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Dia da Marinha é celebrado a 20 de maio na capital algarvia. Programa dará atenção ao projeto que pretende dar o nome de Gago Coutinho ao Aeroporto de Faro.

Atribuir o nome de Gago Coutinho ao Aeroporto de Faro é o objetivo de um grupo de cidadãos de vários quadrantes da sociedade portuguesa, do qual fazem parte algarvios como Martins Guerreiro, capitão de Abril, Carlos Brito, Afonso Dias e Luís Filipe Madeira, deputados à Assembleia Constituinte.

E no ano em que se celebra o Centenário da 1ª Travessia Aérea do Atlântico Sul (100TAAS), a iniciativa ganha um novo fôlego.

Depois do relançamento da ideia em São Brás de Alportel, em fevereiro último, a próxima etapa de divulgação será durante as comemorações do Dia da Marinha, na sexta-feira, dia 20 de maio, em Faro.

Uma réplica do Hidroavião Fairey III «Santa Cruz» estará patente no Jardim Manuel Bivar, e o centro comercial Forum Algarve irá acolher uma exposição alusiva à viagem de Gago Coutinho e Sacadura Cabral, entre Lisboa e o Rio de Janeiro, em 1922.

Ouvido pelo barlavento, Martins Guerreiro, justifica que «quase todos os países do mundo que tiveram pioneiros da aviação, batizaram aeroportos com os nomes dos seus heróis. O Aeroporto do Rio de Janeiro chama-se Santos Dumont», em honra ao autodidata e inventor brasileiro que projetou, construiu e voou os primeiros balões dirigíveis com motor a gasolina e aeroplanos.

Almirante Martins Guerreiro.

«O Aeroporto de Lyon, na França tem o nome de Saint-Exupéry», aviador e escritor que ficou imortalizado pelo clássico da literatura «O Pequeno Príncipe», só para citar alguns exemplos.

«Hoje não temos a noção, mas em toda a nossa História tivemos apenas 13 inventores de renome internacional. Gago Coutinho foi um deles ao lado de Pedro Nunes e Bartolomeu de Gusmão. O que ele fez foi notável: adaptou o sextante usado na navegação astronómica dos navios de forma a poder ser usado nos aviões em voo», explica, de forma simples. «Mas isso tem um problema. A velocidade dos aviões é muito mais rápida que a de qualquer navio, e portanto, o cálculo teria de ser feito de forma muito mais célere» para ser eficaz.

«Num navio, tira-se a altura das estrelas e, com vagar, faz-se a leitura do cronómetro. Há tempo para fazer os cálculos. Eu fiz isso profissionalmente. Fui chefe de serviço de navegação da fragata NRP Nuno Tristão (F 332), de 1962 a 1964. Não foi muito tempo depois da viagem de Gago Coutinho. Na altura, falamos de um intervalo de 40 anos» e os métodos ainda eram semelhantes.

«Ele e Sacadura Cabral foram também notáveis na concepção de um outro instrumento para conhecer o abatimento da aeronave no ar. Os hidroaviões eram muito leves. Bastava um pouco de vento para perderem o rumo real, que era muito diferente do rumo da agulha (magnética). Calcular essa diferença tinha a maior importância. Fizeram um aparelho baseado nos triângulos quer de vento, quer da velocidade do aparelho, que lhes permitia calcular o abatimento em cada momento», descreve.

Um exemplo pouco falado: «quase todos já vimos cartas de navegar. São a projeção de uma esfera, do Planeta, num plano. Portanto, há deformações, sobretudo nas zonas de alta latitude. Para evitar desvios, Gago Coutinho fez um outro tipo de projeção, de tipo cónico, para reduzir os erros ao mínimo, e para ter uma escala praticamente constante. E antes de cada partida, fazia pré-cálculos de logaritmo para que quando estivesse a voar, pudesse obter os dados de navegação que precisava em poucos minutos. Se demorasse muito tempo a fazer os cálculos, como nos navios, assim que os terminasse estaria completamente fora da posição», acrescenta o almirante.

Rui Cabrita, de Tavira, ex-oficial de Marinha na reforma, refere ao barlavento que «esta iniciativa reflete uma maneira de ser dos marinheiros, dos homens do botão de âncora. Temos em permanência o gosto de cultivar os nossos melhores. Daí o empenho em honrar este homem. Repare que até há pouco tempo, o sextante ainda era utilizado a bordo. Agora, com os GPS e com todos os equipamentos modernos, julgamos que tudo isto vem das calendas. Mas não», lembra.

Fernando Esteves Franco, médico ortopedista, ex-diretor do serviço de Ortopedia e do Hospital de Faro, também apoia a iniciativa. «Gago Coutinho era uma personalidade do mundo. Basta lembrar como a sua viagem determinou as relações luso-brasileiras nessa altura e o entusiasmo com que foi recebido no Brasil. Pensamos que é bastante meritório» aproveitar a efeméride dos 100 anos e o Dia da Marinha para atingir o objetivo de atribuir o nome do patrono ao Aeroporto de Faro.

E qual o procedimento? «É mais simples do que parece. É uma decisão do governo. Mas para nós é muito importante que a região, através dos municípios e dos seus órgãos autárquicos, apoiem este projeto. Temos dado a possibilidade de entrarem na primeira carruagem deste comboio que está em marcha e não vai parar. Penso que Faro terá todo o interesse em apoiar, pois este não é um processo de manobra política nem de populismo fácil. Não queremos dar o nome de um político nem de um jogador de futebol. Queremos dar o nome de um homem de renome internacional, que representa a capacidade realizadora do povo português, que fez avançar o progresso da Humanidade, e que tem raízes no Algarve. Isso é prestigiante para todos. Se as autarquias não perceberem isto, eu diria que têm uma visão muito curta, apenas olham para o seu interesse imediato e não estão a ver o futuro. Custa-me muito não haver interesse por parte de algumas autarquias», sublinha Martins Guerreiro, que está otimista numa decisão favorável por parte da tutela.

Por outro lado, acrescenta Esteves Franco, «qualquer pessoa que chegue ao Algarve, que nós vendemos, e bem, como terra de sol e praia, poder encontrar uma referência cultural à figura que possibilitou toda uma nova era na navegação aérea, é algo extraordinário. E com isso podemos também traçar um paralelo com Sagres e com as viagens marítimas dos Descobrimentos».

Por fim, a questão que se coloca é: os algarvios querem abraçar esta causa? «Compreendo que haja alguma dificuldade em comunicar este projeto. Mas posso dizer que com uma simples divulgação nas redes sociais, já temos mais de 1500 pessoas que se associaram ao grupo», diz o médico. Martins Guerreiro acrescenta que «não é preciso convencer ninguém, basta que as pessoas não tenham preconceitos».

Raízes algarvias cimentam argumentos

Segundo o são-brasense Martins Guerreiro, oficial de carreira na Marinha e capitão de Abril, o facto de Gago Coutinho ter «raízes familiares algarvias, pai e mãe serem de Faro e de São Brás de Alportel» é mais um argumento de peso para que o histórico aviador venha a ser o patrono do Aeroporto de Faro.

«E não é uma questão do passado, como alguns críticos dizem. Os homens que fizeram avançar a ciência devem estar sempre presentes. Mal de um país que não tem essas referências, pessoas que fizeram avançar a Humanidade», sublinha.

«Gago Coutinho, para mim, foi sempre uma referência pela personalidade. Era bastante discreto enquanto pessoa. Não dava nas vistas, não era do género daqueles que quando vão a uma cerimónia, sentam-se na mesa ou na primeira fila. Era um homem de grande profundidade no seu raciocínio e inteligência», elogia.

«Depois de desenvolvermos esta ideia, verificámos que nas ex-Colónias, o Aeroporto de Lourenço Marques chamava-se Gago Coutinho e do da Beira chamava-se Sacadura Cabral. Houve, de facto, um reconhecimento em Moçambique onde ambos trabalharam, mas em Portugal não há, o que é estranho. É lógico, é justo e é correto que em Portugal haja infraestruturas aeroportuárias com os nomes destes dois homens».

Travessia é «Memória do Mundo» da UNESCO

O feito que constituiu a 1ª Travessia Aérea do Atlântico Sul mereceu o reconhecimento da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), que inscreveu os relatórios de Gago Coutinho e Sacadura Cabral no registo da «Memória do Mundo». Este programa tem o objetivo de proteger e promover o património documental mundial. Portugal tem dez registos inscritos.