COVID-19: Futebol, religião e estrangeiros aumentam casos no Algarve

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Há surtos de COVID-19 nos escalões mais jovens (sub-23) de várias equipas de futebol do Algarve. As celebrações de cultos religiosos e a população estrangeira são pontos críticos na atual situação da pandemia na região, que têm dado «preocupação» às autoridades de saúde.

A informação foi avançada pela delegada regional de saúde, Ana Cristina Guerreiro, na conferência de imprensa de balanço da situação pandémica na região algarvia, realizada hoje, sexta-feira, 13 de novembro.

No que toca à perspetiva da evolução, a análise da situação epidemiológica «não está muito diferente de há duas semanas. Temos tido alguma estabilização. Estamos em sintonia com todo o país, sendo que o Algarve está com uma situação bem mais confortável»

«Ao dia de hoje há 3803 casos confirmados cumulativos, 1245 ativos, 2562 em vigilância ativa, 39 óbitos, 129362 infirmados e 2519 em vugilância ativa. Reportámos hoje à DGS 82 novos casos. Ontem tivemos 86».

Numa altura em que metade do Algarve está no mapa dos concelhos de alto risco de transmissão da COVID-19, Ana Cristina Guerreiro considera que «temos uma situação privilegiada. O indicador que é o utilizado de número de casos novos nos últimos 14 dias por 100 mil habitantes, no global da região, não atinge o valor que é estipulado pelos peritos e pelo governo, que são os 240 casos por 100 mil habitantes. Não atingimos esse valor».

«Em relação aos surtos mantemos casos positivos nas instituições já confirmadas na semana anterior. Estão em processo de recuperação. Os casos ativos são cada vez menos», contabilizou.

No desporto, a pandemia de COVID-19 afeta clubes como o Sport Lisboa e Fuseta, Clube Marítimo Olhanense, Ginásio Clube Olhanense, Futebol Club de São Luís e Internacional Club Almancil.

No total estão identificados, até agora, 31 casos nestas coletividades, a maioria (dois terços) no emblema do concelho de Loulé.

A delegada revelou ainda que a incidência é maior nas equipas de sub-23, onde jogam os atletas mais jovens, que depois das partidas «se relacionam, fora do relvado, com outros atletas de outros clubes. Acabam também por envolver as equipas técnicas, que têm elementos mais velhos e em que os casos acabam por gerar maior preocupação» e quadros menos leves de doença.

Mas, segundo alertou a responsável algarvia, o problema não se cinge ao desporto. «Temos alguns casos relacionados com cultos religiosos de várias religiões, em que as pessoas estão num espaço fechado, com maior proximidade do que deviam e que cantam e falam alto. A doença transmite-se nesses momentos. O canto é uma atividade de risco», advertiu.

Um exemplo registou-se na Igreja Evangélica Assembleia de Deus – Ministério Rocha Eterna Portimão, num surto onde já foram identificados 16 infetados, de Portimão e Lagoa, «mas o número real de casos, eventualmente, será maior».

Já em Faro e Olhão, registaram-se até agora 18 infeções na Igreja Evangélica de Filadélfia. Em comum, o facto de serem «religiões que são muito frequentadas também por população de etnia cigana», explicou Ana Cristina Guerreiro.

Estrangeiros «desconhecidos do sistema» penalizam o Algarve

Uma importante fatia de novos casos de COVID-19 dos últimos no Algarve dias prende-se com pessoas de outras nacionalidades.

Segundo revelou Ana Cristina Guerreiro, «tivemos alguns casos no Parque de Campismo de Alvor. É o surto mais recente. Estão relacionadas cerca de 100 pessoas, com 13 casos conhecidos até agora, em pessoas maioritariamente estrangeiras. Poderão vir a ser mais, estamos a tratar desse assunto e a fazer muitos testes».

Para a delegada regional de saúde, os critérios poderiam ser diferentes. «Numa forma geral, o Algarve tem uma população equivalente ao Amadora- Sintra e até podíamos ser olhados dessa maneira, como um todo, sem dividir por concelhos».

Isto porque «ao dividir, temos situações de concentração de alguns casos e os concelhos que tiveram essa concentração foram penalizados porque atingiram esse valor, esse critério que foi estipulado. Se os critérios são discutíveis? Na minha opinião são. Podem ser melhorados. Penso que também estamos todos (organismos nacionais e regionais) interessados nisso e eventualmente iremos ter um aperfeiçoamento deste cálculo em situações futuras», disse a responsável.

Para a delegada regional de saúde, o Algarve devia ser considerado como um todo. «É uma das hipóteses, mas existem outras questões como a concentração de casos em instituições e lares, por exemplo, que penalizou o concelho de São Brás de Alportel».

«Temos cá muitos estrangeiros residentes que são desconhecidos do sistema. Alguns já têm a sua residência oficial, mas muitos deles não e temos uma percentagem muito grande de casos. Por exemplo, este último surto em Alvor praticamente são todos estrangeiros, nem número de utente do Sistema Nacional de Saúde (SNS) têm», detalhou.

«Este olhar sobre esta questão dos estrangeiros penaliza muito, por exemplo, Vila do Bispo, onde 70 por cento dos infetados são estrangeiros, cerca de 22 casos. Albufeira e Portimão já têm muitos estrangeiros infetados, talvez 30 por cento dos nossos casos infetados, é significativo e não estão contabilizados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) como residentes. Essas pessoas entram no denominador porque são casos positivos e não estão registados», sublinhou.

António Miguel Pina, presidente da AMAL – Comunidade Intermunicipal do Algarve e da Câmara Municipal de Olhão, secundou as palavras da delegada regional e lembrou que «estamos a viver uma pandemia, e as pessoas vão contar como caso no sítio onde estão, é lá que apresentam risco, é lá que estão a respirar para dentro e para fora o vírus».

O autarca explicou que «os estrangeiros contam cá para a pandemia porque estão cá. Isto veio trazer a descoberto um problema que temos há anos e reclamamos. É que o Algarve não pode ser visto apenas pela população residente, dos 450 mil habitantes. O Algarve é visto dessa forma em tudo e também quando são feitos investimentos, quando são transferidas verbas e quando são estruturados os serviços de saúde».

Para Pina, «o Algarve tem que ser olhado como uma região que tem, certamente, mais 20 ou 30 por cento de população que está cá, que não consta oficialmente, mas que está cá. Tenho quase a certeza que em nenhuma outra região do país isto se verifica. E é isso que reclamamos».

O responsável da AMAL informou ainda que na última reunião do organismo, decorrida ontem, quinta-feira, 12 de novembro, «onde Jorge Botelho [Secretário de Estado da Descentralização e da Administração Local] fez questão de estar presente, decidimos que vamos pedir à Direção-Geral de Saúde e ao governo que haja um fator ponderador relativamente ao Algarve para poder incorporar, no denominador da população, outro número».

Por certo, «andará na casa dos 25/30 por cento a mais. Não podem contar só para os casos, estes estrangeiros. Esta população internacional que aqui reside, que se calhar são 100 ou 150 mil, também têm de contar de outra maneira» para a aplicação das medidas disse António Miguel Pina.

«Os números de estrangeiros infetados, que contam para o denominador, mas não estão registados no INE, levam-nos a acreditar que se fossem considerados, como propomos, muitos concelhos que hoje aparecem nesta listagem de alto risco, não estariam», acrescentou.

«O Algarve está a ser prejudicado pela forma como é feita a contagem da população efetiva no Algarve, mas é prejudicado há anos, não é de agora. Até no que diz respeito aos fundos comunitários, se contabilizássemos com essa população não estávamos acima dos 75 por cento. Somos prejudicados há vários anos, por vários domínios, por não ser considerado a população que vive no Algarve, Vila do Bispo, Tavira, Albufeira e Portimão provavelmente não estariam na lista», concluiu.

«Escolas não são locais de transmissão»

Um dos grandes motivos de preocupação para esta segunda vaga da pandemia passava pelo regresso às aulas. De facto, explicou Ana Cristina Guerreiro, «as escolas são sempre uma preocupação. Temos bastante escolas com casos esporádicos, isolados. Quando acontecem em casos de alunos até ao 2º ciclo, naqueles alunos que não usam máscara, costumam implicar a turma ir para casa, o que faz um impacto muito grande a nível escolar e na sociedade em geral, porque obriga a que os pais fiquem em casa com eles».

A delegada regional de saúde detalhou que «temos cerca de 86 casos em 50 escolas dispersas pela região. Destes, 72 são em alunos e 14 em profissionais, como professores e auxiliares. Surtos em escolas não têm acontecido. Às vezes acontecem entre irmãos e alunos que se relacionam em outras atividades, fora do contexto escolar. A nossa análise é que as escolas não são locais de transmissão. Têm sido muito poucas as pessoas infetadas neste meio, normalmente a transmissão dá-se  em relações familiares».

«Barulho e espuma da F1» passou sem casos a registar

Segundo o presidente da AMAL – Comunidade Intermunicipal do Algarve, António Miguel Pina, «não temos conhecimento de nenhum surto derivado da Fórmula 1, além dos 14 casos já reportados da equipa técnica e acompanhantes que estiveram numa fase pré-COVID durante a organização». De todos os que assistiram nas bancadas, segundo o autarca de Olhão, «temos conhecimento de zero casos».

Pina aproveitou ainda para deixar bem vincado que «já passou o barulho e a espuma, mas para a história da COVID-19 o que vai ficar é que da Fórmula 1 resultaram zero casos. Lembram-se de toda a confusão gerada? Aqui, tivemos zero casos. Para a história fica que tivemos zero casos na região derivado à assistência na Fórmula 1», sublinhou.