DeVIR/CAPa convida a fazer «Travessia» na Horta da Areia

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Iniciativa cultural a três anos na Horta da Areia tem por objetivo a inclusão. «Travessia» é apresentada no domingo, no CAPa, em Faro.

Onde a cidade acaba e a Ria começa, há uma espécie de «terra de ninguém», à margem e fechada em si mesma, mas onde, apesar de tudo, muito se faz para derrubar a fronteira imaginária e também real imposta pela linha de caminho de ferro.

Quem o pode dizer é David Fernandes, que começou a trabalhar como voluntário na Fundação Vítor Reis Morais/ Centro Comunitário da Horta da Areia em 1996, quando ainda era estudante do curso de Educação e Intervenção Comunitária na Universidade do Algarve (UAlg), em Faro, num projeto de luta contra a pobreza.

Hoje é o responsável por aquele equipamento que tem vindo a criar «novas dinâmicas» num lugar onde vivem 160 pessoas, muitas das quais de etnia cigana. Fernandes faz uma visita guiada num local que à primeira vista, tem tudo para parecer intimidante.

«Não. O que faço é mostrar que as pessoas são simpáticas e são iguais a quaisquer outras, mas precisam de alguma atenção extra e de uma discriminação positiva, porque ninguém pediu para viver aqui nestas condições», começa por explicar.

Projeto da DeVIR/CAPa faz a «Travessia» da Horta da Areia. Iniciativa cultural a três anos tem por objetivo a inclusão no feminino. Projeto é apoiado pela Fundação Calouste Gulbenkian e pela Fundação «la Caixa» através da iniciativa PARTIS & Art for Change.
David Fernandes.

A grande separação «é o desconhecimento mútuo e o preconceito de parte a parte. Para haver mudança, todos têm de se envolver, procurar conhecer e sobretudo não julgar, porque é isso que nos leva aos preconceitos. Ter a humildade de reconhecer o diferente e colocar-se no papel do outro. Para quem está em situação de exclusão é muito difícil abrir-se ao exterior. Aqui, a cultura tem um peso muito forte. As pessoas têm a segurança do seu grupo e se não assumirem comportamentos diferentes, poderão não ter o apoio dos seus pares», diz, embora, «a grande incompatibilidade, possivelmente, é que a sociedade maioritária vive para uma carreira profissional. Neste tipo de comunidades dá-se muito mais valor à família. A vida profissional fica para último plano É uma questão de prioridades. Talvez, por isso, são obrigados a viver nestas condições».

Na verdade, «isto é o que poderemos considerar uma pequena aldeia». Ao contrário do que se pensa, «a comunidade cigana tem uma vida muito ativa. A maior parte faz trabalhos simples e informais, desde a apanha de bivalves, à recolha de ferro-velho e venda de carros em segunda-mão. Temos também alguns feirantes e há pessoas integradas em empresas de limpeza. Mas a verdade é que é difícil encontrarem emprego por causa do estigma. Dizer que se vive na Horta da Areia não fica bem. Temos algumas tentativas de inserir jovens no mercado de trabalho e os próprios preferem omitir essa informação. Sabem que à partida a morada não vai ajudar», afirma David Fernandes. Entrentanto, chega um jovem numa motorizada elétrica. «Trabalha na Auchan e gostam tanto dele que decidiram também dar emprego ao irmão», exemplifica.

O bairro está dividido em três sectores. Dois são «de alojamento de emergência». Pré-fabricados que remotam ao tempo dos retornados das ex-colónias. Já pouco resistem a 48 anos de ferrugem. «Está a ver isto? É miséria a mais!», diz uma das mulheres. O outro sector é de casas em alvenaria, que tem melhores condições, embora todas precisem de obras de manutenção.

«Estas construções em chapa, a maior parte delas, já não têm solução possível. Temos este ar das salinas que corrói o metal e não há forma de as restaurar», considera.
Uma das mulheres traz um molho de chá príncipe para oferecer ao «senhor David». À volta de casa de chapa, tem um jardim de ervas aromáticas. Os cães também já não atacam os forasteiros, porque foram alvo de um projeto de esterilização e vacinação entre associações de bem-estar animal e o município.

«No início, quando eu conheci este bairro, era muito fechado. Havia muita desconfiança, e acho que na verdade continuar a existir um estigma negativo em relação à Horta da Areia». Para isso tem sido fundamental o trabalho do Centro Comunitário, que também dá atividades de ocupação de tempos livres, psicologia, terapia da fala e ocupacional aos mais novos. «O nosso grande papel é criar novas dinâmicas positivas».

As crianças vão para a escola, frequentam o pré-escolar e infantários. Os utentes são também voluntários.

«A ideia do Centro Comunitário é cada um trabalhar para todos. Incutir uma ideia de entreajuda e solidariedade. Nós damos, mas também pedimos», o que também ajuda a amenizar algumas rivalidades e inimizades.

«Ajuda porque cria-se aqui alguma identidade de grupo, que é uma coisa complicada porque nem todas as famílias se dão bem. Mas ajuda a quebrar esse sistema. Faz com que as pessoas tenham mais abertura entre si».

«Quando é que vamos à escola?»

Há dois anos que decorre um projeto promovido pela associação DeVIR na Horta da Areia ao abrigo do programa PARTIS & ART for Change, financiado pela Fundação Calouste Gulbenkian e Fundação «la Caixa».

A ideia é juntar dois grupos: mulheres ciganas que vivem no Bairro da Horta da Areia e mulheres que há muito são espectadoras do Centro de Artes Performativas do Algarve (CAPa), em Faro, gerido por aquela associação cultural sem fins lucrativos.

David Fernandes não pouca elogios à iniciativa. «Sinto bastante orgulho nesse projeto que é dirigido exclusivamente às mulheres, porque sei que lhes diz muito. No sentido em que elas demonstram interesse, demonstram necessidade. Sei que lhes toca e que é muito pessoal». E justifica. «Não preciso de andar atrás das delas para lhes recordar que no dia seguinte há uma sessão de teatro. Não preciso de as empurrar. Elas próprias perguntam: quando é que vamos à escola?».


«Há várias componentes que são novas. O facto de ser um projeto apenas para mulheres, que acontece fora do bairro e que junta a parte artística e cultural. Está a ser um sucesso. Penso que, no final, resultará em pessoas mais autónomas e mais conscientes que também podem ter experiências diferentes e que existe vida além dos seus contextos familiares instituídos», naquela que é «uma comunidade tradicionalista. Faz com que se possam encontrar enquanto pessoas, que possam crescer e alargar horizontes», fora da bolha do bairro.

Além de uma segunda edição, «penso que faria todo o sentido um projeto dedicado aos homens, sobretudo aos jovens adultos, que não estejam a frequentar o ensino. Na comunidade cigana, o casamento é em idades muito jovens. Aos 18 ou 19 anos já não estão na escola. Acho que seria importante ter um projeto para eles que puxasse pela igualdade de género, porque as tradições que nos ligam ao passado são importantes, mas temos de andar para a frente».

E as novas gerações querem isso? «Sim, acho que existe vontade, mas é preciso criar oportunidades e dar-lhes ferramentas. Mesmo que sejam experiências-piloto. Não pode haver medo de falhar. Por vezes, as instituições têm algum medo de falhar quando lançam projetos sociais. As expectativas são baixas. E têm mesmo de ser. Mas tem de se experimentar. Se fizermos sempre o mesmo, os resultados são sempre iguais», conclui.

Câmara aguarda verba do PRR para o loteamento dos Braciais

Segundo David Fernandes, «as promessas são antigas» e já poucas pessoas têm esperança de vir a ser realojadas. Entretanto, as famílias vão crescendo, e há necessidade de se fazerem anexos abarracados junto aos decrépitos pré-fabricados. «De tempos a tempos, quando há eleições, fala-se de habitação e da Horta da Areia. Do que tenho visto, isso apenas aconteceu a quem a casa ardeu ou por qualquer outro motivo extremo. Se antes era difícil, penso que hoje será impossível».

Questionado sobre o projeto dos Braciais, que remonta ao tempo do autarca José Vitorino, a concretizar-se, teria que ter em conta alguns aspetos. «O critério de realojar toda a gente no mesmo espaço não é o melhor. Havendo um corte com este modelo de vida, teria de haver algum apoio de proximidade. Além disso, se pensarmos em inclusão, seria melhor pensar numa forma mais distribuida» e não na criação de um novo gueto.

Ouvido pelo barlavento, Paulo Santos, vice-presidente da Câmara Municipal de Faro, garante que o problema que se arrasta há quase 50 anos, tem os dias contados.

«O nosso Plano Municipal de Habitação prevê a construção de uma urbanização nos Braciais que vai acabar com o alojamento supostamente temporário dessa comunidade e também da comunidade cigana da Lejana. O projeto está feito e estamos a aguardar o financiamento ao abrigo do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). Logo que o tenhamos, vamos avançar imediatamente».

Para a zona do Bom João, está a ser elaborado um Plano de Pormenor «que vai permitir a requalificação de todos aqueles hectares que vão desde a antiga Fábrica Torres Pinto (em ruínas) até às instalações da FAGAR. Isso irá permitir realizar uma requalificação urbana, com uma forte componente habitacional, embora de índices mais baixos devido ao contacto direto com a Ria Formosa».

«Travessia» estreia já este domingo

Depois de um arranque conturbado devido à pandemia e ao falecimento do patriarca da comunidade cigana da Horta da Areia, que implicou o luto prolongado das participantes, José Laginha, diretor artístico da DeVIR/Centro de Artes Performativas do Algarve (CAPa) desafiou Pedro Alves, do teatromosca, ator e encenador com larga experiência em intervenção comunitária, para tomar as rédeas do projeto. O resultado chama-se «Travessia» e será apresentado ao público no domingo, dia 11 de dezembro, às 16 horas, com entrada livre.

O projeto coloca em interação dois grupos distintos: mulheres portuguesas ciganas, que vivem no Bairro da Horta da Areia, e mulheres que frequentam a programação do CAPa.
«Na verdade, não se conheciam de todo. Logo, o primeiro desafio foi promover encontros à distância através de vídeo, fotografia, audio e textos. Fui arrajando estratégias para se irem conhecendo através de correspondência anónima, para se descobrirem aos poucos. Uma estratégia de desvelamento suave, antes de virem pela primeira vez», explica Pedro Alves, e sem a pressão de terem de criar algo.

«Tentei que esse encontro fosse gradual, lento e tivesse algum mistério associado. Com o tempo, juntei um espólio que um grupo e o outro iam criando, mesmo sem perceberem muito bem o que eu estava a fazer. Recolhi muitas histórias, opiniões, desabafos, apontamentos e improvisações. Todos esses materiais compuseram um puzzle. Estes grupos têm horários diferentes, vivências diferentes, são muito distintos. Cada um é muito heterogéneo e as diferenças entre si são ainda maiores. Mas tentei fazer um mosaico não muito complexo e criar uma estrutura para esta performance que já estamos a ensaiar».

O espetáculo «começa com uma refeição. Um conjunto de pessoas que se encontra para celebrar, partilhar vivências e a partir daí vai-se expandindo para um discurso poético e não organizado narrativamente numa lógica sequencial. É uma espécie de espetáculo-poema no qual se fala de Faro, de arte, da vida, onde as mulheres falam de si. Esta aproximação entre os dois grupos traz uma grande valorização pessoal, permite-lhes derrubar algumas barreiras, descobrirem lugares e ideias próximas. Efetivamente é um projeto que precisa de ir além dos três anos. É um trabalho duro, muito complexo para chegar a resultados consolidados».

Pedro Alves tem uma vasta experiência em projetos que cruzam a intervenção social com as artes e a criação artística em contextos muito diferentes e complicados, na área metropolitana de Lisboa, em bairros desvaforecidos em com grupos de exclusão. Trabalhou com situações de toxicodependência e criminalidade em «zonas muito complicadas».

No dia a dia, a companhia teatromosta dinamiza um grupo de teatro de pessoas com deficiência e outro com séniores. Tem ainda «um trabalho consciente com crianças e jovens». E partilha da opinião de David Fernandes, responsável pelo Centro Comunitário da Horta da Areia.

«Conhecendo agora melhor esta realidade, penso que faria todo o sentido trabalhar com os homens e os jovens porque há questões que estão muito enraizadas. Trabalhando de forma segmentada, dificilmente conseguimos produzir mudança, inclusive em cada uma destas mulheres que depois de cada sessão voltam ao bairro e são confrontadas de novo com uma realidade, com um contexto, com visões que chocam com o que estivemos a trabalhar aqui. Regressam de novo a um quotidiano que é muito duro», opina.

E serão possíveis travessias fora do palco? «A exclusão é alimentada de parte a parte. Há rituais, ideais, valores e toda uma cultura que choca com outras bases da nossa sociedade. Entram em conflito. De certa forma, as comunidades ciganas que se fecham, acabam por erguer uma série de barreiras que fazem com que as travessias sejam muito difíceis e tumultuosas. Para esbater isso é preciso abordagens holísticas, de um lado e do outro, a começar pelas crianças. E ao mesmo tempo, tem que se dar formação aos adultos. Dar exemplos de ciganos e ciganas que tenham seguido outros caminhos que não o do analfabetismo, do desemprego e da exclusão. É preciso dar condições mínimas para as pessoas viverem as suas vidas. Aqui em Faro, mesmo reconhecendo todas as capacidades do projeto da DeVIR, não será apenas com este projeto que vamos resolver todos os problemas. Seria preciso algo mais profundo. Mas aqui o objetivo é abrir uma brecha na bolha e chamar a atenção para uma parte muito sensível, ou talvez, a mais frágil, que são as mulheres que têm de facto vidas muito duras», diz.

No próximo ano, o projeto vai passar para as mãos da estrutura Bestiário.

«A recomendação que lhes faria é que continuassem este trabalho de escuta. É fundamental ir ouvido e colocá-las a ouvirem-se mais umas às outras. Depois, o trabalho de edificação artística, seja de um filme, seja de um podcast, ou de um espetáculo, nascerá com muita facilidade porque elas são muito generosas. Ainda se nota muito que são dois grupos. É preciso dar tempo para seja um único e que haja uma fusão. A partir daí, seja o que for que irá nascer, nascerá de forma muito mais natural. Claro, há um prazo e uma espécie de pressão para criar e edificar um objeto artístico, através das artes performativas. Penso que temos de desvalorizar essa pressão. Nem todos temos que ser artistas ou criadores. Mas podemos estar em palco. Às vezes, só partilhar a presença é suficientemente forte. A recomendação é dar tempo, ter paciência para escutar e dar tempo», conclui.

O projeto DeVIR na Horta da Areia resulta de uma candidatura ao Programa PARTIS & Art for Change, promovido pela da Fundação Calouste Gulbenkian e pela Fundação «La Caixa», numa parceria com a Fundação Vítor Reis Morais/ Centro Comunitário da Horta da Areia e com o apoio da autarquia de Faro.

«Travessia» é uma criação participativa desenvolvida por Ana Matias, Ângela dos Santos, Ângela Maria dos Santos, Cristina Cantinho, Cristina Monte, Elisa Almeida, Genny Cabrita, Guiomar Figueiredo, Isabel Macieira, Isadora Justo, Manuelina Poeira, Maria Carolina Guedes, Maria Leonilde Santos, Marta Silva, Maria Vargas, Odete da Silva, Otília Fialho, Samaritana Lima, Sandrine Crisostomo, Sílvia da Silva, Sara Cruz, Tânia Monte, Vanda Santa-Rita, Vanessa António, com Pedro Alves (encenação), José Laginha e Marlene Vilhena (movimento).

A entrada é livre, mas está sujeita à disponbilidade da sala. É possível reservar o bilhetes por contacto telefónico (289 828 784 / 91 870 34 15).