Carlos Campaniço: uma geografia alternativa na literatura portuguesa

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É o escritor alentejano mais algarvio da atualidade, com cinco romances, um ensaio histórico e alguns contos dispersos publicados. O próximo dos quais está prestes a sair, numa coletânea de escritores benfiquistas. Carlos Campaniço, 42 anos, natural de Moura, reside e trabalha no Algarve há cerca de 20 anos. Embora discreto, já tem uma carreira com visibilidade nacional. Na primeira entrevista que concede ao «barlavento» confidencia-nos que se pudesse, viveria apenas da, e para a escrita.

barlavento: Sabemos que tem um novo livro no prelo. Pode abrir um pouco o véu?
Carlos Campaniço: Acabei em abril um romance cujo título não posso ainda revelar. Mas posso dizer que é um livro diferente de todos os outros que tenho escrito até agora. Tem uma carga humorística, é muito sarcástico relativamente a uma sociedade de elite de finais do século XIX, na qual bastava alguém apresentar-se com uma farsa, que a mentira pegava. Neste caso é um burlão. Uma personagem que vive numa sociedade muito elitista e muito pouco instruída. Poderá sair no princípio do próximo ano. Se houver muita sorte, talvez no final deste ano.

Uma sociedade elitista e ignorante. É uma metáfora para os dias de hoje?
Também. O ser humano não mudou assim tanto. Mudou a nossa indumentária, a tecnologia, mudou a sociedade em alguns dos seus comportamentos. Mas o ser humano, nas suas capacidades, nos seus defeitos, nas suas falências, mantem-se muito parecido ao que sempre foi. Hoje, somos uma sociedade com vícios, que apesar de ter evoluído muito, é uma sociedade injusta e desequilibrada. E isso é fermento para um escritor.

Pensa escrever uma ficção na contemporaneidade?
Certa vez disse que o homem atual não é capaz de feitos tamanhos que me levem a escrever sobre ele. Não escrevo romances históricos. Escrevo romances de época. Penso que os condicionalismos de comunicação, de conforto, o facto de as mulheres não terem os mesmos direitos que os homens, o facto de as crianças sofrerem muitíssimo e começarem a trabalhar desde tenra idade, de ter havido um grassar fome por todo o lado, foi uma infelicidade tremenda. Mas que quanto a mim, dá muita matéria para que o escritor consiga fazer disso tema para a sua literatura. Nos dias de hoje também haveria pois continuam a haver muitos desempregados, gente com fome e imigração forçada. Mas digamos, tenho preferência por um tempo mais remoto. O próximo romance que vou escrever já está a ser pensado. Se for avante esta ideia, será um livro sobre o tempo do PREC.

O que o motiva a escrever?
Uma grande paixão pela literatura. Considero-me ainda eminentemente leitor. Acho que os escritores têm todos um comportamento de mimese. Não quer dizer que copiem o género ou estilo, ou que quer que seja. Mas a ligação com a literatura torna-se tão estreita, que por vezes, ler só não chega. Conheço gente que era da crítica literária, leitores compulsivos, que se tornaram escritores. Porque a paixão leva a isso. Pessoalmente, para escrever preciso apenas de uma boa ideia. Um escritor tem de ter algumas capacidades diferenciadoras. Uma das quais é a imaginação. Embora se possa basear em factos, tem de ter uma capacidade inventiva acima da média, para conseguir espantar, criar coisas novas com algum valor. A novidade é um trunfo. Aquele escritor que se repete enfada os leitores. É muito difícil hoje em dia inovar nalguma coisa, mas penso que dentro do espaço e do tempo que resta, essa deve ser uma busca permanente. Por outro lado, não escrevo por inspiração. Escrevo por inquietação. A minha escrita também tem muito de denúncia pelo estado do mundo. A desumanização da sociedade, o materialismo, esses são temas que me provocam angústia e se refletem na literatura. Se o mundo fosse perfeito, se calhar disfrutava dele apenas.

Como resumiria a sua obra a alguém que não ainda não leu um livro seu?
No meu primeiro livro tentei explorar algo que estava um pouco esquecido, as comunidades rurais e a sua condição humana. Depois, escrevi um romance que se passa no Mediterrâneo, e que se pode considerar dentro do género do fantástico. Depois, fiz quase uma trilogia onde se vê o Alentejo de finais de século XIX. Não sei se é vaidade, ou originalidade, mas criei algo que não conheço em mais escritor nenhum. Já se conhecia por exemplo, no Gabriel Garcia Marques, o inventar de uma cidade onde se passam várias histórias. O que fiz é uma coisa parecida. Mas inovadora, que é criar uma geografia alternativa. No concelho de Moura, ou no Alentejo existem aldeias fictícias interagem com aldeias reais, entre os diferentes livros. Chamo-lhe uma geografia alternativa. Depois, o que me atrai é a condição humana. Os amores, os desamores, o sofrimento, as alegrias. «Os Demónios de Álvaro Cobra» explora um pouco aquilo que é o imaginário popular. «Mal Nascer» é um livro mais cru. Parte de uma ideia base que em tempos de crise e de fome, as mulheres e crianças são quem mais sofre na comunidade. São os elos mais fracos. Mas nunca há uma dicotomia entre ricos maus e pobres bons. Há é uma visão muito crua da sociedade.

Que balanço faz da sua carreira até aqui?
Há uma parte determinante que começa com «Os Demónios de Álvaro Cobra». Esse livro ganhou o prémio de Literatura Cidade de Almada, um dos mais antigos e estimados do país, em 2012. «Mal Nascer», foi finalista do prémio Leya em 2013, o maior em língua portuguesa do mundo, entre os 492 que participaram. É muito difícil ser autor da Leya, pois há um escrutínio muito, muito grande. Passei de ser um autor regional para ser um autor com alguma dimensão nacional. Há agora uma fase em que a exigência é muito grande. Mas para já, percebo que ainda não cheguei a sítio nenhum. Apenas a um ponto de partida para um projeto literário sólido e qualitativo.

Ou seja, quer deixar uma obra?
Sim. Quero escrever. Quero ser escritor enquanto tiver capacidade para isso. Capacidade física, mental, emotiva. Se pudesse viveria somente da escrita.

Tem um método de trabalho na criação literária?
Sim. Há vários momentos. Fico um pouco emperrado ao começar um livro, mas depois, ultrapassada esta fase, há um estado quase febril. A história está tão fresca, aquilo que consigo imaginar está tão presente, que é quase preciso escrever tudo de imediato. É muito entusiasmante. Mas tenho um método de escrita. Faço um esqueleto, sei o princípio, o meio e o fim. Crio um protótipo de personagens, descrevo-as fisicamente, a sua profundidade psicológica. Depois falta inventar a massa muscular para criar um corpo. Tenho feito como os agricultores fazem, um ano de produção, um ano de pousio. Agora estou no pousio. Leio, invento, penso, escrevo contos. Antes do próximo Verão, reinicio a escrita.

Tirou um mestrado em cultura árabe, islâmica e do Mediterrâneo. Como vê as manifestações antirrefugiados, por exemplo, nas redes sociais?
Penso que cada vez temos menos capacidade reflexiva e de autocrítica. Somos uma massa cinzentona. Bastam duas larachas para que nos convençam disto ou daquilo. A sociedade está feita de uma forma em que a opinião pública, e a opinião publicada, modela muito o pensamento de cada um. Falta-nos pensamento crítico e individual. Percebe-se que o marketing político e comercial funciona muito bem. As pessoas são cada vez mais dependentes da informação fácil. Não creio que haja uma antipatia portuguesa por essa causa. Acho que, no cômputo geral, o povo português é solidário. É um povo de emigrantes que historicamente se mesclou com asiáticos, índicos, negros. Aqui no sul, se recebermos alguns sírios ou outros árabes iremos perceber que culturalmente há uma grande ligação entre eles e nós. Não serão uma ameaça. Em Portugal temos outras ameaças – a extrema-direita, grupos xenófobos, gente de colarinho branco que domina a alta finança e o aparelho de Estado. Não é por sermos maltratados enquanto portugueses que nos vamos tornar mundialmente desumanos. Penso que quem se manifesta contra, é mais por ignorância, que por outro motivo qualquer.

Aquilino Ribeiro e a hegemonia literária de Lisboa

Na opinião de Carlos Campaniço, um livro para ter sucesso precisa de três coisas fundamentais. «É tão fácil que muito poucos o conseguem. Aliás, não sei sequer se já o consegui: uma boa história, saber contá-la e ter uma linguagem apelativa». «Há quem goste da escrita barroca, há quem goste de uma escrita light. Os livros são como o vinho. Bons são aqueles que nos sabem bem», considera. Campaniço gosta dos autores neorrealistas portugueses, de alguma literatura europeia e sul-americana. O preferido? Aquilo Ribeiro. No Algarve, reconhece que há bons escritores. «A capacidade literária está democratizada. Mas a maioria concentram-se em Lisboa. E acho que não é por acaso. Na província, tendem a ser esquecidos. Repare que os escritores do Algarve que singraram como Ramos Rosa, Lídia Jorge, Nuno Júdice, acabaram todos por» se mudar para a capital. Um exemplo é recente é o escritor Sandro William Junqueira que trocou Portimão por Lisboa. E Campaniço, tenciona mudar-se? «Não. Sou um provinciano», brinca.