Daniela Campos, a algarvia campeã europeia de ciclismo aos 18 anos

  • Print Icon

Jovem algarvia coleciona taças e medalhas nas diversas vertentes do ciclismo feminino. Mas a recente conquista de um título europeu em ciclismo de pista teve um sabor especial para Daniela Campos.

Daniela Campos, natural de Boliqueime e filha de pai português e mãe holandesa, sagrou-se no dia 10 de outubro Campeã Europeia Júnior de Eliminação, em Ciclismo de Pista.

As provas decorreram em Fiorenzuola d’Arda, Itália, e a jovem algarvia, que defendeu as cores da Equipa Portugal, arrecadou igualmente um terceiro lugar na vertente olímpica de Omnium e uma medalha de prata na corrida por pontos.

Apesar das contrariedades, 2020 está a ser um ano muito especial para a jovem ciclista.

Além dos recentes resultados em Itália, assinou um contrato de dois anos pela Biskaia Durango, uma equipa feminina UCI (Union Cycliste Internationale) Continental sedeada em Espanha.

Antes, com as cores nacionais, tinha já sido 5ª na prova de fundo e 9ª no contrarrelógio individual, no Campeonato da Europa de Estrada, disputado em Plouay, França, em agosto.

E muito em breve, já no dia 28 de outubro, vai estrear-se pela sua nova formação no Bretagne Ladies Tour, uma prova em cinco etapas que faz parte do Calendário UCI.

O ciclismo, para Daniela Campos, começou aos seis anos de idade, quando aprendeu a pedalar com o pai, Pedro Campos. O clube ‘BTT Terra de Loulé’ e também a equipa albufeirense ‘5 Quinas’ encarregaram-se de fazer a formação inicial da agora jovem campeã europeia.

Mas o BTT já ficou para trás, mesmo que os olhos de Daniela não deixem de brilhar quando recorda os seus vários anos de XCO (Cross-country olímpico), coroados com muitos sucessos nacionais e internacionais, e concluídos em março de 2019 com um 3º lugar numa UCI Junior Series disputada em Marselha, França.

Com um enorme sorriso explica ao barlavento que caberá agora ao seu irmão Noah, dois anos mais novo, a tarefa de defender o respeitado nome da família Campos no XCO português.

A juventude da atleta, que entrou na licenciatura em Arquitetura na Universidade de Coimbra, não a impede de olhar para o ciclismo, e para a vida em geral, com bastante maturidade.

«Na estrada poderá ser-me possível estar numa equipa com boas condições, ser profissional e continuar a evoluir. No BTT, em Portugal seria quase impossível e mesmo no estrangeiro as hipóteses seriam sempre mínimas. Por isso, desde o ano passado comecei a dedicar-me mais ao ciclismo de pista e à estrada, porque quero ser uma profissional muito à séria», conta.

A entrada na equipa basca foi preparada com todo o cuidado, pela atleta e também pelo seu treinador, o professor José Luis Algarra, e ainda pelo pai de Daniela.

A competição vai estar sempre a par da formação, para que a jovem ciclista continue a progredir, como pessoa e como desportista de alta competição.

«Tenho a certeza de que vou aprender muito mais em termos técnicos e humanos. Eu sei que ainda preciso de muita formação especializada e de desenvolver novas capacidades, para estar preparada para integrar uma equipa de estrada de alto nível, e também para a pista. Este é o meu principal objetivo para os dois próximos anos na Biskaia Durango», diz.

E assim a vida de Daniela Campos vai começar a dividir-se entre Coimbra, Bilbau e o Algarve, mesmo que a sua inscrição na Universidade de Coimbra esteja ainda em suspenso, porque não lhe está a ser possível beneficiar do seu estatuto de atleta de alta competição.

«Quero continuar a treinar no Algarve, porque é um território fantástico desde que se saibam escolher as estradas mais seguras. Até porque eu não trabalho em quantidade, trabalho em qualidade. Não preciso de treinar horas a fio, preciso de treinar muito bem, com objetivos determinados», detalha.

E para isso muito tem contribuído a orientação do professor Algarra, seu treinador desde há três anos, que acompanha quase diariamente, embora à distância, a preparação da jovem ciclista algarvia, coadjuvado por toda a equipa técnica da Federação Portuguesa de Ciclismo (FPC), a quem Daniela e Pedro Campos reconhecem enorme empenho e qualidade.

Pedro Campos vê esta nova etapa da filha com satisfação e orgulho. «Para mim é importante saber que ela tem objetivos, que trabalha para os concretizar e que encontra a felicidade dela na concretização dos mesmos». E incentiva-a bastante a agarrar com toda a energia o ciclismo.

«Ela está a ter uma oportunidade em termos desportivos que tem uma janela temporal muito própria. Se a conseguir aproveitar agora deve fazê-lo. Depois, pode ser tarde demais. E eu tenho-lhe dito que estudar e trabalhar todos o podemos fazer, independentemente da idade. Se quer ciclismo profissional, é agora».

Participar um dia nos Jogos Olímpicos e a representar Portugal numa das vertentes do ciclismo é, como seria de esperar, o sonho maior de Daniela Campos. E o recente título europeu aguçou-lhe muito essa vontade.

«O momento mais especial de tudo foi mesmo quando subi ao pódio e ouvi o Hino Nacional a tocar por mim. Foi aí que acordei e acreditei que tinha mesmo conquistado aquele título de campeã europeia, e que o nosso Hino tocava por causa disso!», recorda.

E confidencia ao barlavento que só lhe faltou mesmo aquele telefonema do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, aquele sinal de um reconhecimento verdadeiramente nacional por um sucesso alcançado com as cores portuguesas.

De resto, Daniela Campos, a terceira ciclista portuguesa a ingressar numa equipa de ciclismo profissional internacional, considera-se uma jovem feliz, acarinhada pela família, pela FPC e pela sua Equipa Portugal.

Esta última também teve alguma intervenção na contratação basca, assegurando que se manterá uma prioridade para que a atleta continue a representar a cores lusas e a integrar os estágios formativos das Seleções Nacionais de Estrada e de Pista.

«Todos estes resultados são o fruto do meu trabalho, de muita persistência, de acreditar num futuro melhor. E é isso que eu digo sempre às raparigas mais novas, quando me perguntam se devem dedicar-se ao ciclismo de competição. Se se divertirem, se se dedicarem, as recompensas vão sempre aparecer, como me estão agora a aparecer a mim», conclui.

Algarve pode ter papel importante no futuro do ciclismo de pista nacional, diz Gabriel Mendes

Sucessos competitivos como os agora alcançados por Daniela Campos não se constroem sozinhos. Os atletas, a face mais visível das medalhas, contam sempre com o contributo de outros intervenientes, e também dos equipamentos desportivas que têm ao seu dispor.

Ouvido pelo barlavento, Gabriel Mendes, selecionador nacional de pista, acredita que a região algarvia pode vir a ter um papel importante no futuro do ciclismo de pista nacional, seja ele masculino ou feminino.

«O Algarve tem duas pistas de ciclismo, uma em Tavira e outra em Loulé, que necessitam de ser melhoradas e requalificadas. Se estivessem em melhores condições poderiam proporcionar aos nossos atletas excelentes condições de treino e de competição, e até acolher estágios de seleções estrangeiras e provas internacionais. Todos nós ganharíamos muito porque essas experiências e competições são indispensáveis para que o ciclismo de pista português continue a progredir, como tem acontecido nos mais recentes anos».

Em relação a Daniela Campos, o técnico considera que «é uma atleta muito jovem e com uma curta experiência internacional. Tem bastantes capacidades e potencial, mas ainda está numa fase decisiva de aprendizagem. Está a evoluir bem e a aproveitar todas as oportunidades que lhe vão surgindo para melhorar e para dar continuidade ao trabalho que tem vindo a fazer com a Federação Portuguesa de Ciclismo e a Equipa Portugal».

Segundo Gabriel Mendes, «o processo de trabalho, para jovens como a Daniela, assenta muito na formação e no desenvolvimento. Procuramos dotar os atletas das competências necessárias para que, no futuro e com base em todas as suas capacidades pessoais, estejam aptos a competir para ganhar».

«Fomos para este Campeonato da Europa com o objetivo de proporcionar à Daniela mais oportunidades de crescimento como pessoa e como ciclista, tendo em vista o seu futuro, sem descurar, claro, a luta pelos melhores resultados possíveis e até discutir as vitórias».

«Mas, e quero frisar bem, não foi esse o objetivo principal, porque os resultados só são importantes se forem a consequência de um processo de trabalho e de evolução bem fundamentado e conseguido», sublinha.

Enquanto selecionador nacional, Gabriel Mendes ficou satisfeito quer pelas medalhas que a jovem algarvia trouxe para Portugal, quer especialmente pela capacidade da atleta em evoluir durante todo o Campeonato da Europa, ao longo da qual foram cometidos alguns erros, identificados em conjunto, e de imediato corrigidos, o que resultou num melhor desempenho competitivo.

«Nós não fomos para Itália especialmente focados nos resultados. Fomos focados na capacidade de aprendizagem ao longo dos vários dias de prova e como isso foi conseguido, os resultados surgiram com alguma naturalidade. Se não tivessem surgido, a Daniela não teria para nós menos valor como ciclista de grande potencial e que, eventualmente, só atingirá o auge daqui a alguns anos», remata.

Neste momento, sintetiza o selecionador nacional de pista, as maiores qualidades assentam em ser uma «jovem ciclista trabalhadora, concentrada e atenta, determinada nos seus objetivos, disponível para ouvir a aprender, assimilando a bom ritmo os novos conhecimentos. Precisa agora de ter tempo e paciência para chegar a um alto nível».