Algarve é pano de fundo para longa-metragem britânica

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Produtoras cinematográficas inglesas e portuguesas juntaram-se para produzir o filme «There’s Always Hope» com estreia mundial marcada para o verão de 2021. Orçamento de um milhão de libras gerou cerca de 100 empregos na comunidade local.

O guião estava escrito há três anos, mas as filmagens começaram apenas em plena pandemia da COVID-19. O filme narra a história de vida de um casal britânico, que tem uma casa de férias no Algarve, e que começa a ter problemas no seu relacionamento.

Mas o enredo que seria um drama, acabou por se tornar também uma comédia, e retrata os esforços de toda a família para tentar voltar a unir o casal. Julian Hicks, CEO da Moviebox Film Studio e um dos produtores executivos da longa-metragem, admitiu ao barlavento, na apresentação à imprensa do filme, na tarde de segunda-feira, dia 9 de novembro, em Ferragudo, na sede da Spy Manor Productions, que «quando o guião surgiu, em 2017, já tinha planeado filmar algumas cenas no Algarve». Isto porque a região algarvia não é uma novidade nos cenários dos filmes produzidos por Hicks.

«Viemos cá há cinco anos rodar a primeira longa-metragem. Para ser honesto, originalmente procurava sítios para filmar em França, mas quando conheci o Algarve, por ter cá amigos, ficou óbvio que a oportunidade estava aqui. Depois da primeira ótima experiência que tivemos, descobrimos que esta indústria tem espaço para crescer aqui em múltiplos aspetos», contou o produtor.

Além disso, o cineasta considera que é mais fácil gravar no Algarve do que no Reino Unido. «Os impostos generosos do governo e o apoio da população local faz com que não seja muito difícil juntarmos tudo aqui, olhando para todos os benefícios».

«A vida no Reino Unido não é tão simples e o tempo não ajuda, nem a forma como as coisas são abordadas. Acho que filmar aqui no Algarve é bem mais fácil e a atitude dos algarvios é verdadeiramente encorajadora, mesmo quando trabalham em tempos difíceis como este que vivemos, e isso ajudou-nos muito também. As Câmaras Municipais de Lagoa e Loulé deram-nos um grande apoio. Todos ajudaram a fazer desta experiência um prazer, mesmo com todas as restrições» impostas pela pandemia.

«There’s Always Hope» torna-se ainda mais relevante para a cultura cinematográfica na região, uma vez que une as produtoras britânicas Eagle Films e Bad Penny Productions com a portuguesa Monte Productions.

A estas juntam-se ainda a mais recente empresa algarvia ligada à sétima arte, a Spy Manor Productions e a já veterana Production Algarve, que ao longo dos anos têm atraído todo o tipo de produções audiovisuais, sobretudo do norte da Europa.

Filmar em plena pandemia, segundo Julian Hicks, foi mesmo o maior desafio «a vários níveis» para toda a equipa. No Algarve, as gravações decorreram ao longo de 14 dias. Terminaram esta semana e contaram com a participação de quase 100 elementos, a maior parte residentes em Portugal, entre equipa técnica, atores, produtores e outros.

«Foi um período intenso. Tivemos de pensar ao pormenor tudo aquilo que fazíamos diariamente como a logística de transportes, alimentação e estadias. Tivemos de garantir, durante três semanas, quase 100 pessoas dentro da nossa bolha, noite e dia», recorda.

Na prática, do orçamento total, que rondou um milhão de libras, 10 por cento desse valor foi utilizado em medidas de segurança e dias extra de gravações. Os produtores criaram uma equipa COVID-19, independente, apenas para garantir o cumprimento das regras da Direção-Geral de Saúde (DGS).

Manuel Baptista, Vanda Everke, Julian Hicks, Haay Klunder, Nina Klunder e Fábio Guerreiro.

Foi até contratado um diretor responsável, Otto Linden, que acompanhou a rodagem com dois médicos assistentes. Harry Klunder e a filha Nina, da Algarve Productions, explicam que conter eventuais redes de contágio da COVID-19 foi a principal preocupação do elenco.

«Estivemos dentro de uma bolha e forçávamo-nos a estar dentro dela. Ficámos todos no mesmo hotel e ninguém tinha permissão para sair, mesmo nos dias de folga. Qualquer pessoa que entrasse de fora na nossa bolha, tinha de ser testada. Houve muitas restrições que tivemos de impor», disse Harry. Um lado positivo desta experiência, contudo, é que «as pessoas ficaram mais próximas umas das outras».

«A equipa uniu-se e começámos a sentir que estávamos até dentro de uma família. Quando gravámos a última cena, no dia seguinte toda a equipa já tinha ido embora. Foi muito estranho para nós. O que retirámos de positivo podemos usar como base para a produção do próximo filme. Além disso, demos confiança ao governo e à administração central e é importante que vejam que conseguimos lidar com as regras e que não tivemos nenhum caso positivo nas quase 100 pessoas, muitas delas estrangeiras», sublinhou.

Já sobre as escolhas dos municípios algarvios para cenário de algumas cenas da nova longa-metragem, Harry Klunder, com 20 anos de experiência no ramo do cinema no Algarve, explicou que foi um processo simples.

«Primeiro deviso à ajuda que recebemos do Loulé Film Office, que fez com que as coisas se tornassem mais fáceis. Fomos ter com eles, dissemos o que queríamos, no sítio que queríamos e eu sabia que eles iam fazer acontecer. Depois optámos por Lagoa para obter as paisagens de mar com rochas, que Loulé não tem».

Sobre a parceria entre a Spy Manor Productions, a Algarve Productions e a Moviebox Film Studios, o filme «There´s Always Hope», parece ter-se tornado no primeiro de muitos projetos comuns.

«Até ser criada a Spy Manor Productions, no ano passado, eu era o único da indústria aqui no Algarve. Estava sozinho. Tive colegas em Lisboa que me diziam que era ingénuo por estar nesta região porque o dinheiro fazia- -se em Lisboa. Mas eu sempre acreditei no Algarve. Acho que juntos vamos ter um futuro próspero neste ramo», concluiu Klunder.

Para este produtor executivo, tanto a Spy Manor Productions, como a Algarve Productions, «provaram ser a escolha certa para este projeto».

Por fim, Vanda Everke, fundadora da recente empresa cinematográfica na região algarvia, considerou que a junção de sinergias «foi perfeita e estamos mesmo felizes por nos termos encontrado uns aos outros. Quero realçar que a nossa parceria começou durante a COVID-19. Embora o mundo esteja a passar por um mau período, conseguimos criar algo positivo e profícuo. Estou muito contente com o resultado final».

A equipa regressa agora ao Reino Unido para seguir com as filmagens. A estreia de «There’s Always Hope» está prevista para o verão de 2021.

O filme é dirigido por Tim Lewiston. Colm Meaney, Kate Asfield e Hannah Chin são alguns dos atores que compõe o elenco. Tim Hutchinson, designer nomeado aos Óscares, o compositor Guy Farley e o editor Jeremy Gibb fazem também parte da equipa. No Algarve, Fábio Guerreiro ficou encarregue pela direção fotográfica.

Loulé vai ter estúdio da Moviebox Film

Julian Hicks, fundador da produtora cinematográfica Moviebox Film Studio revelou ao barlavento que já perdeu a conta do número de filmes que produziu. No Algarve, totaliza já quatro longas-metragens. Esse é um dos motivos que levou o responsável a querer apostar na região. «Acredito que podemos continuar a produzir e a filmar aqui. Já conhecemos a área e as pessoas. Conhecemos o potencial do Algarve, estamos a conhecer os locais e já sabemos quais as pessoas com quem podemos trabalhar e qual a sua dedicação. Queremos que tenham uma oportunidade connosco. Tem tudo a ver com as pessoas que conhecemos aqui na região e o quanto nos têm ajudado», afirmou.

Nesse sentido e porque «a Moviebox Film Studio é uma organização que pretende ganhar o seu espaço na região, em termos de desenvolvimento cinematográfico, estamos a procurar desenvolver um novo estúdio, no início do próximo ano, em Loulé. Com isso queremos desenvolver ainda mais o nosso trabalho internacionalmente e de diferentes maneiras».

Studio Spy Manor Productions e Algarve Productions querem criar série regional

Vanda Everke e Harry Klunder, fundadores da Spy Manor Productions e da Algarve Productions, respetivamente, tiveram a ideia de criar um workshop para argumentistas. De 3 a 7 de dezembro, na sede da Spy Manor Productions, em Ferragudo, 10 candidatos irão aprender o que melhor se faz na indústria. Todavia, o objetivo principal da formação vai mais além.

«Queremos apoiar e fomentar a criação de conteúdos autênticos, de raiz algarvia, e apelativos ao público internacional. O conteúdo será ainda encaminhado para os serviços internacionais de streaming, emissoras e redes para o desenvolvimento de uma série de televisão baseada no Algarve. A nossa iniciativa visa criar conteúdos regionais para serem produzidos e filmados apenas aqui. Queremos promover uma oportunidade para todos florescermos juntos», esclareceu Vanda Everke ao barlavento.