Algarve apoia projetos de Turismo de Natureza em Cabo Verde

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O conhecimento académico e a experiência profissional do Algarve está a ser útil ao arquipélago em vários projetos em curso, apesar da pandemia.

Por estes dias, Nuno de Santos Loureiro, docente da Universidade do Algarve (UAlg) está na Ilha de Santiago, em Cabo Verde. É a primeira de seis viagens agendadas para 2021, com o objetivo de ajudar na implementação de projetos que cruzam o turismo de natureza com a conservação da biodiversidade de um território ainda virgem.

Para já, avança a criação de uma rota pedestre, de 28 quilómetros, numa paisagem de vulcões adormecidos e um forte contraste entre a aridez da terra e o azul do oceano.

«Quando fiz o primeiro projeto de conservação da natureza na Ilha de Santiago, percorri o território a pé para perceber onde havia capturas e onde se consumia, por tradição, tartarugas marinhas. Na altura, houve um sítio que me fascinou e impressionou pela sua beleza natural que é a Baía do Inferno. É na zona sudoeste, uma das mais desabitadas, pois tem a encosta mais árida. A outra encosta do lado nordeste é muito mais húmida, é mais verde» e por isso com maior densidade populacional. Mas «tem uma beleza muito especial. Pareceu-me muito interessante para o turismo de natureza», diz Nuno Loureiro, que tem uma relação de amizade (e até familiar) com aquele arquipélago africano.

Em 2019, contudo, surgiu a oportunidade. A associação Lantuna, uma Organização Não Governamental (ONG) de Ambiente e Desenvolvimento «contactou-me a pedir coloração para desenvolver alguns projetos. Uma das coisas que surgiu foi fazer uma candidatura a um fundo das Nações Unidas de cariz ambientalista, que tem uma componente de desenvolvimento local e outra de turismo de natureza. Nesta última, surgiu a hipótese de se criar a Rota Pedestre na Baía do Inferno e no Monte Angra. Comecei a traçar um percurso linear e a envolver parceiros locais» sobretudo nas comunidades piscatórias de Porto Mosquito e Porto Rincão.

Porto Mosquito.

Para já, está criado um troço de sete quilómetros, que foi melhorado com a colaboração daquelas comunidades. Numa altura em que a pandemia assola o mundo, «o turismo praticamente desapareceu de Cabo Verde. Mas o governo está a promover cursos de guias de natureza e mesmo nestas condições, estão a ser feitas melhorias nas infraestruturas de alojamento e restauração para se começar a ter um produto turístico» apetecível, já a pensar no pós-COVID.

«Em termos de paisagem, a Baía do Inferno é muito interessante. Ali existem perfeitamente percetíveis, sete cones vulcânicos. A baía é uma arriba vertical com 650 e metros de altura e tem duas populações de aves marinhas, o Alcatraz (Sula leucogaster) e Rabo-de-Junco (Phaethon aethereus), que são espécies que não temos em Portugal e ambas muito apreciáveis em termos do seu interesse biológico», descreve.

Nuno de Santos Loureiro não esconde que também há um lado negativo potenciado pelo eventual crescimento do turismo.

«Obviamente que há impactes na natureza. De qualquer forma, esta é uma estratégia que passa por encontrar forma de os minimizar e encontrar um equilíbrio. Em março vamos lançar um novo projeto de investigação em que vamos estudar o esforço de pesca das duas comunidades piscatórias. Vamos cruzar essa informação com um estudo sobre a alimentação das aves marinhas, no sentido de perceber se há algum conflito entre ambas».

«Se houver, porque isto ainda é uma incógnita científica, por um lado, tentaremos criar um plano de gestão para a pesca. Estarão também envolvidas as autoridades cabo-verdianas, como a Direção-Geral de Recursos Naturais. Por outro lado, será necessário encontrar alguma alternativa de receita, numa lógica de sustentabilidade».

Pesca do atum.

«Os passeios turísticos de barco com os pescadores podem ser uma alternativa. Ver pescar atum ao largo da Baía do Inferno é qualquer coisa de espetacular. Outro atrativo é a pesca de Peixe Serra (Acanthocybium solandri)», uma arte local que Nuno Loureiro já assistiu.

Na investigação que arrancará já em março, além do apoio da UAlg, terá também a participação da Universidade de Coimbra, com o expertise de o Vitor H. Paiva, do MARE, Centro de Ciências do Mar e do Ambiente.

«O papel da UAlg, modéstia à parte, tem sido relevante. É um consultor qualificado e temos dado um apoio muito grande na elaboração das candidaturas, na elaboração das estrangeiras e também na sua concretizado, sempre tentando que os parceiros locais vão amadurecendo e evoluindo. A ação da academia algarvia tem sido determinante para que isto avance», sublinha.

Além disso, «durante vários anos, os alunos dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) eram numerosos na UAlg. Essa realidade foi-se alterando, talvez por falta de bolsas de estudo. Neste momento, as relações com Cabo Verde são diminutas e pontuais. Mas acho que a manutenção com os PALOPs e sobretudo com este país deve ser acarinhada», opina.

«Estão a ser feitos uma série de contactos com agências de turismo de Cabo Verde que trabalham no segmento das caminhadas. Está criado um pequeno website. E ao longo do ano haverá uma série de formações sobre aspetos mais técnicos para que os parceiros locais possam amadurecer, evoluir e ganhar autonomia».

Proactivetur aposta em São Nicolau

Em 2019, a empresa algarvia especializada em ecoturismo iniciou uma experiência internacional em São Nicolau, Cabo Verde, através da participação no «Projeto Caminhar» e no apoio à estruturação do turismo de natureza naquela ilha.

A Proactivetur, liderada por João Ministro, durante muitos anos ligado à associação ambientalista Almargem e considerado o «pai» da Via Algarviana, a grande rota pedestre que atravessa o Algarve, começou também a comercializar um programa de caminhadas naquele arquipélago, uma atividade que teria continuidade, não fosse o aparecimento da pandemia.

«Estivemos em São Nicolau a colaborar na implementação de uma rede de percursos pedestres para apoiar o desenvolvimento do turismo de natureza naquele território. Um projeto em parceria com a Ecovisão, Dicas e Pistas e a Associação de Turismo de São Nicolau. Nas várias ações, procurou-se também sensibilizar e envolver as comunidades locais», explica ao barlavento.

No total, «temos 200 quilómetros de percursos pedestres sinalizados. Uma rota principal, que está dividida em cinco sectores, com um máximo de 23 quilómetros, e três tipologias. Há um percurso de ligação, entre várias localidades e percursos complementares», refere João Ministro.

O modelo do que foi feito na ilha cabo-verdiana é inspirado na Via Algarviana. «Sim, o princípio é o mesmo. Ou seja, cada etapa começa e acaba num sítio onde há um alojamento. Essa é uma parte importante porque tem de haver serviços» de apoio ao turismo.

«Ainda que em alguns locais o alojamento ainda seja muito escasso, há um trabalho que está a ser feito no sentido de sensibilizar as pessoas para criarem negócios, da mesma maneira que a Via Algarviana ainda está a fazer», compara.

Ao largo da rota, as cidades de Ribeira Brava e o Tarrafal, são pontos de abrigo para os caminhantes.

«Na altura, quando a ilha foi colonizada, começaram a utilizar os campos para a agricultura e construíram uma rede espetacular de caminhos pedrados. Acho até que há intenção de os tentar classificar, e até criar uma escola de mestres para os recuperar», diz, ao exemplo do que a Proactivetur tem vindo a fazer no Algarve com o projeto TASA.

Ministro descreve uma paisagem incrível, sobretudo no segmento mais ribeirinho.

«Estamos no topo da montanha, chegamos ao Porto de Lapa, o primeiro lugar onde chegaram os primeiros colonizadores da Ilha, e é uma praia muito bonita. Chamamos de percurso virtual que só pode ser feito por GPS, porque é um sítio totalmente isolado, temperaturas áridas, muito técnico, difícil de fazer apesar de plano e pode ser perigoso porque se apanha muitas ondas. Se a maré estiver alta, somos fustigados pelas ondas. De qualquer forma, é lindíssimo» e até é possível avistar baleias no horizonte.

Em relação ao futuro próximo, «em 2021, logo que a pandemia abrande, regressaremos a Cabo Verde, não só para levar caminhantes a conhecer São Nicolau, no âmbito dos nossos programas de viagens, mas iremos iniciar um novo trabalho naquele país, desta feita em Santiago», revela João Ministro.

«Iremos, de novo, em parceria com a empresa Ecovisão, trabalhar na implementação de uma rede de percursos nesta ilha, com o objetivo de impulsionar a procura turística, com enfoque no turismo de natureza. O projeto, em muito semelhante ao de São Nicolau, pretende dar a conhecer de forma sustentável os valores do território de Santiago e apoiar a economia local», conclui.

Ainda durante a campanha de 2019, a Proactivetur aplicou desenvolveu uma consultoria para a valorização do artesanato de São Nicolau e de um formação de acompanhantes de grupos de trekking em percursos de montanha, ambas ações em cooperação com o LuxDev (Cooperação Luxemburguesa), a SN-Turismo e as Câmaras Municipais da Ribeira Brava e do Tarrafal. O resultado do trabalho pode ser consultado aqui.

Universidade do Algarve ajuda a criar novo Parque Natural

Na manhã de 8 de janeiro, foi apresentada ministro da Agricultura e Ambiente, Gilberto Silva, a proposta para a criação do Parque Natural da Baía do Inferno e Monte Angra (PNBIMA), desenvolvida pela ONG Lantuna, a Universidade Jean Piaget de Cabo Verde e a Universidade do Algarve (UAlg).

A proposta é constituída por um dossier técnico detalhado e por uma manifestação de apoio com mais de 300 subscritores, incluindo muitos residentes nas povoações situadas nos limites daquela zona da ilha da Ilha de Santiago.

No interior do futuro novo parque «convivem valores naturais muito diversos, desde as formações geológicas do Pliocénico-Miocénico, até a uma biodiversidade animal muito rica, com, por exemplo, a maior colónia nidificante de alcatraz (Sula leucogaster) existente em Cabo Verde e uma das maiores de rabo-de-junco (Phaethon aethereus) de toda a África ocidental. Três espécies diferentes de tartarugas marinhas e outras tantas de golfinhos e de baleias habitam ou visitam regularmente as águas da Baía do Inferno».

Jacques-Yves Cousteau na Baía do Inferno

O naturalista francês Théodore Monod, que no final da década de 1940 esteve na Baía do Inferno com Jacques-Yves Cousteau e Auguste Piccard para testar o batíscafo, está agora novamente em Porto Mosquito.

Um retrato do célebre mergulhador e explorador, pintado pelo artista plástico cabo-verdiano Tutu Sousa, integra o «Percurso Jacques Cousteau», uma iniciativa da ONG Lantuna apoiada pela Embaixada de França.

Serão criados diversos murais nas paredes das casas da comunidade de Porto Mosquito e que irão abordar temáticas relacionadas com as experiências de Cousteau, a biodiversidade local, as ameaças causadas pela poluição e mudanças climáticas e a vivência histórica daquela comunidade. A ideia é lembrar e homenagear todo o trabalho de defesa e a salvaguarda do meio ambiente que Cousteau deixou às gerações futuras.

Fotos: Nuno de Santos Loureiro e Proactivetur.