Associação 1597 nasce para tirar Santo Estêvão do esquecimento

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Associação 1597 conta com um plano anual de eventos diferentes para tirar Santo Estêvão do esquecimento.

Entre o barrocal e o litoral, numa área rodeada por grandes herdades e terrenos agrícolas, a freguesia de Santo Estêvão, no concelho de Tavira, tem pouco mais de mil habitantes, segundo os censos de 2011, e esconde um Algarve ainda tradicional e nada industrializado. 

As atividades artesanais, com destaque para a cestaria e as rendas, a produção de doces regionais de amêndoa e a exploração agrícola, onde predominam alfarrobeiras, figueiras e amêndoeiras, caracterizam esta aldeia. 

A Igreja Matriz de Santo Estêvão, no centro, é ponto de encontro em dias de missa, mas é no Café do Filipe, «O Forno», a poucos metros, que a comunidade se junta todos os dias, à exceção de quarta-feira, dia de folga, quando «a aldeia parece um deserto. Santo Estêvão tem pouca atratividade e pouca vida. Quisemos, precisamente, lutar contra isso e provar que há várias coisas a acontecer aqui», começa por justificar ao barlavento Hugo da Conceição, profissional do sector do turismo, 41 anos, residente na freguesia e atual presidente e fundador do mais recente coletivo local, a 1597 – Associação Cultural, Recreativa e Desportiva de Santo Estêvão.

«Vivemos todos aqui no centro, ou muito perto e reparámos que Santo Estêvão precisa de se mexer. Uma das maneiras de fazer acontecer era juntarmo-nos e formalizar uma associação para conseguirmos apoios. A base comum dos fundadores são os nossos filhos que jogam futsal juntos. Começámos a falar e a ter ideias e percebemos que é possível concretizá-las», conta. 

As primeiras reuniões decorreram no final do mês de outubro, e no dia 1 de dezembro, o presidente, a título individual, juntou-se ao Centro Social para promover um Mercadinho de Natal de Santo Estêvão, porque «queria perceber a receptividade do público antes de concretizarmos a associação», explica. Pouco mais de um mês depois, a 24 de janeiro, foi firmada a escritura pública entre os nove membros fundadores e nasceu, oficialmente, a Associação 1597.

João Luís, Leila Honrado, Hugo da Conceição, Cátia Fernandes, Bruna Paixão, Eduardo Tavares e Santiago Tavares.

«O nosso primeiro objetivo é não fazer nada que já esteja a ser feito. Queremos experimentar coisas novas e diferentes e temos um plano anual de atividades. A associação é cultural, recreativa e desportiva precisamente para podermos abarcar um pouco de todas as áreas. Com isto, pretendemos dar a conhecer e mostrar o valor de Santo Estêvão e do barrocal aos algarvios, aos imigrantes e aos turistas. Temos muitos produtores e artesãos que merecem ser conhecidos e achámos que as nossas atividades eram um bom veículo», refere Hugo da Conceição.

A primeira foi o Baile de Carnaval, com um concurso de máscaras e animação musical, que decorreu no dia 18 de fevereiro, no Salão da Junta de Freguesia, mas que encheu todo o centro da aldeia com decoração carnavalesca, à responsabilidade dos alunos da pré-Primária e Primária da escola local. «Essa vai ser uma constante. Frequentámos aquela escola e os nossos filhos andam lá agora e queremos envolver as crianças de lá em todas as nossas atividades», assegura o presidente. 

Segue-se o primeiro Encontro de Carros Clássicos de Santo Estêvão, a 26 de março, com petiscos e música e um workshop de folares na Páscoa, de forma a também abrangerem a vertente social. «Queremos apostar em iniciativas solidárias. Depois do sismo na Turquia, juntámo-nos ao Movimento Solidário de Cabanas no nosso Baile de Carnaval para recolhermos algum material (roupa, alimentação, bens de higiene). As pessoas aderiram muito e o Moto Clube de Faro ficou responsável pelo transporte. Agora estamos a pensar em maneiras de chegarmos às pessoas mais carenciadas da aldeia. No Mercadinho de Natal juntámo-nos à Refood de Tavira e angariámos donativos alimentares. Os nossos eventos vão ter sempre uma componente de responsabilidade social», adianta Hugo da Conceição.

Por isso, na Páscoa, «altura de ser solidário», a Associação 1597 vai ensinar a comunidade a fazer folares tradicionais, doando os ingredientes, para no final serem distribuídos pela comunidade. «Ainda não sabemos quantos vamos fazer, mas vão ser muitos. Vamos fazer a massa como antigamente se fazia e utilizar alguns dos fornos de lenha ainda ativos em Santo Estêvão. As pessoas mostraram-se muito interessadas em partilhar as suas receitas e em ajudar. Depois vamos oferecê-los na missa da Páscoa e também na escola», diz ainda.

Em junho, o primeiro fim de semana, dias 3 e 4, está reservado para a Festa da Criança, no âmbito do Dia da Criança [1 de junho] com Campeonato de Jogos Tradicionais, em equipas de pais e filhos, bem como um Mini Masterchef [concurso de culinária]. No verão, o coletivo também tem ideias, apesar de ainda carecerem de datas de confirmação. «Temos programado um Ciclo de Cinema ao ar livre, no Largo da Igreja, e queremos recuperar uma tradição que se perdeu em 2002, uma Gincana de Tratores antigos, com percurso de obstáculos», refere o presidente.

Ainda assim, um dos grandes objetivos da 1597 para essa época do ano está relacionada com uma carência de Santo Estêvão. De acordo com Hugo da Conceição, «no verão, a escola e o ATL estão fechados. Temos de levar as nossas crianças para Tavira porque não há atividades para elas aqui. Queremos colmatar isso. Atenção que não somos uma Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS), nem temos intenção de o ser, pretendemos só incentivar e ajudar a que existam pessoas interessadas em criar essa valência durante o verão».

Já em meados de setembro está prevista a Festa das Culturas. «Nos últimos anos, muitas pessoas provenientes do Indostão [Índia, Bangladeche, Paquistão, Nepal e Butão] vieram viver para a aldeia e queremos que se liguem a nós. Não queremos que existam comunidades separadas aqui, queremos unir todos e que as pessoas se conheçam umas às outras», justifica Hugo da Conceição. Por isso, a Festa das Culturas vai apostar em coisas específicas da comunidade indiana e nepalesa. «Achamos que temos muito a aprender com eles e eles conosco. Queremos que nos mostrem os talentos que têm e o que é tradicional nas suas culturas», adianta.

Em outubro regressam os bailes, desta vez o de Halloween e, pelo meio, há de haver novidades sobre as Maratonas de Torneios de Futebol, algo que deixou de ser feito há cerca de 10 anos. «Temos um Polidesportivo que faz 15 anos. É muito recente, tem boas condições, bons balneários, ótimas bancadas, um espaço envolvente convidativo, boa iluminação e muito estacionamento. Portanto, tem um potencial enorme e queremos motivar as pessoas a conhecerem-no», de acordo com o presidente.

Em menos de dois meses de 1597 são já 23 os sócios, «um número que consideramos positivo para uma aldeia pequena», sendo que as inscrições estão sempre abertas e disponíveis para todos, entre os zero e os 99 anos. «Basta contactarem-nos nas redes sociais ou falarem conosco diretamente. Damos a ficha de sócio e falamos das nossas motivações. A jóia de inscrição são 10 euros e a quota mensal é de um euro», explicita.

Quanto ao feedback da comunidade, parece que ainda há quem esteja reticente, mas, a maioria da população «está motivada por estar a nascer uma dinâmica nova. As nossas atividades não coincidem com mais nenhuma de outro coletivo e estamos também disponíveis para os ajudarmos em qualquer evento ou apoio que precisem», assegura Hugo da Conceição.

Para o futuro, o objetivo maior é colocar Santo Estêvão na Rede Aldeias de Portugal. Até lá, «queremos uma associação consolidada, com quatro ou cinco eventos anuais a fazerem parte do calendário e da aldeia», conclui.

Uma aldeia com poucos serviços e muitos estrangeiros

Questionado sobre quais as maiores diferenças em Santo Estêvão em 30 anos, Hugo da Conceição, presidente da recente Associação 1597, responde que, naquela altura, «só existiam ingleses a viver aqui», além dos algarvios.

Hoje, «diria que a percentagem de locais ainda é superior, mas por pouco. Um dos grandes problemas em Santo Estêvão é a falta de habitação. Antigamente, a aldeia era uma terra de grandes quintas e propriedades. Hoje, não há a possibilidade de casais jovens se fixarem cá porque não há casas, não há loteamentos, nem terrenos pequenos para sequer construir. As que existem, como são propriedades enormes, têm valores insuportáveis. Não há nada a menos de 400 mil euros. E quem as compra? Pessoas com grande poder económico. Tavira tem mais de 8000 suecos a viver no concelho e o Cônsul da Suécia está em Tavira. A comunidade sueca é muito forte aqui e têm um poder económico muito superior ao nosso, o que faz com que esses preços existam porque há quem os possa suportar», diz ao barlavento o presidente.

Além de suecos e noruegueses, que adquiriram, nos últimos anos, as grandes propriedades aos ingleses que lá residiam, «também tivemos uma onda de franceses. Depois temos muitos imigrantes oriundos do Industão [indianos, nepaleses e bangladeses]. Mas atenção que estamos a falar de uma comunidade que vem trabalhar para a agricultura, com filhos que andam na escola com os nossos e que não nos retiram habitação nenhuma. Também há  algumas pessoas de etnia cigana», aponta Hugo da Conceição.

«Todas essas comunidades não se integram muito na nossa e esse é um dos objetivos da Associação 1597», assegura. Outra das diferenças que Santo Estevão apresenta em 30 anos é a diminuição dos serviços.

«Haviam mais. Hoje, só temos uma mercearia que, em princípio, vai fechar. Não temos padaria, barbearia, talho, pastelaria, nem sequer padre. Quem vem cá dar a missa é um pároco itinerante. Infelizmente, as pessoas vão ficando mais velhas, reformam-se e encerram os negócios que ainda restam», conclui o presidente da Associação 1597.