Seleção Nacional Paralímpica de Canoagem treina em Portimão

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Foz do Arade tem condições semelhantes a Tóquio para a prática da modalidade. Estágio da Seleção Nacional Paralímpica de Canoagem conta com o apoio do Clube Naval de Portimão.

A Seleção Nacional Paralímpica de Canoagem está a treinar em Portimão para a participação nos Jogos Paraolímpicos de Tóquio. E não é a primeira vez que o faz. Em entrevista ao barlavento, atletas e técnico explicam porque escolheram a cidade do Arade, quando habitam em Montemor-o-Velho, o único centro de alto rendimento da modalidade em Portugal.

Ivo Quendera é o técnico nacional de para-canoagem. Formado em Desporto, praticou a modalidade desde criança e tornou-se treinador em 1998. Em 2002, entrou na área da deficiência, primeiro na natação e depois na canoagem. Foi cedido pelo Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ) à Federação, no âmbito do Projeto Paralímpico.

Norberto Mourão falhou por sete décimos a sua qualificação para os Jogos Paraolímpicos no Rio de Janeiro, onde a modalidade foi incluída pela primeira vez.

Neste momento, já está qualificado para Tóquio. Floriano Jesus ainda não, mas não deve ter qualquer dificuldade. Na categoria em que participa, havia 10 vagas a nível mundial. No primeiro ano (2019), foram preenchidas seis.

Para as quatro vagas restantes, que irão ser agora disputadas, o atleta português, pelos tempos que tem, é o favorito para ocupar a primeira. «Infelizmente, só temos um centro de alto rendimento que se se situa mais ou menos no centro do país e que até oferece boas condições para praticar a distância em que competimos, os 200 metros. O problema é que um atleta, quando treina sempre no mesmo local, ganha vícios e rotinas. Quando há alteração de local, numa competição internacional, com uma pista diferente, podem surgir problemas de ansiedade e dificuldades de adaptação a essas pistas. Para combater isso, temos de mudar as rotinas, de vez em quando, procurando sítios diferentes», explica Ivo Quendera.

A equipa já estagiou em vários locais de Portugal, mas embora tivesse passado férias em Portimão e Praia da Rocha, na juventude, e conhecesse alguns clubes locais, desconhecia as extraordinárias condições que o Arade tem para a canoagem.

Porém, «os atletas da canoagem dita regular estiveram a estagiar no hotel onde nós estamos e disseram que o mesmo se encontra mesmo em cima do rio, o acesso é bom e o plano de água, tirando algumas situações de vento, é excelente para fazer quilómetros. E dentro da avaliação do plano que fiz tive de fazer uma escolha, tendo em conta que os Paraolímpicos de Tóquio, no caso da canoagem, vão ser realizadas numa das ilhas. Estamos a falar em água salgada com exposição ao vento. Logo, temos de nos preparar. A foz do Arade oferece-nos as condições ideais, porque, embora tenhamos mais de três quilómetros de costa, é difícil encontrar um local onde atletas em cadeiras de rodas tenham facilidade em chegar ao pontão junto à água e possam fazer esta prática. Tenho de assumir que esta zona de Portimão tem muito boas condições. Tem vento e há correntes, que podem ser complicadas, mas eles necessitam dessas variáveis. Depois, a maravilha do espaço em volta, o meio ambiente, a fauna, os próprios estímulos que esta água traz. E o local é bom também por questões de temperatura».

«O primeiro estágio que aqui fizemos foi em janeiro, quando sentimos frio em Montemor, que tem um microclima e, por vezes, apanhamos nevoeiro cerrado e temperaturas negativas. Por isso elegemos Portimão como uma zona de preparação para a Taça do Mundo e para o Campeonato da Europa».

«Tínhamos pensado num estágio no Arade e acabámos por fazer três. Tudo tem sido perfeito, até a alimentação à base do vosso excelente peixe, de que os meus atletas gostam muito e é aconselhado a nível nutricional. Só posso dizer que Portimão é o local ideal para que a equipa nacional, nos anos vindouros, possa vir para cá, principalmente no inverno e primavera», diz.

Os atletas Norberto Mourão é natural de Vila Real. Teve um acidente de moto, no qual perdeu as duas pernas, em 2009, aos 28 anos de idade. A necessidade de fortalecer os membros superiores levou-o à canoagem, em 2010.

«Gostei bastante, tive a sorte de ter como treinador o Ivo Quineira e, a partir de 2011, quando tive carro, comecei a treinar regularmente. Primeiro, apenas ao fim de semana, porque fazia fisioterapia nos outros dias. À medida que o número de dias de fisioterapia iam sendo reduzidos, ia aumentando os de treino e os resultados começaram a aparecer aos poucos. Comecei no caiaque e representei Portugal, pela primeira vez, em 2012. Mas houve algumas dificuldades no campo das avaliações e falhei por muito pouco o acesso ao Rio de Janeiro. Para Tóquio, apostámos na canoa e os resultados começaram a aparecer em 2019, com o 3º lugar no Campeonato da Europa, 2º lugar no Campeonato do Mundo e a respetiva vaga para Tóquio.

Floriano Jesus teve um acidente de moto, em 2001, «aos 16 anos, aquela idade em que se quer experimentar tudo, em que somos os maiores e nada nos acontece. Tenho mais anos de cadeira do que a pé», diz. Pela necessidade de fortalecer os membros superiores, começou a praticar basquetebol em cadeira de rodas, mas a equipa acabou e teve de encontrar uma alternativa.

«Mudei de residência e fui viver para Montemor-o-Velho, onde me dediquei à canoagem como fisioterapia. Comecei a fazer umas provas nacionais, onde os resultados foram aparecendo e, em 2018, no Campeonato do Mundo, tive o privilégio de ter conseguido a entrada no Programa Paralímpico, para Tóquio 2020. Fui eu quem deu o impulso à para-canoagem nacional. Pelo resultado que obtive, o Norberto foi viver para Montemor para podermos treinar juntos e voltar a ter uma equipa nacional forte a nível mundial. Em 2019, nas provas para o apuramento olímpico, havia seis vagas e fiquei em sétimo. No ranking mundial, estou em primeiro lugar para as quatro vagas a preencher e vamos disputá-las em maio, na Hungria».