Fábrica da Cerveja vai finalmente ser o HUB criativo de Faro

  • Print Icon

A Câmara Municipal de Faro vai transformar a Fábrica da Cerveja num centro para a arte e criatividade. Município está disposto a investir 13,4 milhões de euros no imóvel e revolucionar a relação com toda a envolvente do centro histórico até 2027.

Após um considerável historial de impasses e reveses, a Câmara Municipal de Faro tomou uma decisão sobre o que fazer com o edifício conhecido por Fábrica da Cerveja, no coração do centro histórico.

A ideia agora é criar um centro para a arte e criatividade que sirva a cidade, a região e se ligue a redes europeias e até ao vizinho norte de África. A candidatura a Capital Europeia da Cultura em 2027 deu um empurrão e eis que nasce um programa estratégico e funcional, que foi tornado público hoje, sexta-feira, dia 18 de fevereiro.

Além da intervenção no imóvel, está prevista a abertura de uma nova praça, a ampliação do Museu Municipal de Faro e a construção de dois novos edifícios multifacetados de apoio, em quatro fases de intervenção.

Sophie Matias e Paulo Santos.

«Basicamente, este programa estratégico, suportado pela participação pública, resulta em algo muito além do que idealizámos. A Fábrica da Cerveja quer assumir-se como um centro para a arte e para a criatividade, de uso público, de encontro entre agentes culturais, com espaços multifuncionais que lhe darão outras condições às dinâmicas que já temos aqui hoje», explicou Paulo Santos, vice-presidente da Câmara Municipal de Faro, no uso da palavra.

Assim, Faro «vai ter um espaço multifuncional, cuja gestão queremos que seja partilhada com o tecido cultural, as associações e a universidade para que possam intervir no equilíbrio financeiro do processo. Será um espaço muito abrangente, onde se poderá produzir, dar à comunidade, mas também receber. Um equipamento que nos permitirá escalar a cidade para uma dimensão que nunca tivemos capacidade» de atingir.

O documento de intenções resulta de uma parceria do município com as empresas Gonçalo Louro & Cláudia Santos – Arquitectos, Lda, em cooperação com a Opium, Lda, de Carlos Martins, antigo gestor de projeto da Capital Europeia da Cultura Guimarães 2012 e com Pablo Berástegui, produtor cultural que tem desenvolvido carreira em Espanha, sobretudo em projetos de grande porte, como a candidatura de San Sebastian a Capital Europeia da Cultura em 2016, além do Matadero de Madrid, um edifício reconvertido a funções semelhantes ao que se pretende para a Fábrica da Cerveja, embora à escala algarvia.

Paulo Santos disse que este é um «processo irreversível», mesmo que a cidade não venha a ser finalista (o resultado será conhecido a 11 de março).

Carlos Martins, Gonçalo Louro, Pablo Berástegui e Bruno Inácio.

Por outro lado, este plano já estava concluído em junho do ano passado, mas com as eleições autárquicas no horizonte próximo, o executivo decidiu adiar a apresentação para que não fosse interpretado como «um trunfo, uma carta da manga».

Agora, «neste mandato, faremos o desenvolvimento possível, dentro do tempo possível. Dada a participação pública que tivemos, ninguém terá coragem» para deixar de concluir o plano, considerou o vice-presidente da Câmara Municipal de Faro.

Intervir num local tão sensível como a Vila Adentro é também um desafio burocrático que envolverá outros agentes. «Tivemos o cuidado de consultar várias entidades sobre se fazia sentido este projeto e se havia enquadramento técnico e legal em todos os mais pequenos pormenores», sublinhou.

De acordo com o documento proposto, a intervenção arquitetónica procura manter a imagem original da Fábrica da Cerveja. A ideia é recuperar o antigo perímetro das muralhas de Faro.

No entanto, para que não seja apenas mais um boa intenção, «vamos lançar a encomenda do projeto de arquitetura para a primeira fase, ainda este ano», garantiu Paulo Santos, etapa que será mais fácil de implementar porque apenas mexe com terrenos municipais.

No entanto e ao mesmo tempo, será encomendado o projeto para a segunda fase, cuja execução dependerá da aquisição de espaços privado junto à muralha.

O projeto prevê ainda a criação de um restaurante num dos terraços da Fábrica da Cerveja, até porque Faro lidera uma rede europeia para dinamizar as açoteias das cidades, a European Creative Rooftop Network (ECRN), financiada pelo programa Europa Criativa até 2024.

Tal como o projeto do Quilómetro Cultural, que inclui a reabilitação do cais de carga da estação de caminho de ferro (que passou para a gestão do município farense a 2 de janeiro), os espaços para residências artísticas na Culatra e Farol, e o processo de aquisição da Alfândega, que está em curso e que «acolherá um ambicioso projeto de gastrodiplomacia», a Fábrica da Cerveja «será o principal epicentro» da capital da Cultura 2027.

A sessão contou ainda com a participação da arquiteta Sophie Matias, vereadora com os pelouros do ordenamento do território, gestão urbanística e regeneração urbana que, explicou o enquadramento da intervenção na envolvente e de alguns aspetos do edifício.
A moderação foi de Bruno Inácio da Faro2027.

O resumo do projeto pode ser consultado aqui.

Cerveja artesanal e um ponto nevrálgico no mapa europeu

No uso da palavra, Carlos Martins revelou que «o que nos foi pedido não foi apenas uma intervenção no edifício. Se fosse assim teria começado mal, embora seja essa a motivação para a equipa saber o que irá ser feito. Um imóvel com esta importância, com este valor sentimental, histórico e cultural, não pode ser visto apenas como um fim, mas como um meio para várias coisas que podem acontecer da sua transformação. Não trazemos nenhuma ideia milagrosa. É na auscultação de muitos pontos de vista e do muito conhecimento que existe na região que se encontra um caminho, seja este, ou outro com o mesmo sentido estratégico», frisou.

Martins referiu que «todas as 12 cidades que concorrem a Capital Europeia da Cultura querem muito ter um título, acolher um grande evento da União Europeia e celebrar esse evento extraordinário da vida quotidiana. Mas, também já todos concluímos que isso não é o mais importante. Uma cidade para ser capital europeia tem de ser um centro do qual e para o qual confluem processos culturais e criativos. Portanto, ter um título sem ter a essência, não serve para nada».

E por isso, «Faro precisa de constituir relevância regional, nacional e europeia para poder aproveitar esse título. Porque senão, ter o título mas não ter o conteúdo, passará o tempo e não ficará nada. Foi nessa perspectiva que fizemos este exercício de reflexão», sublinhou. «Este lugar tem de estar ao serviço não do evento, mas da estratégia que o suporta. Para que depois do evento possam continuar as dinâmicas de escala europeia para o Algarve».

Maqueta com o projeto concluído.
Modelo de Gestão partilhada

Talvez um dos maiores desafios propostos no plano estratégico seja a intenção de haver uma futura gestão partilhada, em que o município não tenha a exclusividade. «Uma tutela partilhada com várias entidades que queiram ocupar e ter um papel na gestão efetiva, participada, que consideramos ser obrigatória para o século XXI», disse Carlos Martins. Rogério Bacalhau concordou. «Queremos que este projeto seja vivo. O edifício é público, a nossa missão é mantê-lo na esfera pública e o objetivo é que a gestão não caiba só ao presidente da Câmara Municipal ou aos órgãos municipais. Vamos trabalhar para ter uma equipa para dinamizar este projeto, para que num futuro próximo possa vir a ser uma realidade onde todos os agentes culturais possam convergir e que seja dado à utilização de todos os farenses e a todos os que nos visitam».

Desígnio cervejeiro

Na opinião de Carlos Martins, «a Fábrica da Cerveja tem de produzir cerveja também. Temos a ambição, de num dos muitos cantinhos que o edifício vai ter, haver a possibilidade de produzir cerveja artesanal com marca própria. Faro tem que cumprir esse desafio. E para podermos manter o nome, vamos cumprir esse desejo de produzir cerveja de qualidade que tenha também valor simbólico e cultural de comunicação deste projeto», quem sabe para brindar à Capital Europeia da Cultura 2027.

O programador diz ainda que «isto não pode ser para as elites. Tem de ser para as pessoas que ainda não são públicos culturais. Há questões sociais, ambientais e tecnológicas às quais este lugar também deve saber responder. Mais do que um centro de arte ou museu, tem de ser um lugar onde se possam criar para novas produções artísticas, nova construções coletivas. Não pode ser um edifício fechado com uma campânula. Tem de ser permeável ao sistema cultural, social e económico da região. A Fábrica da Cerveja pode ser uma nova forma de ver e fazer cultura. No limite, pode ter extensões nas escolas e na universidade», disse. Além disso, deve ter contacto com o vizinho norte de África e Andaluzia e colocar uma tónica nas questões da sustentabilidade ambiental, sobretudo, porque está virada de frente para a Ria Formosa.

Para o arquiteto Gonçalo Louro, o desafio funcional foi ver se a proposta faz sentido nos espaços e no tempo, entre passado, presente e futuro. «Reabilitar este edifício deve ser pautado por um sentido de intevenção arquitetónica que valorize toda a diversidade espacial e toda a sua composição. Este é um edifício complexo com uma estrutura por camadas visíveis de história, de materiais, de referências. A importância do reconhecimento patrimonial que tem na cidade e o referencial cultural para o território deve estar sempre presente», além da questão, já referida da sustentabilidade e de minimizar o impacte ambiental das obras.

Projeto faseado

De acordo com Carlos Martins, antigo gestor de projeto da Capital Europeia da Cultura (CEC) Guimarães 2012, «não se pode fazer tudo de uma vez. Não só porque é uma intervenção cara, mas porque temos de ir aprendendo com o processo. O pior que pode acontecer é fechar uma ideia como definitiva e depois não estarmos preparados para acolher as mudanças que a candidatura» de Faro a CEC em 2027 «vai ter. Tudo vai influenciar um desenvolvimento gradual do conceito», concluiu.

De acordo com o programa estratégico, a intervenção profunda vai ser dividida em quatro fases. A primeira fase prevê a requalificação do corpo nascente do edifício e Largo, com a intervenção na parte do edifício sob gestão direta do município e intervenção na zona exterior. Para isso será derrubado um muro junto à Rua do Castelo. A ideia passa por criar uma nova praça e uma nova centralidade nesta zona. Esta primeira fase tem uma estimativa de investimento de 2,1 milhões de euros, tendo expectativa de concretização até 2026/ 2027.

As diferentes fases do projeto.

Já a segunda fase deste projeto prevê a intervenção no espaço de jardim contíguo à Fábrica da Cerveja e a construção de dois novos edifícios de apoio, nomeadamente um novo edifício na retaguarda da Fábrica e a construção de um novo edifício junto à Praça D. Afonso III.

O primeiro destes novos espaços deverá incluir salas de apoio à produção musical – com capacidade para se transformarem noutras valências – e o segundo edifício deverá servir de apoio na relação entre o Museu Municipal e a Fábrica da Cerveja. Ao todo, esta segunda fase tem uma estimativa de investimento de 2,6 milhões de euros e deverá avançar, idealmente, em simultâneo com a primeira fase, prevendo-se igualmente a sua concretização até 2026/ 2027.

Já a terceira fase do projeto prevê a intervenção do corpo sul e nascente do edifício, atualmente sob gestão da Associação Recreativa Cultural de Músicos. Esta fase terá uma estimativa de orçamento de 3,5 milhões de euros e tem uma expectativa de concretização até 2027, caso Faro venha a acolher o título de Capital Europeia da Cultura.

Já a quarta fase do projeto deverá avançar de acordo com a evolução das fases anteriores, prevendo a ampliação do Museu Municipal de Faro e zonas adjacentes. A estimativa de investimento desta fase é de 5,1 milhões de euros.

História atribulada

Situado na Vila Adentro, junto à muralha da cidade de Faro, frente à Ria Formosa, o edifício hoje conhecido como Fábrica da Cerveja foi construído entre 1930 e 1940 numa zona antes ocupada por instalações fabris, com vista à destilação de álcool. No entanto, este espaço, que apesar de entre 1968 e 1992 ter sido ocupado pela Sociedade Distribuidora de Cerveja e Vinhos do Sul, «nunca foi usado para fabrico ou chegou sequer a produzir um litro de cerveja», recordou o vice-presidente da Câmara Paulo Santos.

Classificado como Imóvel de Interesse Público, o edifício foi adquirido pela autarquia em 1998. Devido à situação financeira precária do município, foi posto em hasta pública, por duas vezes, sem que tivessem havido compradores.

Foi também usado como paiol do Exército, houve ainda vários projetos para este espaço que tiveram «falsas partidas», que passavam pela criação de um centro de arte contemporânea ou de um hotel com vista para a Ria Formosa.

Em 2013, a Câmara Municipal de Faro decidiu manter o edifício na esfera pública e uma das alas da Fábrica da Cerveja é gerida pela Associação Recreativa e Cultural de Músicos.