ARA sensibiliza escolas de Loulé para o bem-estar animal

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Novo projeto da Animal Rescue Algarve (ARA), além de abranger quase todas as escolas do concelho de Loulé, envolve ainda os utentes da Associação de Saúde Mental do Algarve (ASMAL).

O abrigo situado na zona da Cabanita, em Loulé, criado pelo inglês Sid Richardson após um investimento de cerca de 1,5 milhões de euros, e que em três anos já resgatou mais de 700 animais, volta a marcar pela diferença.

Desta vez, a ARA assinou um protocolo com quase todas as escolas do concelho com o objetivo de educar as gerações futuras para a prevenção do abandono e crueldade para com os animais e de consciencializar para os seus direitos.

«O resgate, o tratamento e o realojamento são uma grande parte da solução, mas a importância da educação é monumental. Negligenciar o seu papel no âmbito do bem-estar animal é o mesmo que aplicar pensos rápidos. O que queremos é ser um exemplo e um modelo», começa por revelar ao barlavento o fundador da associação.

Com isso em mente, no ano passado, e em pleno confinamento, a ARA desafiou 1200 alunos do Agrupamento de Escolas de Almancil, com o qual já possuía um protocolo, a apresentarem trabalhos sobre a temática animal. Poemas, textos, desenhos, projetos de artes manuais e fotografias foram coletados no livro «For the Love of», produzido pela ARA, com o objetivo de angariar fundos.

«Ficámos tão impressionados com a quantidade de contribuições que recebemos que queremos implementar um programa nacional, de forma a abranger o maior número de escolas do país. Deixa-me muito orgulhoso podermos ser uma voz para os animais», adianta o inglês.

Viriato Villas-Boas, Sid Richardson e João Ferreira.

O responsável pelo staff João Ferreira, detalha que «a ideia seria criar um livro, mas a uma escala maior. Poderia ser um concurso de trabalhos artísticos, onde todas as escolas se pudessem inscrever com projetos relacionados com a causa nacional. Os júris selecionavam os melhores e os prémios poderiam ser artigos escolares ou o melhoramento de infraestruturas nas escolas vencedoras. As receitas angariadas com o livro poderiam reverter para a associação, mas o objetivo mais importante é a literacia e colocar Portugal na causa animal. Esse é o nosso foco número um».

Foco esse que justificou então a assinatura de novos protocolos, no início deste ano letivo, com quase todas as escolas do concelho, incluindo a Escola Secundária de Loulé, com a ambição de poderem guiar os estudantes nas melhores formas de se poderem tornar embaixadores para o bem-estar animal.

«Damos a possibilidade às crianças e jovens de virem ao abrigo e terem contacto direto com os animais. É importante que, além de se falar sobre o assunto nas escolas, possam viver essa experiência. Permitimos que conheçam o espaço, que passeiem os cães, que estejam presentes nas nossas tarefas diárias e que entendam como funcionam as nossas rotinas. Além disso, propormos atividades mais dinâmicas, que se tornem voluntários e que participem na organização de exposições e angariação de fundos», explica João Ferreira.

E, apesar do projeto ser recente, o aumento de visitas de escolas ao abrigo tem sido exponencial, assim como o crescimento no número de voluntários locais, em resultado dos recém assinados protocolos.

«Sim, inclusive famílias completas de pais e filhos», confirma. Os exemplos que mais sobressaem são duas alunas que vêm para passar tempo com os gatos. «Uma até vem de casa de trotinete. Elas conhecem-nos melhor que ninguém. Sabem os nomes de todos, as suas características e personalidades. Ajudam imenso a equipa», afirma o membro da ARA.

«Esta é uma mensagem que passamos sempre a todos os alunos. Todos podem ser voluntários. Os maiores de 18 anos podem vir sozinhos e o mais novos acompanhados de um tutor. Podem ajudar na limpeza, socialização, passeios, alimentação, banhos, escovagens. Podem ajudar em todo o tipo de tarefas, que são sempre ajustadas às idades».

Saúde mental e deficiência têm a porta aberta

Antes mesmo do protocolo com as escolas do concelho de Loulé, a ARA, desde 2019 que também promove atividades e até terapia com utentes da ASMAL, uma Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS), que qualifica e integra no mercado de trabalho pessoas com cormobilidades a nível mental, deficiências e situações de risco.

«São vários utentes, todos adultos, cada um com a sua necessidade especial, que se compõem em dois grupos diferentes. Um grupo vem todas as segundas-feiras e o outro vem uma ou duas vezes por mês. A interação com os animais ajuda bastante em diversas patologias mentais como o autismo, mas todos beneficiam muito desse contacto. Ajuda muito em termos cognitivos na estimulação social, mental e física. Os animais também beneficiam com este contacto com pessoas de todas as idades, em cadeiras de rodas e canadianas, objetos que costumam assustar os que têm traumas, mas neste caso associamos a um reforço positivo, que facilita a uma futura adoção», explicita João Ferreira.

Além disso, uma vez que no abrigo estão também alojados alguns cães com necessidades especiais, como é o caso da Tripé, uma cadela de raça Galgo de três patas e do Mago, um cão com paralisia nas patas traseiras, que se desloca em cadeira de rodas, a interação com pessoas em situações idênticas acaba também por ser muito benéfica para ambas as partes.

Voluntariado internacional premiado

Ao longo de três anos foram mais de 900 os voluntários internacionais que ajudaram no abrigo. Devido a toda a sua área, até os autocaravanistas ali encontram as condições necessárias para pernoitarem durante qualquer período de tempo.

«Estamos a falar de pessoas do mundo inteiro, mas sobretudo da Alemanha, Holanda e Inglaterra. Neste momento temos voluntários da Dinamarca e da Suíça. Como a ARA está inscrita numa plataforma mundial de voluntariado, a Workaway, qualquer pessoa interessada pode conhecer o nosso trabalho através da Internet. O que fazemos é dar estadia em troca de algumas horas de trabalho por dia», relata João Ferreira.

Segundo Viriato Villas-Boas, o responsável de comunicação da ARA, foi aquela plataforma online que distinguiu o abrigo da ARA com um prémio único a nível nacional.

«Fomos a primeira instituição portuguesa a ser galardoada com dois prémios. Em Portugal, somos os primeiros e os únicos selecionados de uma rede que possui 50 mil bases de voluntariado em diversos países. Trata-se de um prémio com base no feedback de quem cá esteve. As nossas cotações e comentários foram tão bons que sobressaímos a quem gere a plataforma», refere.

Nova loja social em Loulé

Passados dois anos da inauguração da primeira loja social da ARA, em Almancil, um espaço onde é possível comprar roupa, livros e mobília de alta qualidade em segunda mão, Loulé contou com a inauguração de uma congénere no sábado, dia 8 de janeiro.

De acordo com o fundador da associação Sid Richardson, «é preciso muito investimento para manter um abrigo como este em funcionamento. As lojas são um contributo enorme e a de Almancil tem sido um grande sucesso. O novo espaço conta com uma localização excelente na cidade de Loulé, por baixo do Hospital Veterinário [no número 73 da Urbanização Boa Entrada]. Já abriu portas, é maior que a de Almancil e será um grande contributo» para os animais.

Incêndio de VRSA motiva novas medidas

Durante o incêndio do verão de 2021 em Castro Marim, que acabou por se alastrar a Vila Real de Santo António (VRSA), tendo carbonizado mais de uma dezena de cães num abrigo ilegal naquela cidade raiana, a ARA socorreu e abrigou cerca de 60 animais nas suas instalações. A calamidade motivou a associação louletana a tomar ainda mais medidas de prevenção.

«Esse é um dos motivos para que desde sempre tenhamos pessoas no abrigo durante a noite. Bastava isso em VRSA. Sempre tivemos receio dos incêndios, uma vez que nos encontramos num vale coberto de natureza. Nesse sentido, no ano passado formámos todos os elementos da equipa em como agir em caso de incêndio e de como manusear os equipamentos até à chegada dos bombeiros. Em todas as áreas temos detetores de fumo, extintores, cortinas corta-fogo e mangueiras com 25 metros que estão conectadas a um tanque que instalámos na área superior do abrigo. Todas as áreas têm material específico e adequado. Além disso, toda a zona do abrigo, incluindo os terrenos circundantes, são mantidos limpos e com o mato sempre aparado e tratado, de forma a que seja sempre uma zona segura», conclui João Ferreira, responsável do staff.