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«A Natureza detesta Linhas Rectas» é o nome da exposição de Gabriela Albergaria que inaugurou ontem, sábado, 14 de maio, no Museu Municipal de Tavira – Palácio da Galeria.

A Câmara Municipal de Tavira e a Fundação Caixa Geral de Depósitos – Culturgest uniram-se para trazer ao Algarve uma mostra de trabalhos criados nas duas últimas décadas pela artista contemporânea portuguesa Gabriela Albergaria.

Na inauguração, aberta ao público, além da autora, estiveram também presentes Delfim Sardo, curador da mostra, Ana Paula Martins, presidente da Câmara Municipal e representantes da Culturgest, onde «A Natureza detesta Linhas Rectas» estreou e esteve patente durante a temporada 2020 – 2021.

Delfim Sardo, professor de História da Arte Contemporânea na Universidade de Coimbra e ensaísta, começou por explicar o nome escolhido por Gabriela Albergaria.

«Devemos entender a paisagem como sendo diversificada, com zonas claras e escuras, com zonas com acidentes e esconsas, com zonas que se abrem. O que a natureza não tolera são linhas retas, que são estruturas rígidas em violenta contradição com a própria natureza, que é orgânica e está em constante transformação e mutação».

É este o permanente fio condutor de Gabriela Albergaria e, de facto, a exposição reúne peças quase sempre inspiradas pela natureza, pela paisagem, pelas plantas e pela história que foi moldando a paisagem com as plantas.

A questão central da artista, como a própria depois explicou, assenta no permanente conflito entre a natureza e a paisagem, por um lado, e o processo moderno da sua apropriação e dominação pelo homem, por outro.

Frente a uma das peças de grande dimensão, uma viga de cedro «ensanduichada» num tronco de eucalipto cortado longitudinalmente, Delfim Sardo destacou o sentido verdadeiramente ecológico do trabalho da artista. Gabriela Albergaria procura compreender o ciclo de vida das coisas, sejam elas construções da natureza ou construções humanas, e tenta que o seu trabalho artístico se adapte ao espaço onde é mostrado, seja um museu ou uma galeria, um parque público ou uma mata.» É uma atitude de respeito, não consigo encontrar outra palavra melhor» rematou a artista natural de Vale de Cambra, sempre em diálogo com o curador.

As obras expostas em Tavira foram criadas durante observações, caminhadas, deslocações e viagens de Gabriela Albergaria por Portugal, pela Europa, pelo Brasil, pelos Estados Unidos da América e por outros países dos cinco continentes.

Entre as peças, surgem pequenos pedaços de madeira que recolheu nas praias e foi guardando, e com os quais construiu depois alinhamentos imperfeitos e, por vezes, até lhes juntou molas. Ou sementes, vagens e folhas que serviram de molde para peças em porcelana ou metal.

Destaca-se ainda um enorme tronco de uma árvore que foi segmentado em cubos progressivamente mais pequenos e que continuam a secar lentamente alterando as suas formas iniciais. E uma outra árvore seca completa, que foi cortada e cujos os diversos pedaços foram «enxertados» com parafusos e porcas para que a árvore se reaproximasse da sua arquitetura original.

Em algumas das peças ressalta um método científico-artístico de inventariação, catalogação, organização e coleção. Por exemplo, as xilogravuras baseadas em espécies de árvores em risco de extinção, por sobreexploração para a utilização na construção civil, na indústria do mobiliário, entre outras. Ou os «onze enxertos para castas alentejanas», passados a bronze e devidamente etiquetados.

Nas paredes do Palácio da Galeria, estão também expostos desenhos da série «Landscape in Repair», feitos com técnicas diversas, alguns deles a partir de fotografias, sobretudo inspirados na madeira, nos elementos vegetais e nas paisagens. No canto de uma das salas, um fungo recolhido no tronco de uma árvore morta, passado a bronze, é mais uma peça que surpreende.

Ao barlavento, a autarca Ana Paula Martins explicou que esta é uma das grandes apostas do «Verão em Tavira 2022», cuja programação completa deverá ser apresentada muito em breve.

Para já, «A Natureza detesta Linhas Rectas» pode ser começar a ser desfrutada pelos tavirenses e pelos muitos visitantes nacionais e estrangeiros que se deslocam até à cidade.

Satisfeita com a nova parceria com a Culturgest, a autarca destacou o empenhamento comum para trazer ao Palácio da Galeria as obras de artistas pouco divulgados fora dos grandes centros urbanos, como é o caso de Gabriela Albergaria.

A expectativa é, por isso, que o Museu Municipal de Tavira recupere a dinâmica que tinha antes da pandemia, com uma exposição que Ana Paula Martins adjetiva de «fantástica».

Para enriquecer a visita, complementando as explicações dos guias do Museu Municipal que receberam formação específica para tal, é possível adquirir um excelente catálogo, editado pela Culturgest e pela Mousse Publishing, na sequência da exposição «A Natureza detesta Linhas Rectas», quando a mesma esteve patente em Lisboa, na Culturgest.