Agulhas Marafadas de Portimão costuram para derrotar a COVID-19

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Movimento solidário de costura assumiu a produção de diverso material de proteção, para dotar os enfermeiros de maior confiança no combate à pandemia do século.

O relógio marca as primeiras horas da nublada segunda-feira, dia 30 de março, e a campainha soa numa casa, entre tantas outras, no Bairro dos Pescadores, em Portimão. Ali vive Susana Espírito Santo, proprietária do blog Cantinho da Gaiata e uma ávida praticante de tricot e crochet, com 53 anos, que ocupa com essa arte os tempos livres que sobram do seu trabalho, numa clínica dentária.

Abre a porta e, perante si, Conceição Cruz, a «São» para os de trato mais próximo, 56 anos, monchiquense de nascimento e enfermeira-chefe num dos serviços de Medicina no Centro Hospitalar Universitário do Algarve – Hospital de Portimão, onde exerce há 31 anos.

De máscara colocada, São carrega um saco cheio de materiais fornecidos pelo hospital e não só, e à distância passa-o para Susana. Lá dentro vem tecido de algodão, Tecido Não Tecido (TNT), material cirúrgico e elásticos, tudo o que será necessário para a labuta solidária. A entrega está feita, numa rotina que tem sido diária desde o dia 21 de março.

Susana Espírito Santo reúne-se à mesa com a sua mãe, de 78 anos, e a sua filha, de 24. O marido, esse, é um dos que ainda trabalha presencialmente, noutra unidade de saúde do concelho.

As mais velhas assumem as máquinas de costura e, a mais nova, trata dos cortes, seguindo os moldes fornecidos e ajudando ainda em algumas montagens.

Agulhas Marafadas costura

A tarefa, «mais que um trabalho, é uma missão, que nos foi destinada devido à falta de kits de proteção individual registada naquele hospital», conta Susana à reportagem do barlavento, acrescentando que «temos produzido toucas em tecido 100 por cento algodão, cogulas com TNT e proteções para os sapatos. Máscaras não conseguimos. Exige um tipo de tecido que não tem sido fácil encontrar e sem isso apenas dão uma falsa sensação de segurança».

É assim que a família ocupa mais de oito horas do seu dia. Susana está em casa porque o local de trabalho fechou a 18 de março e a filha está em teletrabalho há duas semanas. A mais habituada a isto tudo é a sua mãe, com 78 anos, que agora até agradece «a companhia mais constante».

A «artista solidária» revela que esta crise pandémica da COVID-19 tem «alterado muito as dinâmicas da família. Não é fácil estar em casa os dias completos quando antes a vida nos brindava com o oposto. Tenho apostado nas limpezas e ainda bem que também surgiu este desafio. Como tenho tido sempre materiais disponíveis, os tempos mortos têm sido muito reduzidos».

A publicidade «de boca» fez o seu trabalho e, entretanto, até a Santa Casa da Misericórdia de Portimão pediu 40 toucas e 40 viseiras para os serviços de apoio domiciliário e para o lar. Material despachado e até já há outra «encomenda» para mais 200 viseiras e 130 toucas. Já para o hospital, da sua casa, saíram 89 toucas e 366 cogulas.

Mas não é só Susana que tem posto as mãos à obra nesta tarefa. Ao todo, são nove costureiras no núcleo duro e há mais «em bolsa», caso seja necessário ampliar a produção.

Fazem parte do grupo Agulhas Marafadas, que nasceu há seis anos e reúne mulheres de todas as idades para troca de ideias e experiências sobre a arte de tricotar e fazer crochet. Encontravam-se, quando o mundo ainda permitia afetos próximos, em cafés que se disponibilizavam a receber aqueles convívios onde «muito se aprendia», lembra Susana, já saudosa e ansiosa pela possibilidade de repetir essas tertúlias.

Agulhas Marafadas

Do grupo faz também parte Conceição Cruz. A «Enfermeira São» é a responsável pela distribuição do material de confeção, do hospital para as mãos que o transformam e no sentido oposto, garantindo que as criações chegam a todos os serviços hospitalares que delas necessitam.

Ao barlavento, lembra uma máxima que lhe ensinaram quando era ainda novata na enfermagem: «com um adesivo e imaginação fazemos tudo, e adotei essa máxima para a minha vida. Até agora, para contrariar esta falta de material que é real. Não há muitas fábricas a produzir estes bens em Portugal e no estrangeiro as encomendas são mais que muitas, de todo o lado. Nem tudo chega cá».

A profissional de saúde, cansada e preocupada com os dias de intenso trabalho que tem vivido, diz ter «nascido voluntária. Implementei essa vertente no hospital e sempre que há solicitações estou lá».

Quando lançou o desafio às Agulhas Marafadas, já esperava a adesão em massa, pois «todas estavam ansiosas por ajudar. Já tínhamos participado num projeto de envio de roupas para África, o Little Dress for Africa, que foi um sucesso. Agora montámos esta máquina e, se porventura tiver de ficar no hospital vários dias a trabalhar, já existe um plano B para garantir a distribuição de tecidos pelas costureiras».

Dentro da unidade de saúde, São conta com a ajuda «dos enfermeiros supervisores dos serviços, para proceder à entrega das cogulas e proteções de sapatos» aos que estão no terreno. As toucas são distribuídas por ela, dando a primeira gratuitamente e cobrando «dois euros pela segunda, para ajudar a financiar o material», que nem todo existe por via hospitalar. Os colegas dizem «que é pouco, mas o objetivo não é ganhar dinheiro».

Sobre a COVID-19, e convivendo bem de perto com ela no desempenho das suas funções, Conceição Cruz avisa que «nenhum país está preparado para uma coisa destas. A sensação que tenho, todos os dias, é de estar à espera de um tsunami. É o medo, a angústia, a aflição por estar na frente da batalha».

Com alguma mágoa, relembra que «quando fizemos greve, quando pedimos melhores condições de trabalho, muitos chamaram-nos criminosos. Mas hoje somos nós que estamos aqui, com falta de pessoal, ninguém se está a negar a nada mesmo com os filhos e a família em casa, muitas vezes sem os vermos por termos medo» de levar este inimigo invisível para dentro das suas portas.

Agora, «cada um tem de fazer o seu papel, que é ficar em casa. Ainda vejo muita gente na rua», lamenta Conceição Cruz. A enfermeira afirma que é tempo de «todos darmos o melhor que podemos. Todos os dias há mudanças e, numa guerra, tem de haver uma voz de comando. Não é tempo de pedirmos ao governo. É tempo, sim, de pedir a nós próprios e de fazermos o que está ao nosso alcance para travar o inimigo».

Entretanto, finda mais um dia. A campainha daquela casa, no Bairro dos Pescadores, em Portimão, volta a tocar. Susana entrega um saco cheio de solidariedade. São entrega mais um saco de material. Tudo à distância, com máscaras e pouco afeto. Os tempos assim o exigem. Amanhã é outro dia, menos um nesta guerra – no hospital, todos estarão mais protegidos, e naquela casa todos estarão mais ocupados e com sentimento de dever cumprido.

Agulhas Marafadas

Doença é silenciosa e chega a todos

Conceição Cruz, enfermeira-chefe na unidade de Portimão do Centro Hospitalar e Universitário do Algarve, explica, mais tecnicamente, que «não há armas para usar contra este patogénico, pois ele não é conhecido. A doença é silenciosa, começa ligeira e, de um momento para o outro, agrava, levando a alguns casos graves. Depois existem muitos portadores assintomáticos do vírus, e isso é terrível, pois fomenta a propagação».

A profissional de saúde deixa ainda um aviso à população mais jovem: «já tivemos vários doentes novos e até atletas. Os casos podem ser graves, independentemente da idade e da condição física do portador» deste novo Coronavírus.