COVID-19: «Não se esqueçam dos deficientes» pedem as instituições

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Lares residenciais fecharam portas ao exterior e quase todas as instituições tiveram de se reinventar por causa da pandemia da COVID-19. Atividades, terapias e apoio familiar realizam-se agora à distância.

São pelo menos 550 os utentes, a partir dos zero anos, que dependem do apoio da Associação Portuguesa de Paralisia Cerebral de Faro (APPC), que disponibilizava, até aqui, nove valências distintas, que englobam educação, saúde e atividade profissional.

«Na sede fechámos portas e todo o atendimento presencial. Encerrámos, mas temos equipas de diferentes áreas em contacto permanente com as famílias, que enviam instruções e vídeos de intervenções terapêuticas para serem realizadas em casa. Nos Centros de Atividade Ocupacional (CAO), as atividades são enviadas por email e as consultas são feitas por videochamada. Estamos sempre em contacto com os pais e todos os apoios como a alimentação e o transporte, continuam a ser prestados», garante ao barlavento Graciete Campos, diretora executiva da APPC há 12 anos.

Apesar disso, no Lar Residencial e na Residência Autónoma, as preocupações são acrescidas.

«Funcionamos com todas as normas de segurança, mas no Lar estamos em contacto físico com os utentes e é mais complicado. Implementámos um plano de contingência e já vamos na terceira atualização. Por norma, temos 25 pessoas, mas neste momento acolhemos apenas 12 porque alguns pais vieram buscar os filhos. Têm entre 19 e 28 anos. Há equipas de quatro pessoas em permanência no Lar, onde ficam durante sete dias. Depois descansam duas semanas e regressam. Não há visitas e ninguém entra. Não nos podemos esquecer que os deficientes são pessoas muito vulneráveis, têm muitos problemas respiratórios e estão em cadeiras de rodas. Alguns não se apercebem do que se passa, mas há outros que sentem falta da família, mesmo quando comunicam por telefone», explica a diretora.

Graciete Campos, diretora executiva da APPC há 12 anos.

Todos os utentes da APPC, pessoas em que a rotina e o tratamento regular são fundamentais, passaram a ver-se obrigados a estar confinados em casa. «A grande maioria tem estado a lidar bem com esta situação. Os pais pedem-nos muitas terapias e estamos a dar esse suporte. Queixas não temos tido porque se sentem acompanhados». Exemplo disso é a família Fernandes, um casal residente na Mexilhoeira Grande, concelho de Portimão, com uma filha menor e um filho de 19 anos, o André. O jovem sofreu de uma paralisia cerebral à nascença, que o torna 100 por cento dependente de outras pessoas, a nível físico e motor.

Num passado não muito distante, nos dias a que hoje chamamos «normais», a Cracep – Cooperativa de Reeducação e Apoio à Criança Excepcional de Portimão, levava o André de casa para a escola. Às quartas e sextas-feiras, contudo, a mãe levava-o à APPC, em Faro, para ser acompanhado por uma fisioterapeuta. Agora, cabe à mãe Rute Fernandes ajudar o filho nas terapias. «Ele agora está sempre em casa e requer muita atenção. A terapeuta dá-me muitas indicações e a APPC fornece material. Quando tenho dúvidas pergunto e temos sido muito bem acompanhados pela associação, mas esta é uma situação que me preocupa. Acho que estou a fazer o meu melhor, mas fica sempre a questão se será suficiente? Ele requer toda a minha atenção e é um grande desgaste psicológico para mim porque tenho outra filha e o pai está fora a trabalhar», conta ao barlavento.

Rute e André Fernandes, de Portimão.

Já a nível psicológico, Rute Fernandes afirma que o filho está mais introspetivo, até porque adorava ir para a escola. «Está preocupado com a situação e tem muitos macaquinhos na cabeça. Mas vamos conseguindo ultrapassar, até porque somos uma família unida», diz.

A gestão mais complicada, neste momento, é a parte financeira. De acordo com a matriarca, ambos os filhos «faziam refeições na escola e o meu marido almoçava fora porque o patrão assim o permitia. Agora estamos todos a fazer refeições em casa e ele é o único que tem emprego. Só temos um rendimento porque tive que desistir de trabalhar, há três anos, porque já ia sendo muito difícil articular as coisas com o André. Se o meu marido não tivesse mantido o emprego, não sei mesmo como seria a nossa vida», desabafa.

Uma preocupação partilhada também por Graciete Campos. «Há carências nos nossos utentes e nas suas famílias, sobretudo na compra de bens alimentares. Para esses casos também damos a nossa ajuda. Reencaminhamos as situações para refeitórios sociais, Cruz Vermelha e juntas de freguesia para lhes ser fornecido apoio alimentar», diz. A diretora executiva da APPC conclui, com uma mensagem: «peço apenas que não se esqueçam dos deficientes».

AAPACDM estimula culinária e pintura à distância

Na Associação Algarvia de Pais e Amigos das Crianças Diminuídas Mentais (AAPACDM) de Faro, que dá resposta direta a 200 famílias, também o plano de contingência obrigou a uma estruturação no funcionamento das atividades e terapias. Com os serviços suspensos, foi preciso uma readaptação. «Houve a necessidade de se criarem novas respostas para os nossos jovens e para as suas famílias, que permitisse uma continuidade das suas rotinas, de forma a que não haja uma perda total, ou uma redução muito grande em termos de autonomia, independência e de aprendizagem», começa por afirmar ao barlavento, Sandra Gonçalves, diretora de serviços da associação.

Sandra Gonçalves, diretora de serviços da Associação Algarvia de Pais e Amigos das Crianças Diminuídas Mentais (AAPACDM) de Faro.

«Pusemos mãos à obra e agilizámo-nos muito rapidamente porque o impacto nestes jovens também surge mais rápido do que em nós. Começámos por fazer uma caracterização nova das famílias perante esta pandemia, de como tinham sido reestruturadas, se havia mais membros confinados na mesma casa e se os rendimentos continuavam os mesmos. Esta foi a primeira fase», recorda.

Depois, através do grupo privado da associação e das famílias no Facebook, «começámos a publicar atividades para os nossos jovens irem realizando. Desde o primeiro dia que usámos essa ferramenta para lançar desafios e para que não sentissem o impacto do isolamento. A preocupação foi a de lembrar que estamos aqui e que continuamos a preocuparmo-nos».

Agora, já com todos os técnicos organizados, há um horário virtual todas as semanas. «Temos atividades que são lançadas de manhã e à tarde. Os pais têm acesso e podem escolher quais querem participar durante a semana. Isto através de vídeos com desafios, criados por toda a equipa, com propostas que acabam por ir ao encontro da atividade física, terapia ocupacional, educação social, expressão plástica, reciclagem e até culinária. Eles depois dão resposta através da mesma rede social e mostram o que conseguiram fazer», explica a diretora.

Além disso, de forma a mitigar o distanciamento social e as preocupações, está a ser feito acompanhamento psicológico e a promoção de interação com várias pessoas através de outras redes sociais. Nas palavras de Sandra Gonçalves, «tem sido muito benéfico».

Ainda segundo a diretora, a maior surpresa com que se deparam todos os dias são as carências económicas.

«Famílias que estavam bem estruturadas, sem qualquer restrição financeira, hoje têm muitas dificuldades».

Para os mais carenciados, a AAPACDM tem um outro serviço de apoio, com a entrega semanal de cabazes alimentares em casa.

«Entretanto, iniciámos também a realização e entrega de refeições quentes, tudo organizado e feito pelos colaboradores. Isto porque começámos a perceber que a carne e o peixe são um problema. Não há dinheiro para comprar estes alimentos mais caros, mas tão importantes na alimentação. Não dá para virar costas a esta situação», sublinha.

Quanto ao futuro e o pós-pandemia, a diretora faz algumas previsões. «Na deficiência moderada a profunda, penso que teremos de fazer um trabalho com os técnicos para a desmistificação do problema, também para aliviar o impacto que estas semanas vão ter. Estamos também a preparar um estudo para percebermos qual será a repercussão da COVID-19 e deste isolamento preventivo. Esta é uma população de risco e muito vulnerável, logo as consequências serão maiores». De qualquer forma, a associação «está preparada para se reinventar, reconstruir e dar novas respostas face àquilo que for essencial e necessário», conclui Sandra Gonçalves.

ACASO investe 17 mil euros e aumenta ordenados

A Associação Cultural e de Apoio Social de Olhão (ACASO), independentemente das outras valências que abrangem todas as faixas etárias, tem duas modalidades de apoio a deficientes, o Lar Residencial e os Centros de Atividade Ocupacional (CAO). O plano de contingência surgiu cedo, uma vez que há um médico a trabalhar a tempo inteiro na instituição. O mais importante, contudo, é ensinar os recursos humanos e uma monitorização atenta.

«Não basta fazer um plano. É essencial dar formação às auxiliares, monitoras, fisioterapeutas e a todos os que trabalham em contacto direto com os utentes. Isso e vigiar se todos os dias o plano está a ser cumprido. Talvez por isso, até este momento ainda não tivemos qualquer problema. A formação ajudou muito», refere o presidente António Pina, ex-Governador Civil e ex-presidente da Região de Turismo do Algarve.

Também na ACASO, os dois CAO deixaram de funcionar e os utentes estão em casa com as famílias. No caso do Lar Residencial, onde vivem cerca de 40 utentes, a primeira medida foi encerrar portas a visitas. Os que estão ainda lúcidos deixaram de passear no exterior, mas são garantidos passeios dentro das instalações. A isto junta-se «um programa informático para tablets, que já tinha sido adquirido antes da pandemia, que se tem tornado útil para poderem falar com as famílias. Trata-se de uma aplicação pensada para idosos», explicita António Pina.

António Pina, presidente da Associação Cultural e de Apoio Social de Olhão (ACASO).

O pessoal técnico que trabalha no Lar, de acordo com presidente da instituição olhanense, faz uma escala conhecida por «rotatividade de espelho. Os turnos são de 12 ou 14 dias. Há um grupo que está em casa e outro a trabalhar, que se vão alternando».

E «de forma a incentivar os que estão na linha da frente do perigo, iremos pagar a todos mais 50 euros por mês. É difícil, é um esforço porque deixámos de ter algumas receitas, mas temos de incentivar até porque a equipa tem sido excelente», garante.

No Lar Residencial houve três suspeitas de COVID-19, no entanto, todas se revelaram infundadas. Ainda segundo revela Pina, na segunda-feira, dia 20 de abril «a equipa que tem feito os testes ao novo Coronavírus no Algarve, veio à instituição para testar os nossos idosos e os deficientes. Não nos podemos também esquecer que temos deficientes idosos e lá dentro vive-se um minuto de cada vez».

Apesar disso, e de forma a assegurar todos os cuidados de saúde, a ACASO, no mês de março investiu quase 17 mil euros em material de higiene e em Equipamentos de Proteção Individual (EPI).

«Gastávamos cerca de 3000 euros. Somos 255 trabalhadores e uma grande instituição. É uma diferença muito grande, mas tivemos de adquirir coisas que habitualmente não o fazíamos. No Lar, quando se dá banho ou se muda uma fralda, cada técnica põe duas luvas em casa mão. Estamos a gastar, só no Lar, quase 400 luvas por dia. Isto obrigou-nos a ter um grande stock. Agora estamos folgados e não temos falta até porque a Câmara Municipal de Olhão nos ofereceu também um número elevado de máscaras laváveis e de viseiras», diz.

Por fim, questionado sobre o cenário pós-pandemia, o presidente da associação prevê que, «antes de os utentes regressarem aos CAO deverão ser feitos testes de despiste. Depois, começaremos a regressar à normalidade, sempre com muitos cuidados. Não os iremos admitir sem haver garantia de que não há infeções porque é impossível explicar a esta população que, por exemplo, têm de estar a dois metros de uma pessoa. Não temos previsão de abertura, estamos preocupadamente atentos e vamos seguir as regras da Saúde e da Segurança Social».