Ana Gomes: 80% das crianças nas urgências de Pediatria só «têm ranho»

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Ana Vargues Gomes, médica e presidente do conselho de administração do Centro Hospitalar e Universitário do Algarve (CHUA) diz que 80 por cento das crianças que as Urgências de Pediatria recebem, têm apenas «ranho» e que a afluência ao serviço é «completamente disparatada».

No seguimento da visita de Alexandre Lourenço, presidente do Conselho Regional do Sul da Ordem dos Médicos, ao CHUA – Hospital de Faro, Ana Vargues Gomes disse aos jornalistas que nos serviços de Urgência Pediátrica, «temos tido mais de 250 crianças por dia na Urgência, o que não faz sentido. É impossível responder a 250 urgências por dia no CHUA. Não temos equipa para dar resposta a isto».

Na opinião da médica, o número diário «nem faz sentido. Estamos a receber crianças que estão com ranho, com o nariz obstruído e que vêm para a Urgência do hospital. Portanto, quando temos isto, é impossível não termos tempos de espera completamente desfasados», afirmou.

Questionada sobre a falta de alternativas para os pais, numa altura em que os Centros de Saúde ainda estão condicionados pela resposta à COVID-19, a presidente passou responsabilidades para a Administração Regional de Saúde (ARS) do Algarve.

«O que estamos a tentar, neste momento, com a ARS e com os diretores dos Agrupamento de Centros de Saúde (ACES), é ver a melhor forma de os conseguirmos apoiar, para que possam ver os doentes que lhes competem. Cada um de nós tem de fazer a sua parte, se não é impossível».

«O que estamos a fazer é articular com a ARS para tentar diminuir o número de urgências. Temos uma afluência às urgências pediátricas na ordem das 250 crianças por dia, que é insustentável com equipas grandes ou pequenas, é um número que não é legítimo. Temos de pôr as pessoas a serem atendidas nos sítios certos. Senão, isto é completamente insustentável», acrescentou ainda.

Já em relação aos problemas nos serviços de Pediatria e Obstetrícia, Ana Vargues Gomes disse que «as escalas foram feitas com muito esforço dos profissionais, e muito altruísmo diria, porque as pessoas têm dado o que têm e o que já não têm».

Existem «colegas que já tinham idade para ter dispensa de Urgência e de noites, mas que o têm feito para garantir a saúde das crianças» do Algarve.

Por esse motivo, a responsável pediu para que se tenha «respeito por este esforço. Portanto, para utilizarem aquilo que são os canais normais: a Linha de Saúde 24, os Centros de Saúde, os atendimentos respiratórios e o serviço de urgência básica, que também atendem crianças. Peço que utilizem os recursos que existem, para que não haja esta afluência à urgência completamente disparatada».

Ana Varges Gomes responsabilizou mesmo «a afluência dos doentes» pelos problemas na resposta.

«Nos doentes COVID-19, as pessoas ligavam para a Linha de Saúde 24, eram referenciadas e só nalgumas situações mais complexas é que vinham para aqui. Neste momento, não. Acho que as pessoas perderam o medo das urgências hospitalares e que tudo voltou ao que era antes. Voltaram a utilizam mal os serviços. O que é uma pena», exclamou.

«Fiquei com a ideia de que as pessoas já tinham aprendido como se utilizavam bem os sistemas», adiantou a presidente. Contudo, por dia, «mais de 50 por cento dos doentes que vêm à Urgência de adultos, são verdes e azuis. O que quer dizer que a prioridade de estarem cá é muito baixa. Não teriam que estar cá», assegurou.

COVID-19 já faz «alguma interferência na atividade do dia a dia»

Em relação à pandemia de COVID-19, «entre os internamentos normais e as Unidade de Cuidados Intensivos (UCI) temos cerca de 70 doentes em ambos os hospitais. Em UCI estão 11, nove em Faro e dois em Portimão. Obviamente que isto já começa a fazer alguma interferência na atividade do dia a dia, sobretudo na produção adicional. Ou seja, na que estávamos a fazer para recuperar as listas de espera. Neste momento, começa a ter algumas limitações. No fundo, a pressão traduz-se nisto: não parámos a atividade normal, reduzimos aquilo que é a atividade adicional que estávamos a fazer para recuperar as listas de espera com muito bons resultados, mas é uma questão de gestão de camas. Se ocupamos 70 camas, não temos essas 70 para os outros», disse Ana Vargues Gomes aos jornalistas.

Em comparação com o que sucedeu no passado recente, o CHUA ainda se encontra na primeira fase do plano de contingência, embora as equipas sejam hoje mais experientes.

«Neste momento, não estamos a deixar de fazer nada. Estamos a diminuir a produção adicional. O que quer dizer que o que estávamos a fazer, em termos de recuperação de lista de espera, é ligeiramente menor. Continuamos a operar, a ter consultas e a fazer tudo, só que temos de ir doseando. Porquê? Porque as cirurgias que requerem internamento têm de ter cama para deitar os doentes».

Por outro lado, também os problemas sociais que não tinham solução, parecem continuar a carecer da mesma.

«A crescer a isto, também temos os doentes que se mantêm na instituição e que não têm qualquer saída. Estão a aguardar vaga num lar, ou na rede de Cuidados Continuados, ou nos Cuidados Paliativos e não há resposta», acrescentou a presidente da administração do CHUA.

«Portanto, estes doentes não têm razão para continuarem internados no hospital, mas continuam aqui. Daí o apelo para que as pessoas possam levar os seus familiares para casa e que aguardem estas vagas no domicílio. Primeiro, porque é melhor para os doentes que não têm de estar aqui a infetar-se com coisas que não têm, e depois porque também nos permite tratar dos outros que realmente precisam de ser internados para ser operados e fazer os procedimentos que são necessários», apelou.