Armando Mota quer uma Orquestra Sinfónica algarvia

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Maestro Armando Mota está a encetar esforços para criar uma orquestra sinfónica de grande nível para servir o Algarve.

A ideia surgiu ao longo dos quatro anos do Festival Internacional de Piano do Algarve. Quem o diz é Armando Mota, maestro, diretor artístico do evento e impulsionador do projeto.

«Tornou-se evidente a necessidade de termos uma orquestra sinfónica nossa. Na nossa programação, tivemos de contratar algumas destas formações  a um preço muito elevado. Um coletivo destes tem entre 60 a 80 músicos, o que significa despesas de estadia, alimentação e viagens. É muito caro. Só foi possível graças ao programa 365 Algarve destinado a apoiar as estruturas da região», como a Associação Artedosul, uma entidade sem fins lucrativos que se dedica à divulgação da música erudita no Algarve, assim como a dança, e espetáculos de carácter pedagógico.

A principal dificuldade é a falta de músicos profissionais na região para lhe dar corpo. «Sim, temos consciência disso. Teremos de fazer o que muitas outras orquestras fazem, que é contratar músicos conforme as necessidades de agenda e o calendário de espetáculos».

«O nosso objetivo é que a curto prazo tenhamos que contratar cada vez menos músicos do exterior. Uma das vertentes da futura orquestra sinfónica do Algarve será apoiar os estudantes locais de música que queiram seguir a profissão e dar-lhes a oportunidade de evoluírem artisticamente É um incentivo muito importante», sublinha o maestro.

Em relação ao orçamento necessário, é muito baixo. Corresponde a dois concertos sinfónicos realizados pela Artedosul  em 2019».

Sobre as vantagens de uma futura orquestra sinfónica, a primeira é financeira, «mas as mais importantes passam por criar no futuro postos de trabalho aos algarvios e residentes, e com isso criar público e uma identidade própria. Seria uma forma de afirmação cultural».

Armando Mota reconhece que o projeto vem em contraciclo.

«É verdade. A pandemia veio pôr a nu as fragilidades do tecido artístico nacional. O Algarve foi o mais afetado do ponto de vista económico e social pela COVID-19, mas mas o governo ignora olimpicamente a região e as suas necessidades. Ora, se o Hospital Central é protelado ano após ano, a EN125 é aquilo que todos conhecemos, a A22, a Via do Infante é a via infame, se quase todos nós caminhamos para a miséria, se o programa 365 Algarve desapareceu, e se todas estas necessidades prementes não são atendidas, como é que os artistas podem ter alguma esperança de reclamar alguma coisa?», questiona.

O maestro argumenta que é fundamental «para a atividade turística existir uma oferta cultural forte. Complementam-se. Nessa oferta cultural a musica tem um papel de destaque por ser a arte universal mais transversal e acessível a todos que é a música. A grande maioria dos nossos operadores ignora que em países onde o turismo tem uma importância vital, existem festivais de música que atraem milhares de melómanos de todo o mundo. Salzburgo e Bregenz, só para dar dois exemplos. Mas para muitos dos  nossos hoteleiros, cultura é o rancho folclórico e um teclista a tocar música popular no bar», critica.

Questionado sobre a vida cultura do Algarve, Armando Mota considera que «antes da COVID-19, a região estava a estabelecer uma atividade cultural muito interessante e de alguma relevância. O programa Algarve 365 contribuiu muito para isso. Foi o único destinado ao Algarve, poupando-nos àquela coisa perversa e cheia de lobbies que são os concursos da Direção-Geral das Artes (DGArtes) em Lisboa. Por outro lado, o orçamento da Direção Regional da Cultura do Algarve é para rir» de tão subdimensionado que é.

Ao nível dos municípios, «o poder económico de cada autarquia também é muito diferente e portanto não podemos falar de uma atividade concertante uniforme na região. Dentro das suas possibilidades acho que as autarquias do Algarve têm feito o que podem, pese embora as tais diferenças orçamentais».

Apesar do discurso um pouco desencantado com a realidade, Mota diz que «muitos artistas internacionais e amigos que vivem no estrangeiro perguntam-me o que faço no Algarve? Eu amo o Algarve. Tenciono morrer aqui. Já fiz muito pela região e espero fazer mais. Poderia hoje ser professor de direção de orquestra em Viena, maestro no Brasil, professor na Alemanha ou ter cargos diretivos em Lisboa, onde nasci. Se o Algarve fosse uma nação ter-me-ia naturalizado. Tenho a minha casa ao pé do mar e filhos algarvios. Já são 22 anos da minha vida. A minha mulher é do Sotavento, e adoro a gastronomia. De certeza que numa outra vida era algarvio. Sinto-me realizado profissionalmente. Já escrevi muitas obras sinfónicas, entre as quais a Suite das Descobertas, e sou o autor do Hino do Algarve. Dei muitos concertos como pianista e ainda estou no ativo como maestro».

«Espero conseguir realizar este sonho da Orquestra Sinfónica do Algarve. Sei que posso contar com o apoio da Câmara de Portimão na pessoa da autarca Isilda Gomes, que nos tem apoiado sempre desde a primeira hora, apesar de todas as dificuldades. Sem ela e sem o 365 Algarve, não teria existido o Festival Internacional de Piano do Algarve que neste momento já é uma referência nacional. Com o apoio único de Portimão vai ser possível dar continuidade a este evento cujo programa iremos anunciar muito em breve», acrescenta.

«Penso que está na hora de os algarvios reivindicarem aquilo a que têm direito. E já agora, a Orquestra Sinfónica Nacional, paga com os impostos de todos os portugueses, só uma vez por ano é que faz o favor de tocar fora de Lisboa. Na Europa há o rácio de uma orquestra sinfónica por cada 100 mil habitantes. Será que nos 500 milhões que a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Algarve irá receber haverá um cêntimo para a cultura?», conclui.