Castro Marim tem cerveja artesanal de sabores algarvios

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Senescal Brewery aposta numa receita que junta ingredientes regionais à história e mística do local, inspirada nos Templários e no Castelo.

Inspirado pela paisagem e pelas singularidades de Castro Marim, Gabriel Silveira, 44 anos, criou a marca Senescal Brewery, com o objetivo de colocar no mercado cervejas artesanais, produzidas com ingredientes de qualidade e através de processos simples.

Começou por comprar os primeiros equipamentos e por transformar a garagem da sua casa, na Quinta da Cerca, numa pequena unidade de produção. As receitas começaram a ser desenvolvidas em 2020, numa altura em que se viu sem trabalho devido à conjuntura provocada pela pandemia de COVID-19. Afinou tudo durante alguns meses, até que chegou à primeira garrafa pronta para ser comercializada.

«Nunca tinha pensado em produzir cerveja, mas quando decidi fazê-lo, mergulhei fundo e logo com a intenção de criar uma marca. Era um bom momento para tentar criar algo novo. Vivi mais de uma década no Reino Unido, onde trabalhei num pub especializado em Real Ale, a cerveja mais natural que existe, e era responsável pela manutenção. Apaixonei-me. Por isso, a minha ideia inicial era começar a produzir cervejas que já conhecia bem e das quais tinha pontos de referência. Apesar de nunca ter produzido, conhecia bem a química e preferi não arriscar logo. As primeiras que fiz não ficaram boas. Foram necessárias várias experiências até alcançar o ponto que queria. No final, resultou e a resposta foi muito boa», recorda ao barlavento.

Senescal Brewery

E como surgiram as receitas? «Em Inglaterra, já pesquisava sobre as cervejas locais porque me interessava pelos ingredientes. Já tinha uma noção e quando comecei a produzir, as receitas começaram a surgir na minha cabeça. Claro que tiveram ajustes, mas já sabia o que fazer. Peguei na lista de grãos do principal fornecedor em Portugal e escolhi a cevada de uma casa de malte da Holanda, que existe desde 1903. Esse é o ingrediente principal. E uso vários tipos, com diferentes graus de torrefação ou de maltagem para dar o sabor», explica.

Hoje, «uso cerca de 14 a 15 cevadas diferentes, às quais junto o lúpulo, para dar amargor, e que também uso de vários tipos, a levedura e a água. É simples. A base surge da junção de cevadas e lúpulos. Em algumas variedades, uso também um pouco de trigo e frutas», descreve.

 

O processo parece pouco complicado, «mas requer precisão. É como fazer um bolo. A receita pode variar, mas a essência não pode mudar para que tudo funcione. É necessário uma proporção química para se atingir o resultado pretendido. Ou seja, há uma quantidade exata de temperatura, grãos da cevada e tempo de processo que varia consoante o tipo de cerveja. Tudo influencia o resultado final. Apesar de ser uma marca artesanal, há um padrão de qualidade que atinjo ao ser muito meticuloso com todos os detalhes. Quando se bebe uma cerveja Senescal, o aroma, o sabor e a cor são sempre os mesmos», garante.

Um trabalho constante que demora cerca de um mês, em média, para cada variedade de cerveja que a marca tem. Por semana, produz entre 60 a 120 litros, que resultam entre 170 a 340 garrafas. «É muito trabalhoso e estou a produzir o máximo que consigo», isto é, 2500 litros anuais, consoante a licença.

Senescal Brewery

Cervejas com sabor local

Até ao momento, na Senescal Brewery são produzidas sete variedades de cervejas, todas em garrafas de 33 centilitros. O cervejeiro destaca a Royal IPA (India Pale Ale), Cardinal ALE, Marshall PORTER e Templar STOUT. A primeira tem um volume alcoólico de 5,2 por cento e um aroma ligeiro a maracujá. «Tem um sabor frutado e uma pitada generosa de amargura», afirma. A Cardinal «foi criada para relembrar a cerveja forte que era produzida pelos monges. É religiosamente maltada, de cor vermelha e representa a vida monástica e a dedicação a um causa superior», com 6,5 por cento de álcool.

A PORTER é suave e saborosa, com seis por cento de álcool e «recorda os ideais de cavalaria e o seu código de conduta. É de cor castanha, robusta, mas suave, com pouco amargor, que combina a bravura e o cavalheirismo, enfatizando um senso de responsabilidade social», explica o empreendedor.

Já a STOUT, castanha escura, com um nível de álcool de 4,7 por cento, de acordo com Silveira, «honra a bravura e a lealdade dos cavaleiros Templários à sua Ordem. Com um aroma fumado, incorpora uma variedade de maltes torrados e traduz memórias medievais, com um sabor de missão cumprida após um longo dia no campo de batalha».

Por outro lado, as receitas mais recentes nasceram de parcerias locais: Lager Delight, Algarvian Sunrise e Mystic Brew, com cinco, 4,5 e sete por cento de álcool, respetivamente.

A Lager Delight é uma cerveja de alfarroba fornecida pela Mercearia Biológica Meio Limão, de Vila Real de Santo António (VRSA). «De cor amarela, com um amargor muito suave, equilibrado, é como se fosse um ar fresco boémio ao encontro do sol mediterrâneo», metaforiza.

Por sua vez, a Algarvian Sunrise é produzida com cascas de laranjas desidratadas do Algarve, provenientes da Jossy’s The American Burguer, também de VRSA. Nas palavras de Silveira, «só podia fazer uma cerveja de inspiração americana, neste caso, em homenagem à proprietária daquele espaço. Esta cerveja é como um verão sem fim, refrescante, tem sabor que pacifica e relaxa até a alma mais inquieta», garante.

Por fim, a cerveja mais recente, lançada no mês de maio, junta a Senescal Brewery à Quinta da Fornalha, conhecida produtora de figos. «São uma delícia, orgânicos, secos ao sol e 100 por cento biológicos. Dão origem a uma cerveja escura, que alude aos símbolos sagrados da Natureza, e que está repleta de benefícios que só o figo apresenta. Depois de se beber uma, querer-se sempre repetir», assegura.

Cervejas Senescal Brewery

E para quando novos sabores? «Já tive mais propostas de parcerias, por exemplo com um produtor de pitaias e a ideia seria ótima», mas isso implicaria mudar de instalações para poder aumentar a produção e o portfólio de cervejas. «Sem dúvida que preciso de mais espaço para engarrafar, cozinhar e fermentar. Este é o próximo passo. A variação de temperatura de verão e inverno é muito grande e, por isso, tenho de reorganizar tudo consoante a época do ano. É muito cansativo. Neste momento, tenho clientes em lista de espera. Não consigo distribuir mais pois não tenho como repor os stocks», lamenta.

Ainda assim, a recente marca não poderia ter melhor retorno. «A verdade é que as pessoas gostam e estou num ponto em que tudo o que produzo, vendo. Está a correr muito bem e não demorou a singrar», sublinha.

Questionado sobre qual o segredo do rápido sucesso, Silveira tem opinião bem definida. «Dizem que é sorte, mas trabalho muito e sou apaixonado pelo que faço. Estudo bastante e comunico ao máximo com as pessoas para saber as suas opiniões. Já aprendi muito com as dicas que me têm dado e o meu sonho é levar esta cerveja» de Castro Marim o mais além possível.

Porquê Senescal?

«Aficionado por História, apaixonado por cerveja» é o lema da marca Senescal Brewery – a cerveja de Castro Marim, criada em julho do passado ano pelas mãos de Gabriel Silveira.

Nasceu no Brasil, mas ainda em tenra idade, emigrou com a família para o sul de França. «Vivi entre castelos e vinhas. Isso deu-me um gosto muito grande pela história e pela cultura de um modo geral e, em particular, sobre tudo o que é medieval», conta ao barlavento.

Com formação em produção musical, o empreendedor sabia que «encontrar um nome, seja para uma banda ou para uma marca, é muito difícil».

Cerveja artesanal - Castro Marim

Começou a observar a paisagem que o rodeava em Castro Marim e a pesquisar sobre a vila. «Mudei-me há três anos e a primeira coisa que fiz quando cheguei foi levar as minhas filhas ao Castelo. Portugal tem imensa história e fascina-me muito. Surgiram vários nomes e acabei por me focar na Ordem dos Templários, mais tarde Ordem de Cristo. O primeiro quartel dos seus cavaleiros tinha sede em Castro Marim. Quando descobri isso, percebi a ligação que podia criar. O cargo mais elevado da Ordem é o Grão-mestre. Na hierarquia, o senescal é o seu braço direito, substitui-o na sua ausência. É o conselheiro, o diplomata e o detentor de todos os inventários e até de alguns tesouros. Foi esse ponto de partida para o nome da marca», explica.

Um início na Inglaterra

Apesar de as primeiras cervejas produzidas por Gabriel Silveira terem sido no Algarve, o seu contacto e paixão por esta bebida, começou no Reino Unido, há mais de uma década, após um percurso bastante inusitado.

«Trabalhei como pedreiro e nas limpezas. Uma das vezes calhou ter de limpar um pub. Foi aí que me apaixonei pelo ambiente. O proprietário, ao perceber o meu interesse, conversou comigo e convidou-me para o acompanhar num dia de trabalho atrás do bar. Nunca mais saí! Comecei por ser funcionário, passei a supervisor e depois manager. Aí tive o meu primeiro contacto com as cervejas artesanais e passei a ser o responsável pela sua manutenção. O pub era pequeno, numa cidade pequena, mas com algum poder económico. Os meus clientes falavam muito e acabaram por me ensinar muita coisa, como o que procurar numa cerveja para saber se tem qualidade. Quando me diziam que uma cerveja estava perfeita, ia verificar os processos que tinham decorrido, para um dia mais tarde poder repetir. Infelizmente, nunca tive oportunidade de fazer cerveja lá», recorda ao barlavento.

Ainda assim, quando emigrou para Portugal com a família, criou a marca Senescal Brewery, responsável pela produção artesanal de sete variedades diferentes de cerveja.

Pontos de venda

As cervejas artesanais produzidas por Gabriel Silveira podem ser encontradas nos seguintes locais:

  • Mercearia Bio Meio-Limão (VRSA);
  • Velho Cavalinho Taberna Medieval (Castro Marim);
  • Wild Thing (Cabanas de Tavira);
  • Cafe Bar 22, Mercearia Sabores da Terra (Tavira);
  • Bistro Bar Latté (VRSA);
  • Jessy’s The American Burguer (VRSA);
  • Restaurante 3 Marias (VRSA)