«Cada ave conta uma história» e o Algarve é destino para dezenas de espécies

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António Manuel Marques, 58 anos, natural de Paderne e radicado em Faro, é um nome bem conhecido da ornitologia amadora em Portugal. Coordena uma estação de anilhagem científica de aves na Fonte da Benémola, em Loulé e é um dos veteranos do Festival de Observação de Aves e Atividades da Natureza, que acontece já em outubro, em Sagres.

Muitos sábados são assim. A lua desce no horizonte e o sol, tímido, acorda para o dia. Mas desde madrugada bem cedo que António Marques está embrenhado na paisagem protegida da Fonte Benómola, entre ribeiros e árvores de fruto.

O seu interesse pelas aves já tem, pelo menos, quatro décadas. «Antigamente, as pessoas tinham o hábito de caçar passarinhos com armadilhas. Traziam-me anilhas, muitas delas que tinham sido colocadas no estrangeiro. Então, comecei a interessar-me pelas questões da conservação da natureza e resolvi aprofundar a ornitologia», recorda. Decidiu trabalhar com aves vivas e quase há duas décadas que é anilhador oficial credenciado pelo Instituto de Conservação da Natureza e Florestas (ICNF).

Em conjunto com uma pequena equipa de três pessoas, Marques trabalha de forma voluntária numa «estação de esforço constante», a número 11 no registo do ICNF, em pleno barrocal.

O objetivo é recolher passeriformes, isto é, aves de pequeno porte. A captura é feita em redes verticais que sobem até dois metros de altura. São especiais para este fim e não magoam as frágeis aves.

«Esforço constante» significa que as redes são sempre colocadas no mesmo sítio ao longo do ano, para registar os padrões, tal como uma estação meteorológica regista as variáveis do clima.

Neste momento, em que o outono se aproxima, «temos um grande fluxo de aves, de várias espécies, que começa em setembro e continua até dezembro. É a migração de aves que nascem no norte e centro da Europa e que passam pelo Algarve no seu caminho para África», explica.

A migração é um deslocamento cíclico. Ou seja, uma espécie migratória passa uma parte do ano num determinado local para se reproduzir e terminada a reprodução, a maioria dos adultos e crias voam para outro local onde passam outra parte do ano descansando e alimentando-se. Quando se aproxima a época, as aves retornam ao primeiro local para se reproduzirem, e assim reiniciam o ciclo.

Nesta altura começam a chegar à região aves como o Rabirruivo-de-testa branca (Phoenicurus phoenicurus), a Cigarrinha-malhada (Locustella naevia) e o Papa-amoras (Sylvia communis).

Quando está no terreno, Marques recolhe cada ave presa nas redes num pequeno saco, para uma observação minuciosa.

No caso de já estar anilhada, regista os detalhes que são partilhadas online. Em Loulé já encontrou aves anilhadas na Holanda, República Checa, Polónia, Suécia, Rússia e Noruega.

«A Felosa-bilistada (Phylloscopus inornatus) é um pássaro que nidifica nas taigas siberianas e deveria fazer a sua migração para a Ásia. Mas nos últimos cinco anos, verifico que esta espécie tem vindo a procurar o Algarve para passar o inverno. Penso que se trata de uma nova rota migratória, talvez por encontrar melhores condições aqui. Já não é considerada uma ave rara ou acidental. Quando chega a primavera, regressa à Sibéria», exemplifica.

No campo, há sempre surpresas. Em junho, Marques teve um encontro inesperado. Apanhou um Papa-figos (Oriolus oriolus) que o próprio anilhou em 2016.

Quando as aves não têm anilha, coloca-se uma nova no tarso. Marques mede a envergadura da asa, determina o sexo e a idade, avalia o estado da plumagem, o nível de gordura e de massa muscular e o peso.

«Temos uma folha de campo com 50 entradas, na qual registamos cada ave. Os detalhes individuais são inseridos numa base de dados online que está em permanente atualização».

A informação recolhida pelos anilhadores é fundamental para determinar os índices de sobrevivência e reprodução associados a cada espécie.

Qual a mais ameaçada? «No meu entender é o Picanço-barreteiro (Lanius senator). Não se sabe bem porquê, se é por causa dos campos agrícolas ou de qualquer problema nos habitats».

Na verdade, «as aves são as primeiras a dar o sinal dos efeitos das alterações climáticas. Isso é notório. Por exemplo, há certas espécies que já não precisam de se deslocar para as suas zonas de nidificação anteriores. Temos populações de piscos (Erithacus rubecula) e de felosinhas (Sylvia atricapila) que nidificam cá em Portugal, e antigamente isso não acontecia. Cada ave conta uma história», garante.

«Para mim, a ave que consegue ter os melhores índices de sobrevivência é o rouxinol comum (Luscinia megarhynchos). É uma ave que vem muito cedo de África, nidifica e vai logo embora. É a sua estratégia. De todos os que tenho anilhado ao longo dos anos, verifico que têm uma taxa de sobrevivência na ordem dos 75 por cento, o que é bastante elevado. Os nossos pintassilgos (Carduelis carduelis), espécie residente, têm uma taxa de sobrevivência de um a dois por cento. O mesmo acontece com o verdilhão (Chloris chloris) ou a milheirinha (Serinus serinus)», compara.

Dias de chuva e de vento não são favoráveis à anilhagem científica de aves. Ainda assim, «creio que o normal é a colocação de três a quatro mil anilhas ao longo do ano», estima.

Marques considera que o decréscimo da caça ilegal tem sido benéfico para o ambiente. Ainda assim, há mistérios por resolver.

«Os livros dizem que os melros (Turdus merula) são residentes, mas cheguei à conclusão que não é bem assim. Durante a nidificação chego a anilhar 200 melros e logo a seguir, nunca mais apanho nenhum. Para onde vão? Não sei! Passam-se meses que nem sequer os oiço. Fazem uma grande dispersão, disso não há dúvidas».

Marques gostaria que houvesse mais estações de anilhagem no Algarve. Existe uma na Quinta da Rocha, na Ria de Alvor, em Portimão e uma outra, mais recente, na Fonte Filipe, também em Querença, Loulé.

«Seria muito bom termos pessoas novas interessadas nesta atividade, pois poderíamos recolher mais informação. Acho incrível o facto de só termos três estações de anilhagem, porque o Algarve é uma zona por onde passam milhões de aves anualmente. O litoral, a Ria Formosa e a Serra do Caldeirão, seriam locais excelentes», opina.

«Somos muito poucos em Portugal. Talvez por falta de informação ou de conhecimento. Isto requer bastante tempo e o material é caro. O ICNF, dentro das suas possibilidades, distribui-nos as anilhas, o que não acontece noutros países. É um bom apoio. Agora, acho que as autarquias deveriam incentivar e criar apoios», o que aliás é o caso da Câmara Municipal de Loulé e da União de Freguesias Querença-Tôr-Benafim.

E como vê a crescente popularidade do birdwatching no Algarve? «Com muito bons olhos. Temos todas as condições necessárias. Hoje já há vários observatórios na região. Dou um grande apreço ao Turismo do Algarve que tem feito um esforço nesse sentido. Já não é necessário incomodar as aves nas salinas e nas zonas de sapais durante o seu descanso na maré cheia, por exemplo. Podia haver mais, mas os que existem já garantem um sossego às aves», opina.

Durante a semana, Marques ainda arranja tempo para visitas às escolas de Loulé, nas quais explica a importância das aves para os ecossistemas e mostra algumas das espécies que residem ou passam pelo Algarve.

Anilhagem científica

A anilhagem científica é uma técnica utilizada no estudo do comportamento das aves. Consiste na marcação individual destas com um pequeno anel de metal na pata, partindo do pressuposto que esta possa ser eventualmente recapturada. Por norma, registam-se também dados morfológicos (tamanho da asa, do bico, peso, desenvolvimento muscular, entre outros).

Qualquer pessoa pode propor-se a fazer esta atividade, embora em Portugal seja necessário um curso técnico e exames para se obter a credencial passada pelo ICNF. Esta é uma das atividades mais populares no programa do Festival de Observação de Aves e Atividades da Natureza que decorre de 10 a 13 de outubro em Sagres.

Algarve no centro da migração

Gonçalo Elias dedica-se à observação e ao estudo das aves desde dezembro de 1987. Tem uma ampla experiência de campo, aliada a um bom conhecimento do território, tendo já visitado todos os concelhos de Portugal Continental e quase todos os das ilhas, bem como mais de 30 países, distribuídos por quatro continentes, com o intuito de observar aves selvagens.

É autor ou co-autor de inúmeros livros sobre as aves portuguesas e sobre os melhores locais para as observar.

Ouvido pelo «barlavento», explica porque o Algarve é uma região especial.

«É interessante para se observar aves ao longo de todo o ano pois está num corredor migratório importante. É uma zona rica em espécies de distribuição mediterrânica, que estão ausentes do centro e do norte da Europa, permitindo aos visitantes oriundos de países mais a norte tomar contacto com essas espécies».

E que querem os estrangeiros ver aqui? «De uma forma geral, o turista procura oportunidades para encontrar espécies que ocorrem no Algarve e que estão ausentes no centro e no norte da Europa como o abelharuco, o peneireiro-cinzento, o flamingo, o caimão, o pernilongo, a gaivota-de-audouin, o chasco-ruivo, a ferreirinha-alpina, a pega-azul, o estorninho-preto ou o o pardal-espanhol».

Crianças e turistas bem-vindos a Sagres

André Pinheiro, responsável pela organização da 10º edição do Festival de Observação de Aves de Sagres pela associação Almargem, revela ao «barlavento» algumas das novidades do programa, de 10 a 13 de outubro.

«São para cima de 200 atividades e mais de metade gratuitas. Este ano conseguimos fazer novas parcerias com entidades, por exemplo, a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) e o Instituto de Conservação da Natureza e Florestas (ICNF) que vão participar com propostas inéditas. Por isso, temos mais ofertas e mais diversidade. Não obstante, também temos as atividades pagas, como os passeios guiados que as pessoas associam ao festival e a observação de golfinhos. Todos os anos temos vindo a crescer em número de visitantes, mas não queremos que se torne num evento de massas».

Segundo André Pinheiro, «uma das grandes novidades é que vamos dar grande ênfase às atividades para as crianças até aos 12 anos». Ainda em relação ao público, «cerca de um terço das inscrições são de estrangeiros, quer residentes, quer visitantes. O ano passado tivemos pessoas de mais de 30 nacionalidades».

E o que torna a ponta mais ocidental do país especial para o birdwatching? «A razão deste festival tem a ver com a localização estratégica de Sagres. As aves, ao fazerem a sua migração no outono, seguem as linhas da Terra até ao limite da Península Ibérica, até ao ponto em que estão mais próximo do cruzamento para África. As aves que conseguem voar mais longe são os passariformes, e até partem diretamente de Sagres para África».

Birdwatching no Algarve: «ainda há muito trabalho por fazer»

Segundo o especialista Gonçalo Elias, hoje «nota-se que foi feito um esforço por parte de diversas autarquias, ONGs e empresas privadas para desenvolver a oferta e aumentar a atratividade do Algarve como destino de turismo de birdwatching. No entanto, parece-me haver ainda bastante trabalho a fazer, sobretudo no que diz respeito à disponibilização de informação elaborada especificamente a pensar no observador de aves, assim como na criação de mais infraestruturas de observação, a exemplo daquelas que já existem em Vilamoura, Quinta do Lago ou Quinta do Marim».

Onde e como experimentar?

Questionado sobre que sugestão daria a quem quer experimentar o birdwatching, Elias recomenda que aventura comece de forma simples. «Sugiro uma visita ao portal avesdeportugal.info. É um projeto totalmente voluntário do qual sou coordenador. Foi desenvolvido a pensar em todas as pessoas que pretendem experimentar ou aprofundar o birdwatching de forma autónoma. O portal disponibiliza, de forma totalmente gratuita, informação detalhada sobre todas as espécies de aves selvagens que ocorrem em Portugal, com sugestões sobre os melhores locais a visitar para as observar, tanto no Algarve como no resto do país».