CHUA continua a precisar de mais dádivas de sangue

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José Delgado Márquez, diretor do Serviço de Imunohemoterapia do Centro Hospitalar Universitário do Algarve (CHUA) agradece a recente onda de solidariedade que permitiu abastecer os stocks e apela à comunidade para continuar a doar sangue numa altura difícil.

barlavento: Qual é hoje a realidade do seu serviço?
José Delgado Márquez: Antes da pandemia tínhamos uma realidade e agora temos outra. Ao longo dos 12 meses, os períodos críticos para os serviços de sangue no país são, por norma, o verão e o mês de janeiro. Portanto, há menos entradas, mas a saída de sangue é igual ou mais até, porque a população do Algarve multiplica por dois ou por três. Temos mais doentes que, se calhar, precisam de sangue, mas por outro lado, temos menos entradas. Há um desequilíbrio, portanto. Mais tarde, os dadores querem fazer o seu contributo, por norma, no final do ano, no mês de dezembro. Janeiro é um mês crítico porque há menos dadores e há mais internamentos. Começamos a receber doentes já com uma certa idade, devido ao frio e às gripes e isso quase sempre se reproduz de um ano para outro. Dito isto, a autossuficiência é relativa, sempre.

E quando o sangue falta?
Quando falta pedimos ao Instituto Português do Sangue e da Transplantação (IPST), em Lisboa. O problema surge quando do outro lado também não há. Por exemplo, quando há uns dias entrámos em crise nacional em matéria de sangue, eu pedia 20 a 30 unidades e recebia uma, duas, quatro. Porquê? Porque não havia. O sangue disponível é redistribuído. Se houver, satisfaz as necessidade de quem pede, se não houver, satisfaz parcialmente ou não satisfaz. Daí os problemas e daí que o próprio IPST, em janeiro, tenha feito um apelo nacional que teve grande impacto. Acha que a pandemia afastou os dadores? Claro que todos temos medo face à situação atual que vivemos, mas as pessoas são solidárias. Temos tido casa cheia todos os dias. Por um lado, isso é excelente porque temos sangue suficiente para as transfusões, não temos de adiar cirurgias, nem nenhum ato clínico. O que é ótimo. Um segundo ponto importantíssimo deste apelo recente é que a maioria das pessoas que nos têm procurado são novos dadores de sangue. Independentemente da sua idade, vieram dar sangue pela primeira vez e muitos virão de novo. Esta tem sido uma forma de termos o registo de dadores renovado e aumentado.

Alguma vez o Algarve esteve em risco de não ter sangue?
Tenho de dizer que no Algarve nunca se deixou de realizar nenhuma cirurgia por falta de sangue. Não se deixaram de fazer tratamentos a doentes, muito devido aos mecanismos internos de colaboração entre as unidades e ao próprio IPST. Agora, gostaríamos de estar melhores em alguns momentos, claro. Porque quando há falta de colheitas de sangue, abrimos o frigorífico e o pouco que há tem de ser muito bem gerido. Tem de se fazer uma gestão elástica. É o mesmo quando há pouco dinheiro em casa. Não se deixa de comer, mas, se calhar, muda-se o tipo de alimentação e tem de se fazer uma ginástica mental. A autossuficiência tem de ser matizada. A pandemia mudou o protocolo nas colheitas e no serviço? Mudou a 100 por cento e tem que ser. O serviço não é igual no funcionamento diário ao que era antes da pandemia. Estamos a lidar com um vírus altamente contagioso. Todos temos de seguir com máxima atenção as recomendações da Direção-Geral de Saúde, e da entidade fiscalizadora do serviço de sangue. A nossa preocupação é que dentro do circuito do serviço se cumpram rigorosamente todas as medidas, desde a solução alcoólica para higiene das mãos, a limpeza das cadeiras entre colheitas, que haja uma ordem, um distanciamento. É muito importante que as pessoas se sintam seguras.

Os dadores são testados à COVID-19?
Em nenhuma parte do mundo, em nenhum país, para dádivas de sangue se faz o teste à COVID-19, que eu tenha conhecimento. O que temos são regras de segurança. Qualquer dador que venha, terá sempre de agendar marcação prévia. Depois, fará uma triagem clínica, que é idêntica à que se fazia antes da pandemia, embora tenhamos acrescentado bastantes perguntas à entrevista médica, direcionadas à COVID-19, para descartar a hipótese de quem vem dar sangue, possa estar, nesse momento, doente. A triagem é exaustiva, pesada, mas tem de ser. E mais: alertamos sempre, que depois da dádiva de sangue, se houver qualquer alteração clínica na saúde do dador, como febre, dor de garganta, tosse, qualquer sintoma novo que possa surgir, a pessoa deve contactar de imediato o nosso serviço. Se isso acontecer, esse sangue fica imediatamente de lado.

Já aconteceu?
Sim, já aconteceu. Pessoas que vêm dar sangue, completamente assintomáticas, que não tiveram nenhum contacto suspeito ou relacionamentos com pessoas com COVID-19, nem familiares positivos, vêm dar sangue e passados uns dias, tudo muda. Não é frequente, mas já aconteceu algumas vezes. Todos os dadores têm a possibilidade de nas duas semanas seguintes à sua dádiva de sangue, contactar connosco e reportar o que sentem. Isso é muito importante e foi uma das recomendações de segurança. Imaginemos que faz o teste da COVID-19 e dá negativo. Pode dar sangue? Sim, mas se o dador me diz que se sente engripado ou com alguma dor, a resposta é evidente. Não dê, aguarde um mês. Qualquer virose, gripe, constipação, amigdalite é produzida por um microrganismo vivo que pode ser um vírus, uma bactéria, que também está no sangue que depois é transferido para uma pessoa frágil, diminuída do ponto de vista imunológico e pode acontecer uma fatalidade ou uma complicação.

E qual é o prazo de validade do sangue?
São 42 dias a partir da dádiva.

Suponha que um dador foi vacinado contra a COVID-19. Pode dar sangue?
Pode dar sangue e isso tem importância. A vacinação é um meio de estar protegido. O que sempre recomendo é, depois da segunda dose da vacinação, deixar passar uns dias, porque essa vacina, tal como todas, dá reações, inclusive febre. Passados alguns dias, se estiver tudo bem, a pessoa pode vir fazer a sua dádiva.

No seu serviço já todos os profissionais foram vacinados?
O serviço de sangue é considerado de risco porque recebemos também amostras de pessoas COVID-19 positivas internadas nos hospitais. Portanto, todo o pessoal, tanto da unidade de Portimão, como de Faro, está vacinados. Há que dizer que a vacina é voluntária. Mas se um profissional não está protegido, está a tratar ou está a contagiar?

Como vê toda esta situação pandémica?
Quem trabalha em saúde, tem sempre uma visão positiva. Não podemos trabalhar tentando dar soluções aos problemas em sentido negativista, porque senão isso seria uma derrota imediata. O vírus derrota-nos e a doença derrota-nos. O ser humano, desde a história da medicina, confrontou situações novas, graves, e sempre foram ultrapassadas. Porque é que esta não vai ser? A ciência tenta sempre dar resposta depois de aparecer um problema. É reativa. Ninguém há um ano atrás, pensava que isto saísse da China. Depois entrou pela Itália e passaram aqueles meses em que pensávamos que podia não chegar à Península Ibérica. A globalização demonstrou que tudo entra no mesmo pacote, o bom, o menos bom ou mau.

Quer deixar uma mensagem à comunidade?
Se a situação atual da COVID-19, por si só, é muito preocupante, nós que trabalhamos neste serviço, temos ainda o problema da carência sanguínea. Este apelo recente serviu para encher o serviço devido a uma grande onda de solidariedade. Quero agradecer a todas as pessoas que vieram e convidar as que ainda estão indecisas, porque é muito simples dar sangue. Basta ter um pouco de tempo. Quem tiver interesse pode telefonar e tirar dúvidas. Quem quiser avançar, podemos agendar a dádiva. Quero agradecer a todos os que já contribuíram e dizer àqueles que ainda não o fizeram, que esse gesto é mesmo muito importante porque a necessidade de sangue e componentes sanguíneos nos nossos hospitais são diárias.

Dois hospitais, um único serviço

Segundo o imunohemoterapeuta José Delgado Márquez, antes da criação do Centro Hospitalar e Universitário do Algarve (CHUA), «havia um serviço de sangue em Portimão e outro em Faro. Os dois eram independentes, cada um tinha uma direção e uma forma de trabalhar. Hoje existe um único serviço de sangue que serve para ambos». Segundo explica ao barlavento, não há falta de recursos humanos no serviço que conta com quatro médicos. A única queixa tem a ver com o espaço no Hospital de Faro que se tornou demasiado exíguo para a função. «As pessoas habituam-se ao que há e adaptam-se ao que têm, mas claro, queremos ter instalações maiores e mais adequadas para podermos dar uma resposta melhor e para podermos crescer. Quanto mais se cresce, mais e melhor resposta se consegue dar».

Nem a pandemia trava a solidariedade

A instabilidade nas reservas de sangue, típica dos meses de inverno mas agravada pela situação de pandemia, levou a um decréscimo nas colheitas de sangue e motivou um apelo nacional por parte do Instituto Português do Sangue e da Transplantação (IPST). Apesar da situação difícil que o país se encontra, a «resposta por parte da sociedade foi excecional e sem precedentes», segundo comunicou o IPST. No Algarve, acresceu a este apelo uma onda de solidariedade para com o Miguel, um menino de seis anos, filho de casal de enfermeiros de Faro, diagnosticado com síndrome mielodisplásica. Uma doença rara cuja esperança de cura é um transplante de medula óssea. José Delgado Márquez ficou surpreendido e, em meados de janeiro, teve de reforçar a resposta à procura. No total, enviou mais de 800 amostras para o Centro de Histocompatibilidade do Sul. «Durante duas semanas, tivemos um impacto muito bom, porque algumas pessoas também quiseram dar sangue ao nosso serviço», resume.