propostas é publicado cerca de seis anos antes do ano-título, com um prazo de pelo menos 10 meses para os candidatos apresentarem as suas propostas.

Em 2027, uma cidade portuguesa e uma da Letónia serão Capitais Europeias da Cultura.

Em Portugal cabe ao Gabinete de Estratégia, Planeamento e Avaliação Culturais (GEPAC), um serviço integrado na administração direta do Estado, sob tutela e superintendência da Ministra da Cultura, a autoridade de gestão responsável pelo processo de seleção do título de Capital Europeia da Cultura para 2027.

Feirantes estavam «em desespero» por falta de trabalho

Paulo Santos, vice-presidente e responsável pelo pelouro da cultura na Câmara Municipal de Faro, afirmou ao barlavento que esteve à conversa com vários feirantes, que não esconderam a satisfação em regressarem ao trabalho.

«Sentem um contentamento incrível por, finalmente, conseguirem trabalhar. É uma alegria imensa poderem voltar a ter rendimento para as suas famílias. Havia um desespero enorme porque estas pessoas vivem desta atividade e, de um momento para o outro, e por mais de um ano e meio, ficaram sem nada. Foi por isso que montámos e organizámos a Feira de Santa Iria em tempo recorde, assim que as regras da Direção-Geral da Saúde (DGS) o permitiram. Foi um desafio enorme montar tudo num curto espaço de tempo, mas era a nossa obrigação e responsabilidade perante todos os interessados e além disso, os munícipes que queriam a sua feira de volta. Claro, acima de tudo, fizemos o evento para as famílias que vivem e dependem deste rendimento, e que tinham a sua subsistência em risco há demasiado tempo», acrescentou.

Assim, após a autorização por parte da DGS e antes da feira, «autorizámos alguns vendedores de farturas a instalarem-se na cidade, de forma fixa, para poderem trabalhar nas suas bancada. Fizemos o que era possível, mas todas as ajudas são poucas para quem está habituado a viver do seu trabalho, fá-lo com gosto, e de um momento para o outro tudo falha. Não há nada que chegue para colmatar essa componente» psicológica.