Família Vargas quer abrir o Estaminé na Deserta já este verão

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Estaminé, o restaurante da Ilha da Barreta ardeu na noite de 2 de março. Sinistro está a ser investigado, mas o proprietário já traça o seu plano de recuperação e resiliência ao prejuízo que ronda um milhão de euros. Objetivo é tentar retomar atividade do Estaminé na próxima época alta.

«Caiu-nos o mundo em cima!». Foram estas as palavras que José Vargas, proprietário do restaurante Estaminé, na Ilha da Barreta, mais conhecida por Deserta, usou para descrever o momento em que se apercebeu que o seu estabelecimento estava em chamas, na noite de terça-feira, 2 de março. O primeiro sinal de que algo não estaria bem foi quando a família Vargas recebeu um telefonema da central de segurança a dar conta de um aviso de intrusão, algo que até não era incomum.

«Às vezes, o alarme tocava porque havia lá um gato. O animal passava nos sensores de movimento e disparava tudo. Era algo normal e nesses casos acedíamos às câmaras de vigilância, através do telemóvel, não víamos ninguém e desligávamos o alarme. Nessa noite, quando a central nos ligou ainda pensámos que poderia ser uma situação idêntica», recorda o proprietário. No entanto, desta vez, após aceder às câmaras, o cenário foi outro: «via-se uma imagem cheia de luz e movimentos, o que era estranho porque de noite, por norma, só apareciam as pequenas luzes de presença de alguns aparelhos elétricos. Nesse momento, recebo um telefonema de um pescador, que é meu fornecedor e que estava no mar, a dizer-me: Vargas, tens o restaurante à arder! Fomos à varanda, vimos o fumo e soube logo que o restaurante estava acabado. Ainda pensámos correr para o Estaminé, mas fui eu que disse que não iria para lá ninguém. Porquê? Porque todos os nossos sistemas de água são elétricos e percebemos que a energia tinha caído porque as câmaras já estavam desativadas e já não havia sinal de Internet. Íamos para lá fazer o quê? Só para nos martirizar. Acabámos por ir às 08h30 da manhã», do dia seguinte, quarta-feira, 3 de março, ainda o cheiro a queimado pairava sobre as zonas ribeirinhas de Faro.

A conjuntura atual, motivada pela pandemia da COVID-19, também não ajudou a situação. «A pesca lúdica está interdita e não vai ninguém para a Ilha. Por norma, à noite, há muitos pescadores na Deserta, às vezes até iam dormir por baixo da estrutura de madeira do restaurante. Se fosse esse o caso, podiam ter dado conta, porque tínhamos alarmes de incêndio e de certeza que devem ter tocado. Mas sem ninguém para os ouvir era impossível darmos conta do que estava a acontecer mais cedo. Ao longo destes anos trabalhámos sempre com plano A, plano B e plano C porque sabemos que, sendo a ilha deserta, não temos ninguém que nos acuda. Finalmente foi essa premissa que aconteceu, um incêndio que não foi detetado inicialmente porque não estava lá ninguém».

«Se estivéssemos presentes, tínhamos todos os meios para controlar as chamas até aos bombeiros chegarem», explica José Vargas.

De acordo com a Autoridade Marítima Nacional (AMN), o alerta foi recebido pelas autoridades, «por volta das 22h45, através do proprietário do restaurante. Foram mobilizadas para o local três embarcações da Polícia Marítima, com elementos dos Bombeiros Sapadores de Faro, embarcados, para combater as chamas recorrendo a motobombas para retirar água da Ria Formosa e usá-la nas diligências». Segundo o responsável do estabelecimento, «quando cheguei à Ilha, na manhã seguinte, eles ainda estavam lá em trabalhos de rescaldo. Não sei quanto tempo demoraram a chegar, depois do alerta, mas da minha experiência, nunca terá sido menos de uma hora. Reunir os meios, carregar o barco, chegar ao local, instalar bombas, estender mangueiras, é muito trabalho».

«Ficaram lá a noite toda. Sei o que custa e o que é preciso para conseguir movimentar este aparato. Se as autoridades conseguiram chegar à Ilha no prazo de uma hora, já terá sido heroico», sublinha.

Que sobrou do Estaminé? «Os painéis solares. Nem carvão ficou, ficaram flocos que parecem esferovite. Sobraram uns flocos de madeira queimada que nunca tinha visto tal coisa. A madeira sublimou aquilo. Sobrou sublimação. Foi o passar do estado sólido para o gasoso», que gerou um prejuízo superior a um milhão de euros.

A isto, soma-se ainda a queda das receitas, em 2020, de quase 700 mil euros, em comparação com o período homólogo de 2019, motivada pelo contexto pandémico.

No ano de 2021, o Estaminé ainda não tinha faturado nada.

As autoridades ainda estão em investigações e José Vargas afirma não saber o que motivou o sinistro: «não tenho nenhuma suspeita. Temos uma vasta experiência e ao longo destes anos todos nunca tivemos qualquer incidente, nem tampouco o início de um incêndio. Não faço ideia o que terá sido».

Neste momento, e mais de uma semana depois do incêndio, o responsável aguarda apenas que o local seja libertado pelas autoridades, para começar a trabalhar. «A peritagem ainda lá está e estão em processo de averiguações por parte da seguradora e da Polícia Judiciária. Ainda está inconclusivo. Estou a aguardar porque ainda não tenho acesso ao local e não posso começar a retirar os escombros», diz Vargas. O objetivo da família é ter o novo Estaminé pronto a tempo do verão de 2021.

Aliás, é esse plano que lhes permite «não nos irmos abaixo. É pensarmos no que vamos conseguir reerguer, olhar em frente e não para trás», nas palavras do proprietário.

Na prática, «vamos começar do menos zero porque ainda temos o trabalho de retirar todos os escombros. No ano passado tínhamos comprado uma máquina, uma pequena caterpillar, nova, para facilitar no trabalho de cargas e descargas. Custou 60 mil euros e ficou lá queimadinha debaixo dos destroços. Só quando o local estiver todo limpo é que podemos dizer que chegámos ao ponto zero. Será um caminho longo a percorrer», antevê.

No entanto, Vargas deixa um desabafo. «Permitam-me começar a levar a madeira para a ilha e vamos reconstruir o Estaminé. Não vai ser um projeto novo, vai ser o mesmo, igual. Evidente que haverá algumas melhorias, mas será mais ao nível interno porque ao nível visual será o mesmo Estaminé de sempre, de madeira, com as mesmas preocupações ambientais, tudo igual. Vamos replicar o que tínhamos. Estávamos muito confortáveis e orgulhosos desse projeto e não vamos mudar nada do layout original. Agora será uma estrutura toda nova. Da minha vontade, se me pudessem deixar hoje trazer já de lá as chapas, já estaria a carregá-las», refere o patriarca da família.

A possível reabertura está então prevista para o mês de junho, ou julho, dependendo do início dos trabalhos.

«Quero é que me deixem fazer e trabalhar. Essa é a ajuda de que preciso. Se me deixarem reerguer e trabalhar, este verão temos Estaminé. Não temos em junho, temos em julho, mas preciso de começar já. O tempo é curto, mas é possível com planificação, com as equipas certas, com uma gestão de obra muito eficaz e muito bem planeada».

Um aspeto que o incêndio não roubou à família Vargas, foi mesmo a motivação para se reinventarem. Também prova disso são as ideias que já possuíam para a época alta de 2021, adaptadas à situação pandémica, que serão agora aplicadas ao novo restaurante. De acordo com José Vargas, «estávamos cheios de esperança para este ano e estávamos já a prepará-lo porque percebemos que no ano passado não estávamos preparados para as condicionantes. Este ano já sabemos quais as regras e estávamos a antever e a preparar-nos antes de nos cair o mundo em cima. Preparamos uma série de estratégias para poder servir na praia e para conseguirmos aumentar a esplanada. A ideia era conseguirmos ter a mesma quantidade de mesas instaladas, mas numa área maior, para garantir as distâncias de segurança. No ano passado trabalhámos com 50 por cento da lotação e conseguimos resistir, mas seguramente mandámos mais pessoas embora do que aquelas que conseguimos atender. Era isso que estávamos a preparar», conclui.

Uma onda de solidariedade global

Para José Vargas, proprietário do restaurante Estaminé, na Ilha da Barreta, que sofreu um incêndio que destruiu toda a infraestrutura e equipamentos, o que mais o comoveu «é o apoio que temos recebido por parte das pessoas locais e dos nossos clientes do mundo inteiro. Muitos disponibilizam-se para nos ajudarem. O nosso histórico é enorme e agora, no meio de tudo o que acontece, a solidariedade que as pessoas têm tido para connosco é o que mais me emociona. Quero agradecer a quem têm manifestado carinho para connosco e para com o Estaminé», afirma ao barlavento.

Restaurante do mar e com preocupações ambientais

O restaurante Estaminé, da Ilha Deserta, destruído pelo fogo no início do mês de março, destacava-se por proporcionar aos seus clientes pratos, que tinham como base a Ria Formosa e o mar, todos confecionados no local.

«Tínhamos poucas soluções de carne, mas ainda assim eram três pratos, com carne de vaca ou porco, que poderia ser estufada, grelhada ou frita. O principal era o peixe. Quase tudo o que servíamos, era apanhado num raio de dois quilómetros à volta do restaurante: ameijoas, lingueirão, conquilhas, chocos, robalos, douradas, cavalas», refere José Vargas, proprietário.

A isto juntavam-se as sobremesas e uma carta com 140 vinhos. «A garrafeira é uma grande paixão. Tinha muitas garrafas que estavam a envelhecer. As minhas joias ficaram todas lá e daquelas já não se arranjam», lamenta.

Outro dos pontos de destaca da infraestrutura eram as preocupações ambientais. Os primeiros painéis solares foram instalados em 1991, ainda no velho restaurante, onde também existiam frigoríficos a gás. «A sustentabilidade para nós é vital, inerente e natural. Para ter energia tenho de a produzir. Já tínhamos água mineralizada, que depois de duas osmoses e mineralização era servida à mesa e provinha do mar. Com o investimento que fizemos o ano passado já estávamos a carbono zero de energia e tínhamos uma bateria de lítio de 280 quilowatts, com energia carregada pelos painéis solares», recorda.

Uma história que remonta a 1987

O Estaminé, o restaurante da Ilha da Barreta, conhecida como Ilha Deserta, começou a dar os primeiros passos em 1987, quando a família Vargas quis dar uma nova experiência aos seus clientes. Com a atividade marítimo-turística que já tinham, onde proporcionavam birdwatching, passeios pela Ria Formosa e até desportos náuticos, sentiram que a cereja no topo do bolo seria terminar a manhã com uma refeição com gastronomia local da Ria Formosa. Os primeiros almoços começaram a ser servidos em 1988, após José Vargas, proprietário do restaurante, ter pedido licença para um apoio de praia na Ilha, um processo que ainda levara um ano a estar concluído. Em 1991, dá-se uma ampliação do espaço.

«Mudei a forma como comercializava e passei a trabalhar diretamente com o público. A opção foi deixar de ter três ou quatro grandes clientes institucionais para ter um universo ilimitado de clientes e ir fazendo uma fidelização», conta Vargas ao barlavento. Mais tarde, o que começou por ser uma infraestrutura pequena, com algumas divisões e uma esplanada em cima do areal, mudou de localização, dentro da ilha, e transformou-se, em 2007, no restaurante de referência e com o layout que mantinha até à noite do incêndio, aberto todo o ano