COVID-19: Grupos de Facebook ajudam centenas em Portimão e Faro

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Criados no início da pandemia do novo Coronavírus, os grupos na rede social facebook reuniram centenas de pessoas dispostas a ajudar com bens alimentares, equipamentos de proteção individual, computadores para crianças, roupa e até apoio psicológico. Um destes grupos será em breve formalizado associação sem fins lucrativos.

Na capital do Algarve, o grupo «Vamos todos ajudar Faro» tem pouco mais de um mês, contabiliza 3400 membros e já conseguiu oferecer ajuda a 51 famílias e 211 pessoas.

Gabriel Martins, um eletricista e cozinheiro de 30 anos, desempregado devido à pandemia, está por trás da criação do mesmo. Ao barlavento, conta como surgiu a ideia e como estão a ser geridos os pedidos de ajuda.

«Tudo começou com um pedido de oito pães, por parte de um ex-recluso, que saiu da prisão há pouco tempo, e me pediu ajuda, perto de minha casa. Eu tinha vindo das compras, comprei-lhe os pães na padaria e dividi o que tinha com ele. No final do mês de março criei um grupo no Facebook chamado Vamos todos ajudar o Jorge e foi aí que comecei a ver a necessidade de chegar a outras pessoas. Os problemas eram reais e faziam doer o coração e foi assim que o nome do grupo foi alterado», recorda.

«Isto começou com um intuito muito específico e está a tornar-se gigantesco em apenas quatro semanas. Recebemos dezenas de mensagens e pedidos de ajuda por dia. Isto porque quem quer entrar no grupo responde logo a duas questões para sabermos se é alguém que precisa de ajuda ou se pretende ajudar. A grande parte das carências que nos chegam são por falta de bens alimentares. Temos muitos pais com filhos que ficaram desempregados e não têm dinheiro sequer para pagar a renda. O maior agregado familiar que temos são 10 pessoas na mesma casa», revela.

Gabriel Martins.

De forma a tentar chegar a todos, o voluntário refere que há já um call center disponível e que faz diretamente as chamadas de forma a haver uma pequena triagem.

«É impossível irmos a casa de todas as pessoas ver o estado em que se encontram, então fazemos uma série de perguntas. Depois as entregas dependem dos bens que temos e que nos são doados, mas costumam ser ou de dois em dois dias, ou de três em três».

Doações que chegam, em grande parte, de forma anónima. «Mas temos também, por exemplo, uma imigrante que todas as semanas nos entrega 300 ou 400 euros, que nem sabemos como chegou ao grupo. Temos todo o tipo de doações, inclusive por parte de pessoas de etnia cigana com maior poder de compras. E chegam de toda a parte, inclusive da Suíça. No grupo vamos fazendo apelos com o que é necessário porque para funcionarmos precisamos mesmo destas doações».

Questionado sobre como está a correr o projeto, que conta já com 10 pessoas na equipa de gestão, Gabriel diz que «está a correr muito bem e sentimo-nos todos realizados. Isto sempre foi a minha missão. A vida deu-me muitas pedras ao longo do tempo, eu usei-as para construir um castelo que é esta causa».

E para o futuro o grupo irá continuar mesmo com o fim da pandemia? A resposta do voluntário é clara: «isto está na fase inicial, as expectativas são muito grandes».

Histórias «duras e chocantes»

No grupo «Vamos todos ajudar Faro», organizado por Gabriel Martins, os pedidos de ajuda chegam por parte de todas as faixas etárias e classes sociais, mas há histórias que marcam mais os voluntários.

«Uma que me tem tocado muito é uma mulher toxicodependente, com problemas de saúde graves. Tem 40 anos e pesa 39 quilos. Já lhe levámos roupa e cozinhamos com ela regularmente. Além disso há uma voluntária psicóloga no grupo que a está a ajudar. Há também outra, de uma mulher ligada ao mundo das artes, com dois filhos pequenos. Estava habituada a um mundo completamente diferente. Quando fomos à casa dela, abrimos o frigorífico e as prateleiras estavam vazias. Ela deixou completamente de viver e estava aflita porque a última refeição que tinha confecionado para as crianças foi uma sopa com pele de frango porque não tinha mais nada», revela ao barlavento.

Mas há também o reverso da medalha e histórias positivas. «Eu e outra voluntária fomos já convidados para sermos os padrinhos de uma bebé que está quase a nascer» acrescenta.

Grupo será associação

Nasceu há um mês o grupo «Vamos todos ajudar Faro» e agora prepara-se para se tornar numa associação. O domínio do sítio da Internet já foi comprado e a burocracia está a ser tratada com uma advogada.

«Será uma associação sem fins lucrativos e está tudo em andamento. Já temos a sede e fizemos agora uma parceria com uma empresa de limpezas que fará a desinfeção e limpeza do espaço. Já temos tintas e pintores que se ofereceram para realizar esse trabalho».

«O espaço era um antigo café e temos ainda um armazém, que será para a roupa, que foi cedido por outra voluntária. Futuramente, na sede pretendemos servir refeições e confecioná-las. A ideia é fazer uma cantina social para pessoas já referenciadas. Entretanto já recebemos também doações do Zoomarine e da Maxmat. Já temos dois fogões e arcas congeladoras, tudo com doações. Depois estamos a criar parcerias. Já falámos com o Banco Alimentar do Algarve e vamos poder contar com eles. Estamos em contactos com o presidente da Câmara Municipal de Faro, Rogério Bacalhau temos uma padaria que nos dá o pão fresco e uma empresa que nos cede o combustível», refere Gabriel Martins, fundador do grupo, ao barlavento.

Computadores usados ganham nova vida

Com a pandemia, surgiram também novas formas de ensino à distância. Dada a crise económica que se está a instalar, muitos agregados familiares viram um corte nos rendimentos, e nem todas as famílias têm a possibilidade de comprar equipamentos informáticos ao filhos.

Foi nesta conjuntura que nasceu mais um grupo no Facebook, dentro da rede, focado no concelho de Portimão, o «Computador Solidário – #computadorsolidário», por parte do casal Luísa e Pedro Costa, que já conseguiram ajudar uma dezena de crianças.

Pedro Costa.

«Enquanto empresários de restauração que somos, temos o espaço fechado e temos dois filhos em casa. Deparámo-nos com situações de pessoas amigas que estavam com dificuldades porque os filhos precisavam de computadores e não tinham possibilidades financeiras para fazerem esse investimento agora. Lembrámo-nos que tínhamos equipamentos em casa, parados numa gaveta, que já tinham sido usados pelos nossos filhos. Decidimos ver se estariam em condições de serem reparados e de os podermos doar. Encontrámos o nosso parceiro, a POS Informática, em Portimão, que nos começou a ajudar sem cobrar nada. Foi daí que surgiu a inspiração de fazermos algo maior e de ajudar mais pessoas», começa por contar Pedro Costa.

Assim, dentro do projeto há então três vertentes. «Na página do Facebook reunimos as pessoas interessadas em doar equipamentos usados e recebemos os pedidos de quem mais precisa. Recolhemos o equipamento, levamos ao parceiro e se tiver reparação, entregamos logo. Temos tido algumas pessoas que se dirigem a nós a dizerem que têm equipamentos avariados».

«Nesses casos, direcionamos também ao nosso parceiro que os recebe com a indicação que são por parte do Computador Solidário. Agora temos ainda outra vertente que é a de tentar encontrar parceiros que consigam valores baixos para aquisição de computadores. Será mais uma via para ajudar as famílias que não possam fazer um grande investimento. Temos já dois parceiros e em breve vamos publicar na nossa página essas opções», acrescenta.

Já para a esposa, realizar um projeto destes é algo que vai além da solidariedade.

«Recebemos, e média, cerca de 100 pedidos de ajuda. Neste momento já entregámos 10 computadores e temos cinco a serem reparados que também serão doados».

«As pessoas ficam extremamente agradecidas e a verdade é que temos dois filhos que, felizmente, têm tido condições acima de muitas crianças. Embora neste momento também estejamos em layoff e com muitas incertezas, o que mais quero é que as crianças tenham oportunidade, que esta sociedade as saiba tratar bem, que elas percebam o valor da solidariedade e que sejam seres humanos corretos e solidários uns com os outros».

Pedro Costa acrescenta: «estamos a fazer aos outros aquilo que gostávamos que fizessem pelos nossos filhos, por nós».

«COVID Marafade» junta makers e boa vontade

«COVID Marafade» é o grupo que reúne vários projetos de solidariedade, mais centralizados no município de Portimão. Foi criado após o decreto do estado de Emergência nacional e hoje contabiliza mais de 1300 membros.

Tudo começou com um pedido de acetatos, para a criação de viseiras, onde dois colegas acabaram por se reunir e por se desafiarem a fazer algo mais abrangente.

«Em pouco tempo, o grupo teve muita adesão, com várias iniciativas que se agruparam. O COVID Marafade é uma plataforma que coordena vários pequenos projetos que existem na comunidade. Não há uma pessoa responsável, porque o que representamos é o fruto de várias projetos que vêm ao nosso encontro e que procuram ajuda para que se torne exequível. É isso que tentamos fazer», diz ao barlavento uma das impulsionadoras do coletivo, que por esta razão, pediu anonimato.

Ainda segundo a mesma fonte, ao grupo chegam pedidos de ajuda por parte de todo o Algarve, mas especialmente do Barlavento, uma vez que a maior parte dos membros são dessa zona.

Uma vez que a rede está organizada numa só plataforma, «conseguimos dar respostas com maior facilidade», explica.

«Os principais pedidos de ajuda que nos chegam são relacionados com a falta de computadores para as crianças e viseiras. Damos alguma assistência a pessoas que têm dificuldades ao nível alimentar, mas sempre em conformidade com as autarquias. Acho que o concelho de Portimão, no que toca às carências alimentares, tem conseguido fazer o seu papel e dar respostas. Houve uma altura, por exemplo, que foi uma loucura no pedido de máscaras, álcool gel e viseiras. No total, já entregámos mais de 3000 viseiras», contabiliza a administradora do grupo.

Um dos projetos que impulsionou a rede foi o grupo «Makers de Portimão», criado pelo professor de Informática do Agrupamento de Escolas Poeta António Aleixo Nelson Vieira em parceria com Henrique Encarnação, técnico do Centro Auto Feu Vert e o enfermeiro de Medicina Interna, da unidade de Portimão do Centro Hospitalar Universitário do Algarve (CHUA), André Reis.

Henrique Encarnação.

«Na escola tenho uma impressora 3D e algum material e na altura, houve um maker do concelho de Faro que me contactou a perguntar se estava interessado na produção de viseiras. Pedi autorização ao conselho diretivo e predispus-me a criar um grupo em Portimão com intenção de procurar e angariar mais makers. Entretanto uma amiga que trabalha no hospital informou-me que estavam com escassez de material, nomeadamente viseiras. Fui ao hospital e apresentei o modelo. O chefe de enfermagem gostou da ideia e começámos assim a fazer as primeiras e a ajudar localmente, logo na primeira semana do estado de Emergência. Depois entrámos no COVID Marafade e agora trabalhamos como um», conta o professor.

Hoje são seis os makers a produzir, no concelho, e no total entregaram já cerca de 1500 viseiras a diversas entidades locais: hospital, zona de comércio e mini comércio, mercado, instituições, creches e escolas.

Nelson Vieira.

Questionado sobre as atuais necessidades de Equipamento de Proteção Individual (EPI) do Hospital de Portimão, o enfermeiro André Reis refere que «em termos hospitalares, como em quase tudo, temos de usar máscaras cirúrgicas. Viseiras só em serviços diretamente ligados à COVID-19 e aí também há uma máscara própria obrigatória. Temos de ver as coisas com uma perspetiva, somos um hospital pequeno com 1000 enfermeiros. Ao utilizar todos os EPIs de forma correta, não há material que seja suficiente, até porque numa fase inicial ninguém estava preparado e o confinamento foi precisamente para nós, profissionais de saúde, nos prepararmos para o que poderia vir. Foi exatamente assim. Hoje temos material, mas houve alturas em que foi complicado de gerir o uso de EPIs. Agora, felizmente, há material suficiente para trabalhar».

André Reis.

Além da produção das viseiras, 800 fitas também já foram entregues aos profissionais de saúde do concelho. Isto porque, segundo explica o enfermeiro, «as máscaras fazem lesões atrás das orelhas com usos de oito a 12 horas».

De acordo com o professor, inicialmente, a produção de uma viseira demorava cerca de duas horas e meia. Depois de alguma investigação e melhorias na produção, o tempo foi reduzido para 55 minutos.

Um recorde que Henrique Encarnação já conseguiu bater para 40, produzindo assim cerca de 25 diariamente. Para o futuro, os três colegas garantem que o grupo dos makers será para continuar.

Dentro da rede «COVID Marafade» existe ainda mais um projeto, este também impulsionado por uma profissional de saúde, que embora esteja a trabalhar atualmente em Lisboa, realizou o seu estágio no Hospital de Portimão.

«Trabalhei cinco meses do ano passado no hospital com muitos profissionais incríveis. Uma das melhores médicas que conheci, em conversa comigo, desabafou que a questão das refeições não era fácil na altura da COVID-19 devido aos constrangimentos. Aqui em Lisboa estava sempre a assistir a ofertas de múltiplos restaurantes a hospitais. Perguntei-me mais uma vez, como me perguntei ao longo do estágio, porque é que nunca ninguém se lembra do Algarve exceto nas férias? Porque é que tudo chega mais tarde, ou às vezes até nem chega? Esta questão da desigualdade e a discrepância a nível de recursos foi um choque durante a minha estadia no Algarve. Lembrei-me assim de tentar arranjar refeições para os profissionais que estão ligados ao combate da doença, como um gesto simbólico», recorda.

Nasceu assim o projeto «Sem Alimento não há Salvamento». A médica, que também pediu anonimato ao barlavento, contactou vários restaurantes locais e 10 acederam positivamente ao seu pedido (O Viriato, Borda do Cais, La Cucina di Marta, 3B´s, Refrisete, Charneco, Páteo das Pizzas, Alvor Wine, Luna Sol, A Cozinha e NoSolo grupo)

Conceição Vera Cruz.

Foi então que entrou na rede Conceição Vera Cruz, que coordenou o projeto desde dia 6 de abril até 3 de maio.

«Sempre fui voluntária e ofereci-me logo para durante os 30 dias ir recolher as refeições e entregá-las aos 14 profissionais do 6º piso do Hospital de Portimão. Criámos uma tabela com uma escala diária e um dos restaurantes é responsável pela confeção dos alimentos para o almoço», diz a voluntária.

Apesar do projeto ter findado com o levantamento do estado de Emergência, para o futuro, «se existir outra vaga, iremos lançar novamente a iniciativa, mas possivelmente com outros restaurantes», explicita.

Ainda com a coordenação da mesma voluntária, surgiu também um outro projeto dentro do «COVID Marafade», denominado «Pontos Solidários». O objetivo? Confecionar cógulas, cobre-botas e até pijamas cirúrgicos para serem entregues a lares, serviços comunitários e ao hospital.

São cinco costureiras (Paula Bizarro, Arminda Mourão, Conceição Beirão e Valentina) e um costureiro (Marco Neto), que no total já produziram «111 pijamas cirúrgicos, uma grande quantidade de cobre-botas e pelo menos mais de três centenas de cógulas. Tudo possível graças ao Agostinho da Lauret-Confeções – Fardas e Uniformes, em Portimão, que tem cortado gratuitamente os tecidos. Da minha parte fico com a função de intermediar os pedidos entre os profissionais de saúde e os voluntários e o de entregar o material», conclui Conceição Vera Cruz.

Alguns projetos já terminaram, mas a verdade é que o trabalho solidário e voluntário, no terreno e online, é para continuar.