Beto Kalulu revisita 45 anos de música e homenageia amigos de Carvoeiro

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Beto Kalulu com músicos convidados evocará a memória de quatro personalidades que marcaram a vida cultural e social de Carvoeiro.

É um esperado regresso ao palco central da Praia do Carvoeiro e que promete ser uma noite especial na quarta-feira, 20 de julho, às 21 horas.

O icónico baterista e percussionista luso-angolano, Beto Kalulu, convidou 12 músicos para o acompanharem num concerto que será também uma homenagem a quatro pessoas que marcaram profundamente a vida de Carvoeiro, tal como ele. Cada um terá direito a um tema e a uma interpretação diferente. Mas primeiro é preciso contar como todos se cruzaram.

A história começa no final dos anos 1960. O jovem Beto era já um músico aclamado em Angola com a sua banda de rock «Windies».

«Naquela altura ouvia-se muita música francesa e brasileira. Em Angola, na escola, havia até mais aulas de francês do que inglês. Também ouvíamos muito os Beatles mas não tínhamos noção das letras das suas canções», recorda.

Em 1972, Beto decide fazer uma viagem ao Reino Unido para alargar os horizontes musicais. Mas antes, aterra na então Metrópole.

«No meio artístico angolano já se falava do Algarve. Resolvi vir à boleia conhecer». Foi parar a Albufeira, onde a farta cabeleira estilo afro chamou a atenção do fotógrafo portuense Fernando Aroso. «Nunca mais me largou!», diz, e até lhe arranjou um contrato de publicidade para a então famosa cadeia «Porfírios», especializada em vestuário jovem.

Um pouco mais tarde, nos tempos quentes do pós- independência de Angola, em 1975, a família de Beto insiste em metê-lo num avião de Luanda para Lisboa, em pleno êxodo colonial.

«Havia tiroteios a toda a hora. A guerra entre partidos estava a começar. Estavam milhares de pessoas no aeroporto e eu tinha partido uma perna num acidente de mota. Tive sorte porque fui escoltado pelo pessoal da Cruz Vermelha», lembra. No entanto, não quis viajar sem a sua fiel bateria.

O capitão protestou: «mas você está maluco?! Não vê que estamos em guerra! Não posso ficar aqui nem mais um minuto!». Beto insistiu e, no meio da confusão (ainda hoje não se sabe bem como), lá se conseguiu enfiar o instrumento no porão. E sobreviveu até aos dias de hoje.

«Quando cheguei a Lisboa fiquei alojado no Hotel Príncipe. A rotina era sempre a mesma: Almoçar, jantar, dormir. Um dia fomos viajar de metro, era uma novidade. Depois, sentei-me num banco dos Restauradores a ver todo aquele movimento lisboeta. Um condutor fica especado a olhar para nós, trava e batem dois ou três carros uns nos outros. Ralharam conosco. Disseram-me: corta o cabelo, pá!».

Depois da confusão nos Restauradores, Beto e a sua trupe decidem rumar ao Algarve, de novo à boleia.

«Andámos quilómetros e quilómetros e ninguém nos dava boleia. Até que passa um camião e atiram-nos um enorme balde de água para cima. Mais tarde, passa uma senhora num FIAT 600 que teve pena. Parou, deu-nos toalhas para nos secarmos e lá nos trouxe. Em Albufeira, que eu já conhecia, alugámos uma casinha com uma açoteia. Uns dormiam em baixo, outros em cima. E não se podiam mexer muito senão caiam do terraço», recorda.

Na altura, um guitarrista amigo tinha uma carrinha. «Decidimos ver o resto do Algarve. Viemos por Pêra, Porches e Lagoa. À entrada da estrada de Carvoeiro ficámos sem gasolina».

Beto Kalulu e Enzo d’Aversa.

Foi um popular que passava de motorizada que os ajudou e voluntariou-se para buscar uma garrafa de combustível. Em Carvoeiro foi amor à primeira vista! Nem haveria regresso. Alugaram a casa 18 do empreendimento Sol Férias. Ficaram um mês, dois, três.

O proprietário acabou por lhes arranjar outra casa, até porque os músicos ensaiavam na sala e incomodavam os turistas vizinhos. Com dinheiro a escassear, procuraram uma alternativa. Foram ocupar as antigas casas dos trabalhadores que construíram o Hotel Almansor, abandonadas até ao retomar das obras. Ali viveram durante 15 anos em comunidade. E eis que chega o primeiro homenageado do concerto de dia 20, o brasileiro Dani Soares.

«Ele veio ter conosco porque ouviu dizer que havia uma comunidade ali de artistas. Foi uma pessoa fundamental porque tinha uma energia contagiante e muita criatividade. Era também um grande artesão. E onde estivéssemos a tocar, ele entrava logo a dançar». Um espírito alegre que acabou por se integrar bem na sociedade local. Ao longo dos anos, dinamizou muitos eventos culturais no concelho de Lagoa.

Mas há mais. «Vou homenagear Manuel Guerreiro, grande saxofonista, que sempre viveu aqui em Carvoeiro. Teve um clube de jazz que recebeu artistas de todo o mundo. Era uma grande sala, sempre cheia, onde se fizeram memoráveis sessões de improvisação (jam sessions). Ajudou muito a promover Carvoeiro».

Beto recordará também Tchombé (Carlos Jorge), percussionista angolano e presença assídua no Clube de Jazz de Carvoeiro. Por fim, e talvez a mais importante homenagem será ao holandês Jan Zegers, empresário hoteleiro que foi um grande empregador e deixou memórias em gerações de algarvios.

«Ele veio para Carvoeiro há mais 40 anos. Comprou o restaurante Pátio, com o tempo foi evoluindo e abriu o Grand Café e a churrasqueira Piu. Ajudou-me sempre muito e a verdade é que ele tinha Carvoeiro no coração», sublinha.

Em termos de repertório, o concerto vai promover o álbum «45 anos de música» de Beto Kalulu, que contou com a produção do pianista Enzo d’Aversa. Um trabalho cuja apresentação e divulgação nacional ficou interrompido devido à pandemia.

Em palco, Beto será acompanhado por Tomé Rocha e Emmanuel Leger (bateria e percussões), Bony Godoy (baixo), Jean Brice (músico de Madagascar, na guitarra, que cantará uma composição sua como convidado), Marcos Vitta (teclados), Enzo d’Aversa (piano e direção musical), Matt Lester (saxofones), Roberto Costa  (trompete), Ana Alves (coro), Beta Viana (coro) e Vilma Keuchguerian (coro e flauta).

Por fim, o músico agradece o apoio da Câmara Municipal de Lagoa por ter aceitado esta proposta.

Um hino a Carvoeiro

Beto Kalulu é o autor do hino «Praia do Carvoeiro», canção escrita nos início dos anos 1980. «As pessoas perguntam muito como é que surgiu esse tema. Bem, na comunidade da Aldeia do Almansor, onde vivíamos, havia muitas crianças. Penso que a inspiração foi uma brincadeira, numa ida à praia com o meu filho Tomé, com os castelos de areia, o mar, as ondas e os pescadores. Hoje é um tema incontornável nos concertos. Tenho de o tocar, pelo menos, duas vezes! Até os estrangeiros cantam o refrão na rua. É um autêntico postal musical. Acho que fui muito feliz em fazer essa música e a letra», recorda o baterista. Claro que muito mudou no Algarve nos últimos 45 anos. «De certa maneira foi uma mudança muito má. Quem fez os projetos do centro, por exemplo, nunca cá viveu e não tem noção do que era o Carvoeiro. Mandaram abater os barcos de madeira e é pena não terem conseguido manter as características» e a alma deste lugar que apesar de tudo, continua, a apaixonar muitos.

Fotos: Inês Lopes/ Algarve Resident/ Open Media Group.