DRAP Algarve defende matadouro móvel para a região

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Grupo de trabalho do Ministério da Agricultura está a estudar a possibilidade de criar matadouros portáteis, instalados em plataformas TIR. Tal infraestrutura poderia impulsionar a produção pecuária algarvia e até a comercialização de carne com Indicação Geográfica Protegida (IGP).

Inaugurado por Cavaco Silva a 22 de maio 1992, o matadouro regional do Algarve, em Vale da Venda, acabou por fechar numa fiscalização da Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE) no início de julho de 2007.

O diagnóstico foi fatal: falta de higiene, linhas de abate oxidadas, falta de climatização na sala de desmanche e abastecimento de água às instalações através de um furo hertziano sem registos de qualidade, segundo as notícias publicadas na altura.

Desde então, já lá vão quase 14 anos, os produtores algarvios ficaram sem uma infraestrutura para os servir.

Um problema que Pedro Valadas Monteiro, diretor regional de agricultura e pescas do Algarve quer resolver através uma solução inovadora que já está a ser estudada pela tutela.

«Tendo em conta a necessidade de em todos os investimentos significativos ser feita uma avaliação, uma análise de custo-benefício, aquilo que nos parece mais adequado à realidade da produção pecuária no Algarve, é uma infraestrutura mais pequena e mais ágil, que na prática até possa quase ir ao encontro do produtor», começa por explicar.

A ideia é equipar um ou dois camiões TIR com tecnologia de ponta, preparada para o abate de animais, com elevados protocolos de higiene e segurança, e capaz de fazer uma primeira desmancha das peças, ao exemplo do que já acontece hoje noutros países da Europa.

No entanto, «há questões que têm a ver com o tratamento das carcaças, dos resíduos, das águas, que implicam que o matadouro, que na prática será um camião, tenha de ficar estacionado num sítio onde estes resíduos possam ter um destino e um tratamento adequado. O ideal seria ir até uma exploração agrícola, com dimensão suficiente para o acolher, ou então, estacioná-lo num local preparado para o efeito», acrescenta.

Isso já seria suficiente para responder às necessidades dos produtores do Algarve, em vez de terem de ir até ao Alto Alentejo, Lisboa e Vale do Tejo, como acontece.

Permitiria «reduzir os custos de transporte quando levam os animais, pequenos ruminantes, suínos ou bovinos para serem abatidos». Um matadouro móvel, «permitiria a redução dos custos de produção, que é um dos constrangimentos que atualmente existe à produção pecuária do Algarve. Ao não haver um matadouro, os custos de transporte encarecem substancialmente os encargos» e ao mesmo tempo, diminuem a rentabilidade.

«Porquê? Porque o preço de venda é substancialmente reduzido. Muitas vezes os produtores algarvios, como não querem suportar o encargo do transporte, negociam com comerciantes de outras zonas do país que aqui vêm comprar os animais para depois levá-los para abate. Muitas vezes, esses animais já não são vendidos como sendo um produto do Algarve, entram naquelas fileiras e vão misturados. Aqui perde-se também a possibilidade de valorizar um produto» regional.

Pedro Valadas Monteiro fala na possibilidade de haver carne algarvia com Indicação Geográfica Protegida (IGP), ao exemplo do que acontece nos citrinos e que está a impulsionar o seu sucesso quer no mercado interno, quer nas exportações.

«É possível. Se tivéssemos, por exemplo, uma estrutura de abate no Algarve já seria possível trabalhar, por exemplo, a certificação da carne e também, muito importante, travar a redução do efetivo das raças autóctones no Algarve, que está a diminuir», afirma.

Uma realidade que já está na calha. «Em Portugal ainda não temos legislação para isso. Terá de ser criado um quadro legal que permita o enquadramento deste tipo de unidades móveis de abate. Já está nomeado a nível nacional um grupo de trabalho, coordenado pelo Ministério da Agricultura» que envolve também a Direção-Geral de Agricultura e Desenvolvimento Rural (DGADR) e a Direção-Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV).

«Do meu ponto de vista, na ótica do custo-benefício, as unidades móveis são a solução que se adapta melhor à realidade do Algarve», garante Pedro Valadas Monteiro. Outra questão a resolver é o modelo de negócio, entre uma gestão pública, privada ou mista.

O diretor deixa várias hipóteses em aberto. «Uma solução possível poderia ser a aquisição, ao abrigo de um determinado programa, por exemplo, fundos de coesão, ou as tais verbas da bazuca europeia. Um conjunto de municípios poderiam ter interesse em adquirir este equipamento. Também se poderia pensar numa unidade para o Sotavento e outra para o Barlavento, ou em apenas uma para todo o território», sugere.

«Depois poderia ser concessionado a um privado para fazer a exploração do equipamento adquirido, através de um concurso público. Poderia ser, por exemplo, um modelo plausível», admite.

«Sabemos que, por exemplo, no Barlavento há bovinos, suínos e também pequenos ruminantes, Já a ovelha Churra e a cabra estão presentes tanto no nordeste algarvio como nas zonas do centro, interior centro, barrocal e também nalgumas partes do Barlavento. Há produção um pouco por toda a região».

Em relação ao orçamento, «depende se é uma infraestrutura para processar grandes animais como bovinos, ou se é para suínos ou pequenos ruminantes. O preço logo aí varia. Dependerá também do que é que a legislação obriga do ponto de vista do tratamento dos subprodutos. Isso pode encarecer mais ou menos, mas um valor assim por alto, nunca seria menos de 400 a 500 mil euros por unidade, mas pode ser maior se eventualmente as exigências do ponto de vista do licenciamento também forem mais rigorosas», conclui.