«Oilgarve» – falsa petrolífera é afinal um alerta para perigos verdadeiros

  • Print Icon

Surgiu há pouco mais de um mês e surpreendeu muita gente com o slogan «um Algarve com futuro». A «Oilgarve» apresentava-se a 25 de agosto, no facebook, como uma empresa legítima de marketing a favor da exploração de petróleo na região.

Rapidamente chegou a mais de 50 mil pessoas, foi noticiada e até recebeu currículos de interessados em trabalhar nesta petrolífera que nunca existiu.

Bruno Fonseca, 37 anos, o pai da ideia, revelou ao «barlavento» que criou uma gasolineira fictícia apenas para alertar a opinião pública para um perigo real e que, na sua opinião, não está a ser devidamente debatido.

«Já alguma vez imaginou ver uma plataforma no mar? Venha ver como o futuro do Algarve está a ser feito, de forma limpa e profissional». O convite para um (des)agradável cruzeiro turístico para conhecer uma das mais poluentes indústrias modernas, foi publicado, a 27 de agosto na página de facebook da «Oilgarve», que muita gente acreditou ser uma empresa real.

«A melhor forma de unir muitas pessoas é através do ódio comum em relação a algo», explica Bruno Fonseca.

«Portanto, quando há muita gente a odiar alguma coisa, as pessoas unem-se contra isso», considera.

Antes de criar a «Oilgarve» nas redes sociais, Fonseca consultou as páginas de algumas associações que estão a trabalhar nesta causa. «Vi fotografias de reuniões em salas vazias. Então, pensei em fazer o oposto», compara.

Não tardou a «ser contactado pelos jornais, a receber todo o tipo de ameaças, mas também currículos de pessoas interessadas em vir trabalhar» para a empresa fictícia, que chegou mesmo a ser (falsa) notícia: «Um desastre de relações públicas» escreveu o website de notícias em inglês «Algarve Daily News».

«Expliquei aos jornalistas que tínhamos sido contratados pela REPSOL para fazer uma campanha, para as pessoas perceberem» que a exploração de petróleo «não é algo negativo», através de uma comunicação escandalosa. Uma espécie de green wash não disfarçado.

Um exemplo é a bem intencionada mas absolutamente falsa promessa: «incentivamos estudantes portugueses a escolher ciências. Oilgarve irá suportar programas direcionados para atrair mais jovens interessados em carreiras dentro da engenharia e ciências», também lançada nas redes sociais.

A «Oilgarve» publicitou como grande benefício para a região «Portugal receber 10 cêntimos por cada barril de petróleo» extraído nas concessões ao largo da costa algarvia. Segundo Fonseca, que analisou com atenção os contratos que estão assinados com Estado Português, este valor não está longe da realidade. E em média, segundo explicou ao «barlavento» é um preço bastante abaixo do valor médio que a indústria paga noutras partes do mundo.

Os planos para promover a falsa gasolineira iam ainda mais longe. «Envolvia criarmos um outdoor publicitário» num local de grande visibilidade. Depois, o mesmo seria «vandalizado» por uma equipa de artistas, neste caso, da associação Policromia, com grafitty de protesto e mensagens de ódio à «Oilgarve».

O ato seria filmado e difundido nas redes sociais, de forma a manipular a opinião pública. Assim, a (falsa) empresa tornar-se-ia uma vítima. A ação serviria também para promover uma exposição de arte (ver caixa).

Mas a ideia acabou por não avançar porque nenhuma empresa da área da publicidade se mostrou interessada em colaborar. A maioria justificou que a exploração de gás e petróleo é um assunto com fortes implicações políticas, e portanto, campo fértil para eventuais represálias a nível comercial.

Natural de Lagos, Bruno Fonseca viveu parte da infância na África do Sul. Desde que vive no Algarve já fundou uma associação de teatro, foi treinador de futebol, esteve envolvido nos desportos de combate, criou uma empresa de design. Nunca se envolveu numa causa até agora.

Questionado sobre o que o motivou a usar as suas competências na área do marketing e design nesta iniciativa, explica: «este tema é sempre algo que as pessoas acham que não vai acontecer. São rumores. Não vai acontecer. Mas há contratos assinados. Eles vão começar agora em outubro com barcos e testes. Mas ninguém se está a mexer em relação a isto. Só quando estiverem na praia e virem algo montado no mar é que acreditam», lamenta.

A certa altura, «tivemos de começar a pôr as coisas a limpo. Já havia muita gente a investigar quem estaria por detrás da Oilgarve, e poderia ser mal-interpretado como sendo uma pessoa realmente a favor da exploração de petróleo», confidencia.

Cético em relação à eficácia das petições enquanto instrumento para resolver os problemas da sociedade portuguesa, Fonseca admite que «estas ideias são sempre arriscadas. Corri o risco. Não sei se algum dia serei prejudicado por causa disto, ou não, mas senti que era uma forma diferente» de chamar a atenção e «criar algum buzz e awareness» na opinião pública.

Outra consequência que espantou Bruno Fonseca nesta experiência chamada «Oilgarve» foi a má reação por parte das associações e movimentos que estão a trabalhar contra a exploração de petróleo na costa algarvia, segundo explicou ao «barlavento».

Mesmo quando lhes revelou que tudo se tratava apenas de uma forma diferente de chamar a atenção para uma causa comum, a sua iniciativa foi hostilizada e considerada concorrência. Houve até uma disputa por causa do nome «Oilgarve».

A revelação sobre a «Oilgarve» ser fictícia e ter apenas como objectivo sensibilizar a opinião pública e promover uma exposição de arte foi publicada no facebook a 13 de setembro. Mas ainda há tenha dúvidas.

Artistas Unidos contra o Petróleo

«Durante este processo, quando nos contactavam para saber quem estaria por detrás da Oilgarve, respondia que iríamos fazer uma conferência de imprensa para explicar». Na verdade, objectivo era outro: coincidir a convocatória à comunicação social com a inauguração de uma exposição de arte interventiva, causando surpresa e impacto, para um evento que facilmente é ignorado na agenda mediática. O plano foi abandonado.

Ainda assim, a coletiva de arte contemporânea «Oilgarve» inaugura hoje, 1 de outubro, às 20h00, na galeria «Farpa Lab», a sede da Policromia Associação Cultural, no piso superior do Mercado Municipal de Faro. Junta 16 artistas mais três convidados: DJ André Salgueiro, o humorista Moce Dum Cabreste e o músico de hip-hop algarvio Reflect (Pedro Pinto).

Os artistas em exposição são Abel Viegas; Angelo Gonçalves; Bruno Fonseca; Bug Bolito; Curt’iço; Hélder Sousa; Jorge Mestre Simão; Leandro Marcos; Lisa Raposo; Nuno Viegas; Marum Nascimento; Menau; Régis Vincent; Ruben Botelho, Zola Ivitch. A mostra ficará patente até ao final do mês de outubro, e pode ser visitada de quinta-feira a sábado, das 15h00 às 19h00.

O patinho oleoso

Uma das ideias para reforçar a mensagem que a «Oilgarve» quer passar será colocar uma banca de rua, na qual são oferecidos patinhos de borracha aos transeuntes. «Pegamos no patinho, metemo-lo dentro de um saco de plástico transparente, misturamos com um pouco de petróleo e dizemos: aqui tem!» Campanha-choque? «De início, a minha ideia foi mesmo essa. Tentar tocar as pessoas onde lhes dói mais, no imaginário infantil, aquela ideia dos patinhos para adormecer, sabe?» – o que também pode ser uma metáfora para a letargia da sociedade civil relativamente a este assunto. Um dos parceiros que apoiou a exposição, «não nos iria deixar colocar fotos verdadeiras das consequências» de um desastre petrolífero, sendo a ilustração um meio mais inocente para a divulgar. No entanto, quem rodar o patinho 180º irá descobrir uma pouco simpática mensagem subliminar. «É o que o petróleo faz ao escorrer…»

Petróleo na costa sim, exposições da arte na praia, não!

«A minha perspetiva é o quanto o Algarve pode ser afetado se isto acontecer. Vivemos do turismo e dependemos muito da nossa costa. Uma catástrofe, a acontecer aqui, pode ser uma ruína numa proporção gigantesca», considera.
A ideia original para a exposição «Oilgarve» seria montá-la numa praia algarvia. Sem querer revelar locais, Bruno Fonseca diz apenas que foram feitos contactos junto de algumas autarquias neste sentido. A resposta à questão foi sempre remetida para as outras várias entidades que gerem o litoral. O assunto tem implicações políticas e como «não interessa» muito mexer nele, resultou no habitual jogo do empurra. Fonseca recorda «aquela festa polémica em Portimão, que não tinha autorização e acabou por realizar-se e já ninguém fala sobre isso. Agora, uma exposição de arte numa praia» contra a exploração de petróleo causa estranheza…