COVID-19: ARS Algarve reforça o apoio psicológico

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Ansiedade, depressão e ataques de pânico são sintomas que têm vindo a aumentar desde o início da pandemia. Administração Regional de Saúde (ARS) do Algarve está a reforçar a resposta à população e aos profissionais de saúde.

Durante o primeiro confinamento, em março último, a ARS do Algarve juntou esforços para criar uma linha telefónica capaz de dar apoio psicológico aos danos colaterais da pandemia de COVID-19, que inaugurou a 6 de abril de 2020.

«Assim que soubemos que ia haver o confinamento começámos, de imediato, a pensar como poderíamos colaborar, de forma a termos uma resposta que, desde logo, sentimos que seria útil. A ARS deu o aval e utilizou a nossa proposta como resposta do Gabinete Regional de crise de Saúde Mental. O serviço baseia-se numa linha telefónica, com uma resposta que se situa entre a intervenção em crise e a intervenção breve, onde fazemos cerca de 10 chamadas por utente, consoante as necessidades de cada um. Na prática, prestamos acompanhamento psicológico por telefone. Os contactos são feitos até sentirmos que a situação está estabilizada ou encaminhada para outras estruturas com um cuidado mais de fundo», explica ao barlavento, Natacha Gonçalves, psicóloga no Centro de Saúde de Albufeira, representante do grupo regional de psicólogos e elo de ligação com o Gabinete Regional de Crise de Saúde Mental.

Quase um ano depois da inauguração da linha, mais de 300 pessoas procuraram esta ajuda. A grande maioria são jovens e idosos, não positivos, mas em sofrimento.

«Na realidade, situações ligadas diretamente à COVID-19 não têm sido muitas. Têm sido, sobretudo, devido aos danos colaterais: aumento grande de ansiedade; situações de stress; situações de depressão prévia, que entretanto agudizam; alguma ideação suicida e ataques de pânico. São patologias muito variadas, mas sobretudo ligadas às questões da ansiedade. Aliás, a ansiedade e a depressão que já eram prevalentes na nossa população, antes mesmo da pandemia, mas que com esta situação vieram agravar ou criar novos casos», explicita a profissional, que conta já com quase 30 anos de experiência na área da saúde mental.

Ainda nas palavras da psicóloga, com o novo confinamento, tem havido mais pedidos de ajuda e, sobretudo, mais necessidade, «quase transversal, mas com algumas faixas etárias mais aflitas. A grande percentagem da população que temos atendido na linha tem acima dos 55 anos. Temos também as pessoas mais velhas, que já eram quem nos procurava desde o início. Mas começamos a ter mais jovens adolescentes e jovens adultos».

Segundo a psicóloga, não são apenas as pessoas infetadas pelo novo Coronavírus, ou que têm outras doenças diagnosticadas, que devem contactar o gabinete.

«O objetivo desta linha é também o de prevenirmos a patologia e a sua agudização. Todas as pessoas aflitas, de qualquer idade, devem procurar ajuda porque este serviço não é só para psicopatologia. Por exemplo, outra situação que também nos chega são as famílias que estão em casa com uma sobrecarga acrescida. É importante que possam ter este recurso, porque temos também psicólogos especializados na área da infância e em conflitos familiares. As crianças também entram em stress e nessas situação temos dado algumas orientações que também têm ajudado a apaziguar os problemas. Não se trata de terapia familiar, mas trabalhamos com a família porque não há possibilidade de se trabalhar com uma criança sem se trabalhar com o seu contexto», refere a representante do grupo regional de psicólogos e elo de ligação com o Gabinete Regional de Crise de Saúde Mental.

Como funciona a linha e como se pode procurar por ajuda?

Natacha Gonçalves responde. «O que fazemos é uma escala por agrupamento de centro de saúde, onde há uma pessoa disponível só para essa resposta, durante o horário laboral das oito horas, o que não quer dizer que, se houver necessidade, não possamos aumentar o horário. O encaminhamento dos utentes é sempre feito pelos profissionais de saúde, pode ser o médico de família, o enfermeiro ou um técnico. Neste momento, todos os centros de saúde têm a triagem à porta e já temos tido referenciações, por parte dos colegas que estão na triagem, de pessoas que se deslocam para pedir esse apoio diretamente. As pessoas podem chegar até nós de várias maneiras, mas sempre através dos profissionais de saúde, porque não é uma linha direta, para já».

Feito o encaminhamento, a linha telefónica, em regra, contacta no próprio dia o paciente. Já o acompanhamento, esse depende da situação psicológica de cada pessoa.

«Se a situação requerer uma chamada por dia, fazemos uma por dia, se requerer uma por semana, fazemos uma por semana. Depende muito. É uma avaliação que fazemos com o próprio utente. O que temos preconizado é que vá até 10 chamadas. Temos algumas situações, muito poucas, que fizemos mais alguns contactos, mas o que temos preconizado são as 10 chamadas. É uma resposta de intervenção breve, com chamadas que têm a duração, em média, de uma hora, como se fosse uma consulta».

Ao todo, são 22 profissionais de saúde mental do Algarve, que, em determinadas situações já têm até a opção de consultas presenciais.

Mais recente foi a contratação de 11 psicólogos, em outubro do ano passado, onde seis trabalham nos cuidados de saúde primários e cinco diretamente com a Divisão de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (DICAP).

Um reforço que vem também permitir que sejam implementadas as novas medidas na estrutura da linha que a ARS do Algarve tem vindo a planear nos últimos tempos.

«Temos montada, em cada um dos agrupamentos de centros de saúde, uma linha telefónica de atendimento de utentes e de profissionais em situação de sofrimento psicológico devido à pandemia. O que vamos fazer agora é um processo de upgrade nesse sentido. Ou seja, agora vamos fazer um rastreio. Os nossos médicos, que contactam ativamente, avaliam a situação de COVID-19 que a pessoa, ou a sua família, tem. O que vamos fazer, a partir de agora, é uma coisa diferente. Vamos avaliar e vamos perguntar diretamente como é que as pessoas se sentem, se precisam de ajuda ou se acham que alguém da família precisa de ajuda. Quando identificarmos isso, vamos fazer um contacto proativo», diz ao barlavento, Paulo Morgado, presidente da ARS do Algarve.

«Achámos que devíamos agora de ir à procura, de forma ativa, destes casos, porque sabemos que, muitas vezes as pessoas estão em sofrimento, estão sozinhas, estão em casa, estão isoladas, estão confinadas e não sabem como contactar. Assim, somos nós que contactamos diretamente», acrescenta ainda o responsável. Este é um reforço que será também muito positivo para os profissionais de saúde, que pouco procuram a linha de apoio psicológico, criada para dar resposta aos efeitos da pandemia. O número de contactos, por parte de quem trabalha na linha frente, é, nas palavras da psicóloga, «irrisório, infelizmente».

Porque a rede está «também pensada para os nossos profissionais de saúde, mas foram muito poucos os que nos procuraram. Acho que se deve, em primeiro lugar, ao facto de estarem tão assoberbados em trabalho que estão a agir e não a pensar (em si mesmos). É difícil ainda parar para pensar naquilo que serão os resultados. Vão lidando com as coisas no dia a dia. Vão levando a vida para a frente na medida do possível».

É então esse um dos motivos que leva a ARS, a implementar «a triagem prévia de sofrimento psicológico e não apenas dos sintomas COVID-19. Queremos chegar aos nossos profissionais com algumas mensagens para lidar precisamente com a ansiedade, com o stress, com os conflitos e com tudo aquilo que eles estão a viver neste momento», conclui Natacha Gonçalves.

Ainda há «estigmatização na saúde mental»

Outra barreira, que a linha telefónica criada para dar resposta aos efeitos do novo Coronavírus, tem vindo a sentir, é a dificuldade que algumas pessoas ainda têm em pedir ajuda de foro psicológico.

Quem o afirma é a representante do grupo regional de psicólogos e elo de ligação com o Gabinete Regional de Crise de Saúde Mental, a psicóloga Natacha Gonçalves. «Embora, neste momento, já se fale nas questões da saúde mental e existe um destaque diferente daquele que foi dado até há bem pouco tempo, continuamos ainda, infelizmente, a ter alguma estigmatização. A saúde psicológica é aquela que nos atravessa a todos.

Em determinado momento da vida temos sempre alguma fragilidade em termos da saúde psicológica, mas isto continua ainda a ter alguma estigmatização e as pessoas ainda têm, às vezes, dificuldade em pedir ajuda, sobretudo quando não é uma algo patológico». No entanto, a linha não atende só patologias e é essa mensagem que a psicóloga quer deixar bem explícita.

«Se uma pessoa, por exemplo, está a começar a ficar aflita com a situação que está a viver, sente-se mais ansiosa, sente que não há saída, que não consegue arranjar estratégias para lidar com a realidade e que está em sofrimento, não quer dizer que tenha tido uma patologia anteriormente, ou que tenha que ter uma depressão. Muitas vezes isto ainda é visto como uma fraqueza, onde a pessoa tem de conseguir lidar sozinha e não pode dar parte fraca, mas isto não é uma questão de dar parte fraca. Todos nós, de facto, em determinadas alturas, precisamos de ajuda para conseguir ultrapassar determinados momentos na vida», conclui.